É hora de mexer na Selic?

É hora de mexer na Selic?

Tudo indica que sim. Houve, nos últimos meses, uma aceleração simultânea e sincronizada da taxa de crescimento econômico e da taxa de inflação, ambas medidas por diferentes indicadores. Entretanto, é possível desenhar um cenário alternativo da economia no curto prazo que indique um outro momento mais adequado para um eventual início do ciclo de elevação da Selic.

Paulo R. Haddad, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2010 | 00h00

Em princípio, o uso de todo instrumento de política econômica deve ser analisado dentro de uma rede de precedência, que envolve o sequenciamento, a cadência e a intensidade das ações a serem implementadas. Essa rede de precedência define critérios que possibilitam acionar um plano, um projeto ou um instrumento no tempo ideal, com os melhores resultados possíveis para os objetivos propostos dentro dos princípios da precaução e do risco mínimo para as políticas públicas.

Dentro dessa linha de raciocínio, é possível construir um conjunto de argumentos para destacar uma possível desaceleração tanto da taxa de inflação quanto da taxa de crescimento econômico ao longo dos próximos meses. A percepção, a qual não é consensual, é a de que deverá se observar uma perda de eficácia do ímpeto inicial das medidas fiscais e monetárias antirrecessão, estruturadas de forma inteligente e rápida pela equipe econômica do governo federal desde o último trimestre de 2008. Incentivos fiscais estão sendo retirados atualmente de setores-chave que garantiram a inequívoca retomada do crescimento econômico. O crescente endividamento público indireto por meio das instituições financeiras federais está comprometendo o nível de confiança dos investidores em papéis da dívida pública. O compromisso com o superávit primário maior e sem mágicas contábeis tende a restringir a capacidade de execução dos programas e projetos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Enfim, do lado fiscal, não há muito espaço para continuar pressionando direta e indiretamente a demanda agregada.

Entre outros componentes da demanda agregada, não se percebe que famílias crescentemente endividadas possam alavancar novos patamares de consumo em 2010; que investidores empresariais tenham absorvido as incertezas e os ajustes estruturais que permeiam uma economia global ainda sob o risco de um segundo mergulho recessivo; que novos atos generosos de desonerações tributárias possam estimular outros setores de grande dinamismo econômico.

Quanto ao comportamento da inflação, as incertezas são mais agudas. De um lado, tem-se o que se denomina inflação gregoriana, os conhecidos ajustes de preços relativos na virada do ano para repasse de custos realizados e esperados. Tem-se também a expectativa (nem sempre comprovada) do aumento do gasto público em ano de eleições. Da mesma forma, a propalada "perda de controle do processo inflacionário" por protagonistas do mercado financeiro pode levar ao contexto de profecias autoconfirmadas por meio da consolidação das expectativas inflacionárias. Mas há de se convir que as taxas de inflação neste início de 2010 estão engravidadas de variações em preços, sujeitas a eventos cíclicos, fortuitos e ocasionais que podem não se replicar ou se reproduzir ao longo dos próximos dois ou três meses.

Assim, seria recomendável deixar o ano de 2010 rodar mais algum tempo, observar se a taxa de crescimento do PIB não vai se acomodar no nível mais baixo de 4% a 5%, se a taxa de inflação não irá gradativamente convergir para a meta de 4,5% e, aí então, mexer ou não na taxa Selic.

Uma das questões mais delicadas nas políticas econômicas anticíclicas é a de posicionar o melhor sequenciamento em ritmo e em intensidade, para ativar ou desativar determinados instrumentos que têm se mostrado relativamente eficazes para os seus objetivos. Particularmente, num momento em que a atual crise econômico-financeira global tem, entre suas raízes, o fracasso intelectual das previsões dos economistas.

PROFESSOR DO IBMEC/MG, FOI MINISTRO DO PLANEJAMENTO E DA FAZENDA NO

GOVERNO ITAMAR FRANCO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.