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Arquivo/Reuters
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É importante um líder saber que aquele que está por cima um dia poderá estar por baixo

Tristes os países que têm que escolher entre uma corrente política acusada de corrupção e outra corrente autoritária, tendo que optar pelo mal menor

Fabio Giambiagi*, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2021 | 04h00

Há poucos lugares nos quais a imaginação popular se expressa tão livremente quanto num campo de futebol. Como alguns leitores talvez saibam, me criei na Argentina e estava lá quando ocorreu o golpe de 24 de março de 1976, que levou ao poder o ditador Jorge Rafael Videla. A verdade é que o governo de Isabel Perón caía sozinho. Embora o que ocorreu tenha sido, claramente, um golpe – e dos mais sanguinários da já cruenta história da América Latina dos anos 70 –, o fato é que praticamente ninguém apoiava o governo em março daquele ano. Ter uma pessoa evidentemente despreparada na direção do país é uma razão importante para o descrédito da instituição presidencial. Um contexto de terrorismo generalizado, de ambos os lados do espectro político e diante da passividade oficial, gerando uma sensação dramática de vazio de Poder, é também um convite a que alguém pretenda “virar a mesa”. Denúncias de corrupção, como as que abundavam naqueles anos, também tendem a gerar desprestígio às autoridades. Por último, uma completa desorganização da economia tende muitas vezes a derrubar o governante.

Quando os quatro fatos – uma liderança política completamente fraca; mortes e atentados todas as semanas; denúncias de corrupção; e uma inflação que chegou a ser da ordem de 100% ao mês – se combinam ao mesmo tempo, é fatal: o governo cai. Numa democracia em que os ritos sejam respeitados, isso deriva em renúncia ou impeachment. No conturbado contexto histórico da região naquela época, infelizmente, o desfecho tradicional, nesse tipo de situação, era um golpe militar.

“O que o futebol tem a ver com isso?”, indagará o leitor. Chegarei lá. “Isabelita” era uma pessoa inepta para o exercício da presidência e era chamada popularmente de la loca. No caos administrativo em que o governo mergulhou após a morte de Perón, em 1974, a administração foi sendo dominada por um personagem sinistro, uma espécie de Rasputin que, por sua dedicação às ciências ocultas (sobre quem circulavam histórias rocambolescas), era conhecido como el brujo. Completam a história que vou contar as figuras do general Videla, que cultivava um famoso “bigodão”; e do seu ministro de Economia, Martínez de Hoz, caracterizado nas caricaturas com orelhas enormes, um traço físico da sua figura, ambos detestados pela população, pela combinação de repressão e perpetuação da crise econômica que marcou a gestão dos militares.

Aqueles eram anos terríveis, mas, no anonimato das torcidas, a continuidade das agruras econômicas gerou nos campos de futebol um “grito de resistência”: Con la loca y el brujo/vivíamos de lujo/con Bigote y el Oreja/corremos la coneja/Que vuelvan los ladrones/La-ra-la-ra-la-ra. Um esclarecimento: correr la coneja, na gíria local, significa “correr atrás do prejuízo”, quando “sobram dias no fim do salário”. Conversando com um amigo portenho, mês passado, acerca das reviravoltas políticas na região, ele me lembrou do tal cântico. Pensando na atualidade daquele grito da torcida, à luz dos casos de países como Argentina ou Peru, com os altos e baixos de políticos poderosos muito questionados que, após uma fase de ostracismo, retornam ou pretendem retornar ao Poder, há três reflexões a fazer. 

A primeira é que a História é um pêndulo. Como diz um amigo, também portenho, la Historia es una p.... Anda siempre con los que ganan. É sempre importante um líder político saber que aquele que está por cima um dia poderá estar por baixo tempos depois. 

A segunda reflexão é que há povos que não têm uma cultura democrática e republicana muito profunda e, dependendo das circunstâncias, encararão com bastante elasticidade desvios éticos de governantes que, em outros países mais avançados, os levariam ao descrédito absoluto.

A terceira é deprimente: tristes os países que têm que escolher entre uma corrente política acusada de corrupção e outra corrente autoritária (e também acusada de corrupção), tendo que optar pelo mal menor.

*ECONOMISTA

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