'É hora de o Brasil enfrentar os gargalos'

Presidente mundial daUnilever diz que o Paísavançou na inclusãosocial, mas precisa setornar mais competitivo

Entrevista com

Paul Polman, presidente executivo da Unilever

JAMIL CHADE, O Estado de S.Paulo

03 Dezembro 2014 | 02h04

GENEBRA - A Unilever, uma das maiores empresas do mundo, alerta: chegou o momento de o Brasil enfrentar os gargalos da economia para voltar a crescer. Em entrevista ao Estado e a uma agência internacional de notícias, o CEO da Unilever, Paul Polman, falou sobre a projeção para 2015, traçou um exame dos mercados emergentes e deixou claro que aposta que a economia mundial está passando por sua fase mais difícil. "A partir de agora, voltaremos a crescer paulatinamente."

Polman não deixa dúvidas sobre a dimensão de sua empresa. "Em alguns países, chegamos a mais casas do que o serviço de correio." A cada dia, 2 bilhões de pessoas consomem produtos da empresa em 190 países. A multinacional faturou 49,8 bilhões em 2013.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como a Unilever avalia a baixa taxa de crescimento entre os países emergentes?

Há uma desaceleração. Mas em muitos locais ainda encontramos um crescimento saudável. Acabo de chegar da Ásia, onde o crescimento baixou para 4% ou 5%. Os americanos e europeus matariam para chegar a isso. É tudo relativo. Não vamos subestimar o crescimento dos emergentes. Quase 60% de nossos negócios estão nas economias emergentes.

Mas dependendo dos emergentes para 60% de seus negócios, o impacto dessa desaceleração não é sentida?

É verdade que o crescimento caiu um pouco. Mas isso por causa das reformas estruturais que terão de ser realizadas. Isso já começou a ocorrer. Mas não podemos esperar que as coisas mudem de um dia para o outro. Na Índia, um novo governo assumiu. Não será no dia seguinte que o crescimento voltará, levará alguns anos. A China passa por reformas e a Indonésia caminha na mesma direção, esperando que os mercados possam funcionar de forma mais eficiente.

Como o sr. vê a situação do Brasil que, depois de entrar em recessão, agora apresenta uma baixa taxa de crescimento?

O Brasil tem uma boa oportunidade. Teremos uma continuidade de governo e, com o fim das eleições, o fator da incerteza acabou. O País conseguiu tirar milhões de pessoas da pobreza, num processo que começou nos anos de Lula. O resultado tem sido uma sociedade mais inclusiva e uma economia que cresceu. Mas agora chegou o momento de o Brasil enfrentar seus gargalos. Há um sistema tributário e legal complexo e a infraestrutura que não conseguiu acompanhar as demandas por desenvolvimento. No Brasil, tudo dependerá de qual será o ritmo que o País conseguirá avançar em infraestrutura, no sistema legal e em um sistema tributário simplificado. Isso hoje consome a energia que deveria ser gasta em fazer a economia crescer e ser mais competitiva.

O que o sr. espera do segundo mandato da presidente Dilma?

Que ela olhe para esses aspectos. Pelo menos espero que isso ocorra, pelo bem do Brasil.

A China o preocupa?

Não. O que ocorre em um país emergente é compensado, no nosso caso, em outra região do mundo. Estamos em 190 mercados. É verdade que existem muitas tensões hoje no mundo. Mas existem muitas oportunidades. A beleza de empresas como a nossa é de que podemos compensar.

Quais são as regiões do mundo que o fazem ficar otimista?

A África é uma delas. Na América Latina também temos boas perspectivas. É verdade que eles precisam passar por alguns ajustes, como é o caso da região a cada dez anos. Vemos com certo otimismo a situação do Vietnã e a abertura de Mianmar. Esses países estão entrando na classe média e isso é muito excitante para uma empresa como a nossa.

Quais são os planos de investimentos nos emergentes em 2015?

Vamos continuar a investir nos emergentes. Estamos erguendo 24 fábricas no mundo. 23 delas são nos emergentes. Não dá para dizer que não estamos investindo. No Brasil, estamos buscando novas oportunidades para investir. Apesar da desaceleração da economia, sempre crescemos mais de 10% no País. Não podemos reclamar. Vou ao Brasil duas vezes por ano. É um mercado muito importante para nós.

E qual avaliação que o sr. faz sobre a economia mundial em 2015?

Acho que chegamos ao ponto mais baixo. Na Europa ainda tem um ambiente muito difícil. Mas já vemos alguma recuperação nos EUA. Estamos passando pelo ponto de estresse e, a partir de agora, voltaremos a crescer paulatinamente. O próximo ano deve ser um pouco melhor que 2014, segundo o FMI. Espero que, desta vez, eles estejam certos.

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