Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

'É grande a possibilidade de ficarmos no teto da meta'

Para o economista, o efeito da recessão sobre a inflação deve atenuar a pressão altista provocada pela elevação dos preços das matérias primas

Entrevista com

Heron do Carmo, professor de Economia da FEA/USP

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2016 | 16h28

O economista Heron do Carmo, professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP) e um dos maiores especialistas em inflação, diz que o salto captado pelo IGP-M de maio por conta da elevação dos preços de matérias primas agrícolas e minerais está em sintonia com os resultados de outros índices já divulgados. A prévia da inflação oficial (IPCA-15) para maio ficou em 0,86% e foi o maior resultado para esse mês desde 1996.

Apesar do avanço do IGP-M, Heron acredita que a forte presença dos serviços, que respondem pela metade do IPC e sentem de perto os efeitos da recessão, deve atenuar a alta dos preços das matérias primas.

Na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), marcada para os dias 7 e 8 de junho, o economista acredita que a autoridade monetária terá uma postura conservadora e mantenha a taxa de juros em razão de medidas já encaminhadas, como o ajuste fiscal e a solução para o impasse político. 

“Também acho provável que nos próximos meses tenhamos choques favoráveis que possam fazer com que haja redução na previsão da inflação”, diz Heron. Ele ressalta que o BC considera a questão da inflação corrente, das previsões e também outras variáveis importantes para determinar a trajetória da inflação a médio prazo.

O economista não descarta, no entanto, a possibilidade de que a inflação deste ano recue para 6,5%, que é o teto da meta, apesar de projetar um índice de 7%. “Com essa crise, o mais provável é que nós tenhamos uma redução. Acho que tem grande possibilidade de ficarmos no teto da meta, que de 6,5%. A seguir os principais trechos da entrevista.

Como o senhor avalia o resultado do IGP-M de maio de 0,82%  e que deu um salto em relação a abril (0,33%)?

O resultado está em sintonia com outros índices que foram divulgados. Houve uma surpresa também no IPCA-15, do IBGE, com uma taxa de inflação um pouco mais alta, devido ao efeito de El Niño e de reajuste de preços de remédios e cigarro, tarifa de água e esgoto. Do outro lado, temos no momento atual uma pressão afetando preços, principalmente, de commodities que o Brasil exporta para a China, que é o caso de alimentos. Há uma escassez de oferta de milho, por exemplo, e de minério de ferro. Se um produto como o milho aumenta de preço, isso acaba afetando os demais. Evidentemente, isso se propaga pela cadeia. O efeito disso é que nós podemos ter preços de alimentos um pouco mais pressionados ao consumidor nos próximos meses.

Qual o impacto da alta captada pelo IGP-M no IPCA?

Esse impacto se dilui muito, porque o IPCA, ao contrário do IGP, é predominantemente de serviços. E alguns itens de serviços vem apresentando queda, como os aluguéis. Muito provavelmente teremos reflexos nos preços de alimentos e em toda a cadeia que depende de soja, milho. Isso pode ou não ser compensado por talvez uma evolução mais favorável de alimentos hortifrutigranjeiros, uma vez que está cessando de atuar o El Niño.

O senhor acha que essa alta do preços das commodities pode atrasar a tendência de desaceleração da inflação?

Acho que não. A expectativa do mercado é uma taxa em torno de 7%. Se considerarmos a expectativa há alguns meses, houve uma melhora significativa da projeção. Acho que pode ocorrer até uma evolução mais favorável da inflação devido à intensidade da crise. A intensidade da crise deve ter um efeito importante sobre preços de serviços, por exemplo, e acabar compensando as pressões eventuais dos alimentos.

Os preços dos serviços pesam mais do que o preço dos produtos na inflação ao consumidor?

Metade do IPCA é serviços mesmo. A outra metade é de produtos, mas que incorporam muitos serviços. Ou seja: o que é comercializado no supermercado é processado, transportado e financiado. Há sempre a influência dos serviços.

Nesse jogo de forças, os serviços e a recessão vão pesar mais na inflação do que a alta das commodities?

Sim, vão pesar mais na inflação no sentido de atenuar esse efeito de alta primária de preços.

O senhor acha que no IPCA fechado de maio deve aparecer alguma coisa ou por conta da recessão esse efeito das commodities não deve ser tão significativo?

Já tem um efeito previsto por conta de o próprio |IPCA-15 ter ficado acima das expectativas e isso afetou a expectativa do IPCA fechado de maio. A questão é em relação à expectativa dos próximos meses. A tendência é que o índice em 12 meses apresente desaceleração.

Os resultados do IPCA-15 e do IGP-M afetam a decisão do Copom na próxima reunião marcada para 8 de junho?

Há uma questão política. Não sei se até lá terá mudado o comando do Banco Central (BC). Eu diria que o mais provável é que o BC tenha uma postura mais conservadora de manter a taxa. Qualquer queda na taxa deve ocorrer mais para adiante. O BC leva em consideração a expectativa de inflação, considerando uma série de fatores. Há uma perspectiva de pelo menos algum horizonte de controle do lado fiscal. A solução do impasse político está sendo encaminhada. As expectativas estão melhorando. Isso tudo, além da profundidade da crise, pode levar o BC a reduzir a taxa de juros mais para frente. Acho pouco provável que seja nesta reunião porque estamos em fase de mudança da presidência do Banco Central.

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