É dificil escolher prioridades

Juro, câmbio, inflação, emprego, comércio exterior, desafios que o Banco Central e a equipe econômica enfrentam atualmente. São decorrentes do crescimento econômico, alto nível de emprego e consumo atendido por importações. Elas chegam ao País com preços menores, mas não o suficiente para compensar a crescente inflação.

Alberto Tamer, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2011 | 00h00

Não dá para definir prioridades. Tudo se soma e entrelaça, num quadro de dependência múltipla. O BC faz sua parte. Mantém os juros elevados para conter a demanda e a inflação, mas o aumento da renda, decorrente de mais 2,5 milhões de empregos em carteira, e do novo salário mínimo mostram que só isso não será suficiente.

No câmbio, a eterna armadilha que nos persegue. Juros altos para desaquecer a demanda atraem mais investimentos externos em busca de rentabilidade maior, levando a uma inundação de dólares que derrubam a cotação da moeda. Tudo caminha para uma valorização maior do real, que o aumento do IOF na entrada de capitais não conseguiu segurar. Não dá para sair da armadilha em um curto prazo. Não é só administrar o câmbio, é tudo.

Mais isso. Aqui reside a grande distorção que é preciso sempre lembrar. A participação das exportações de manufaturas brasileiras continua caindo. Representavam 44% da pauta em 2009 e apenas 39% no ano passado. Enquanto isso, as vendas de básicos aumentaram de 40% para 45%. O petróleo e minério de ferro pesaram decisivamente nesse resultado, mas ganham corpo outros produtos como soja e açúcar.

A voracidade da China por produtos básicos brasileiros, minério e agropecuários, e a sua parcimônia em importar industrializados impressionam e assustam, mesmo porque roubam empregos no País. A China foi o principal mercado das exportações, no ano passado,15% do total, seguida pelos Estados Unidos, 9,5% e a Argentina, 9,2%.

Não é só isso. A professora Lia Valls Pereira, coordenadora do Centro de Estudos do Setor Externo da Fundação Getúlio Vargas, lembra à coluna que a concentração nas vendas de básicos cresce a cada ano. Não é só a China, é a Ásia. "A pauta de exportações para a Ásia continua dominada pelos básicos. A participação das manufaturas para essa região caiu de 16,5% para 10,2%."

EUA também. O cenário de primarização da pauta externa não é diferente quando comparado com outros parceiros comerciais. "Nas exportações para os Estados Unidos, a participação das manufaturas caiu de 63%, em 2007, para 52% no ano passado. O principal produto exportado foi o óleo de petróleo bruto, que representa 20% das vendas brasileiras para esse mercado, seguido pelo café (5,5%) e pasta química de madeira (4,2%)", afirma ela.

Os vizinhos salvam, ainda, mas começam recuar. "O principal mercado das manufaturas brasileiras continua sendo a Associação Latino-americana de Integração (Aladi). Isso significa 43% do total das vendas de manufaturas do Brasil, seguido da União Europeia (19,4%) e dos EUA (12,7%). No entanto, mesmo na Aladi, há uma pequena queda na participação de manufaturas brasileiras, de 87% em 2007 para 84% no ano passado."

A professora Lia Valls Pereira assinala que as exportações brasileiras para os EUA têm crescido, mas a participação na pauta cai desde 2003/2004. "Primeiro, houve uma diversificação dos mercados para os quais o Brasil exporta. Houve, em seguida, a alta dos preços e da demanda de commodities por outros parceiros. Isso elevou a participação de países, como a China, que demandam esses produtos."

Para Lia, "os Estados Unidos ainda são um importante mercado para as manufaturas do Brasil e na pauta ainda predominam esses produtos (52%)".

O ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, assumiu decidido a rever todo o cenário do comércio externo brasileiro. É um desafio antigo que ele pretende mudar.

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