'É extremamente necessário reduzir a meta da inflação'

Economista, que por 25 anos foi responsável pelo IPC-Fipe, diz que a redução da meta completaria o Plano Real

MÁRCIA DE CHIARA , O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2014 | 02h06

Na semana em que a inflação deu um salto e atingiu em 12 meses até setembro 6,75% e estourou o teto da meta, um dos maiores especialistas em inflação do País, Heron do Carmo, professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo, recomendou ao candidato que vencer a eleição presidencial uma política "pão, pão, queijo, queijo" para baixar a inflação. Isso significa fazer rapidamente o ajuste de preços administrados reprimidos para combater a crise de confiança no ambiente de negócios, que afetou investimentos e inflação.

Heron diz que a inflação seguirá pressionada em 2015 e a economia deve voltar a crescer em ritmo mais forte no segundo semestre. Ele concorda com a proposta de reduzir a meta de 4,5% para 3%, feita pelo economista Armínio Fraga, indicado para ser ministro da Fazenda pelo candidato do PSDB, Aécio Neves. "Isso não só é factível como extremamente necessário para completar o Plano Real, trazendo a inflação para um padrão internacional", disse. A seguir, os principais trechos da entrevista:

O que explica a inflação alta com crescimento tão baixo?

É o desajuste fiscal. Nós deixamos o superávit primário para termos um déficit primário. Também houve uma contaminação do ambiente de negócios e da atividade pelo cenário eleitoral. Os investimentos acabaram sendo postergados, o que afetou também preços.

Como esse desajuste fiscal está gerando inflação?

O lado fiscal está contribuindo para expandir a demanda e a política monetária, para segurá-la. Não estamos com uma inflação muito diferente da de anos anteriores. Mas a oferta é que não está acompanhando a demanda por uma série de problemas, como o ambiente de negócios. Quem tem condição hoje de determinar preço, prefere manter a margem ajustada, mesmo perdendo mercado. Ele acaba segurando a produção ou fazendo com que ela evolua num ritmo menor. Isso vale até para profissionais, que se previnem no preço porque veem mais inflação adiante.

Essa administração de preços públicos foi o foco das pressões inflacionárias?

Também. Isso teve efeito na política fiscal. Quando houve a crise financeira internacional, no fim de 2008 e início de 2009, foram tomadas diferentes medidas para apoiar principalmente o setor de bens duráveis de consumo, com a redução de carga tributária. Acho que a decisão foi na direção correta, era o que tinha de ser feito mesmo. Só que depois a manutenção da redução do imposto para o setor automobilístico não foi feita pensando na melhora da atividade do setor. Foi feita pensando na inflação, porque esse negócio tem peso grande no IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo, a medida oficial de inflação). A desoneração de alimentos que aconteceu em abril do ano passado foi a mesma coisa. Ou seja, houve uma distorção de política. Do lado fiscal, houve o problema da contabilidade criativa. Essa criatividade não ficou só na contabilidade. Nitidamente foi usada na administração do índice. Se não fosse isso, a inflação já teria ultrapassado o teto da meta e aí outras medidas seriam tomadas. Isso tudo foi feito, a meu ver, por causa das eleições. A única justificativa que eu vejo para fazer isso. Agora que nós não teremos eleições, isso vai ser resolvido quer por um, quer por outro candidato que ganhar o pleito.

O que o sr. recomendaria a quem vencer a eleição para reduzir a inflação?

O que o governo tem de fazer é o pão, pão, queijo, queijo. Acertar a política fiscal coerentemente com a monetária e deixar desvalorizar um pouco mais o real. Fazer o ajuste de preços públicos reprimidos.

Isso não geraria inflação?

Sim, num primeiro momento. Mas, no período subsequente, haverá redução. Com isso, o ambiente de negócios melhora e a economia fica mais confiável, principalmente para o investidor local. Fazendo para o investidor daqui, o de fora vem e tira-se da frente o risco de o País ter a nota rebaixada.

O ajuste tem de ser feito de uma vez só?

Não é preciso fazer um tarifaço, mas o ajuste deve ser feito num período de tempo relativamente curto. O combustível daria para ter um acerto de imediato. O caso da energia elétrica, que já está começando a se acertar por outros caminhos, pode ser um pouquinho postergado. O impacto desse ajuste é um ponto e meio na inflação que pode até ser eventualmente compensado, se tivermos um bom início de ano para alimentos. De um lado, isso faz com que as pessoas tenham previsibilidade para os preços. De outro, contribui para as finanças públicas, com aumento da arrecadação. Como os serviços de utilidade têm demanda inelástica, ou seja, se o preço aumenta, a demanda não se retrai na mesma proporção, a tendência é crescer a arrecadação. Na energia elétrica, por exemplo, um terço do valor da conta é ICMS. Nos combustíveis, 50% é imposto.

Nesse cenário de ajuste, o sr. acharia necessário subir juro?

Poderia ser feito. Não seria algo despropositado.

Por quê?

Porque teríamos o repique da inflação no início do ano. O que tenho na cabeça é basicamente o que ocorreu de 2002 para 2003 (transição do governo FHC para Lula).

O cenário está se repetindo?

Só que agora numa situação muito mais favorável.

Por quê?

Porque nós não temos aquele problema do setor externo, de FMI, e a economia com o lado externo muito fragilizado. Estamos numa situação melhor em termos de fundamentos do que tínhamos naquela época. O ajuste é mais fácil e depende da retomada de confiança. Para isso, é bom fazer logo o que tem de ser feito.

Esse ajuste teria impacto no crescimento de 2015?

Provavelmente o crescimento continuaria sofrendo, mas já estamos sem crescer. O ajuste sinalizaria que a economia entraria numa nova perspectiva já no ano que vem.

Ainda vamos ter inflação alta e baixo crescimento em 2015?

Sim. Se houver esse ajuste, teremos baixo crescimento no primeiro e no segundo trimestres. É possível ter algum problema de recessão no início do ano, mas o importante é que tenha uma sinalização de retomada a partir do segundo semestre, tal como aconteceu em 2003, com inflação menor e atividade mais aquecida.

Como o sr. vê a questão do câmbio para 2015?

Já houve uma devolução do câmbio. É preciso destravar esse negócio de tentar segurar o câmbio. Pode soltar um pouco. Isso tem o efeito de contribuir para melhorar o setor externo, lembrando que a taxa de juros já está alta e talvez seja necessário um aumento adicional pequeno. Outra questão é o ambiente de negócios que esses índices de confiança estão mostrando. Precisa uma ação para destravar a economia. Muita coisa não foi feita, muito investimento postergado, porque o ambiente de negócios está ruim.

Armínio Fraga, que foi indicado para ministro da Fazenda, se o candidato da oposição vencer a eleição, disse que pretende reduzir o centro da meta de inflação de 4,5% para 3% e o intervalo de flutuação de dois pontos para um ponto e meio porcentual. O sr. acha factível? E em quanto tempo isso poderia ocorrer?

Isso não só é factível como extremamente necessário.

Por quê?

Com meta de inflação baixa, você melhora muito o ambiente de negócios. É como se fosse um marco regulatório básico. Inflação mais alta só cria confusão. Mas pelo o que eu li numa entrevista do Armínio (Fraga), isso não é para agora. Mas, particularmente, acho que isso é o que compete ao governo. O governo deve calibrar a política fiscal e monetária para resolver a inflação. Isso ele pode fazer. A meta para o governo atual nunca foi de 4,5%. Em 2006, a inflação ficou em torno de 4% e a meta foi mantida em 4,5%. Eu nunca vi um negócio desses. A meta para o BC parecia ser 6,5%. É perfeitamente possível, fazendo esse ajuste que eu disse, trazer a inflação para 4,5% já nos próximos anos. Para o meu gosto, seria nos próximos dois anos. A hora que atingir 4,5%, você baixa a meta para 3%.

Por quê?

Se você tiver 3% de meta, o teto será 4,5%. O que era centro passa a ser teto. Faz muito sentido isso aí. Na hora que você chegar a 3%, é o fim da história. Você mantém em 3% e não precisa esquentar a cabeça e baixar para 2%. Isso não só é factível como extremamente necessário para completar o Plano Real, trazendo a inflação para um padrão internacional.

Em 2015, o câmbio deve ficar pressionado, as commodities em queda e há chance de que o juro suba nos EUA. Isso terá impacto na inflação?

Vai depender de como esses fatores serão administrados aqui. Há efeitos controversos. O juro tende a subir nos EUA, a depender do vigor da economia americana. Se a economia dos EUA melhora, ela absorve mais nossas exportações e atenua em parte o problema externo. O fundamental é que o próximo governo faça o que é de responsabilidade dele. Porque nós não temos controle sobre o que se passa na economia mundial.

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