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''É função do BC contrariar interesses''

Meirelles conta que, no início de 2008, conversou com o presidente Lula sobre a possibilidade de deixar o cargo

, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2010 | 00h00

Neste trecho da entrevista, Meirelles fala sobre as pressões que sofreu nos oito anos de Banco Central (BC).

Quando anunciaram a sua saída, o ministro Mantega disse que a chegada do Tombini era boa porque ele, como funcionário público de carreira, não iria titubear se tivesse de prejudicar o setor financeiro. O sr. titubeou?

Não vi essa declaração, mas tenho confiança de que o Tombini não vai titubear não só em contrariar o setor financeiro, mas o setor exportador, o industrial ou até os desenvolvimentistas. Como eu fiz.

Como o sr. interpretou a fala do ministro Mantega?

Me pareceu que ele estava procurando elogiar o Tombini.

Como o sr. descreveria seu relacionamento com Mantega?

Profissional. Havia divergências, como seria natural.

E o modo como essas divergências foram explicitadas?

Não há dúvida de que pressões sobre o presidente do Banco Central existiram durante os oito anos. É o jogo de pressão normal de um Banco Central que não tem autonomia legal.

O sr. foi alvo de fogo amigo do início ao fim do governo. Qual doeu mais?

(pausa) Houve vários momentos difíceis. O início, 2003, foi difícil. Depois, quando retomamos a trajetória de subida de juros em 2004, foi um momento muito difícil, de muito ataque. Outros interesses também podem ter sido contrariados. Houve um período de ataques muito intensos, inclusive pessoais.

Quais interesses contrariados?

É função do BC contrariar interesses. Quando sobe o juro, quando toma decisão na área cambial, quando não aceita pleitos de devedores ou instituições. O fato de eu ter sido muito atacado nos últimos anos é o que me deixa mais tranquilo. É o maior elogio.

O sr. chegou a pôr o cargo à disposição do presidente Lula?

Não.

Pensou?

Não. Tenho uma característica pessoal. Minha mãe foi contra eu entrar na vida pública. Achava a vida pública ingrata e sujeita a ataques. Quando entrei, ela aceitou e apoiou. Quando fui muito atacado, inclusive em termos pessoais, nesse período de 2004 e 2005, um dia cheguei em casa, minha mãe já com mais de 90 anos, meu pai já tinha morrido, uma amiga dela disse: "Dona Diva, a sra., que sempre foi contra o Henrique entrar na vida pública para não ser atacado injustamente como está sendo, por que não diz para ele sair?" Ela respondeu: "Agora não! Agora ele vai enfrentar! (risos)". Esse é meu temperamento. Uma vez comentei com o presidente que deveríamos considerar a hipótese de eu sair. No ano anterior, o BC tinha entregado a inflação na meta, o Brasil tinha crescido. Disse que era um excelente momento para sair, que ele poderia fazer uma transição tranquila. Ele ficou de pensar, conversamos e, depois de algumas semanas, me procurou para dizer: "Meirelles, esqueça esse assunto."

Divulgou-se que o presidente convidou o economista Luiz Gonzaga Belluzzo para sucedê-lo.

Eu não tenho informação nenhuma sobre convite.

Quando foi isso exatamente?

Em março de 2008. Não tinha sinal de crise no Brasil. Na crise, não faria isso.

O presidente alguma vez pediu ao sr. para não elevar ou baixar a taxa de juros?

Não. O presidente, algumas vezes, manifestou sua opinião, inclusive em público. O importante é que aprovou os resultados.

Por que o juro real no País ainda é o mais alto do mundo?

Porque os prêmios de risco da economia brasileira ainda são mais altos do que na maioria dos países. Se o País continuar uma trajetória de inflação na meta, riscos cambiais decrescentes e riscos fiscais também decrescentes, a tendência é convergir para padrões internacionais.

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