É inevitável Europa passar por choque de crédito, diz Delfim Netto

Para ex-ministro da Fazenda, zona do euro só sairá da crise quando contas públicas dos países membros passarem a ser administradas por uma federalização

Ricardo Leopoldo, da Agência Estado,

30 de novembro de 2011 | 14h49

SÃO PAULO - O ex-ministro da Fazenda Delfim Netto disse nesta quarta-feira, 30, em entrevista à Agência Estado que é "inevitável" que a Europa entre em recessão e registre um credit crunch (choque de crédito) em 2012. "O que é crise? É um problema básico de confiança dos agentes econômicos. Na atual conjuntura internacional, os bancos também sofrem com esse processo e encurtam a concessão de crédito", destacou. "Como a Europa vai desacelerar fortemente e a crise será longa e vai perdurar alguns anos, deve ocorrer um corte do crédito brutal no curto prazo", destacou.

Na opinião de Delfim Netto, caso o crescimento na Europa atinja 1% no próximo ano, "devemos levantar as mãos para os céus". Segundo ele, a zona do euro só deve sair da crise quando for criada uma federalização da administração das contas públicas dos seus países membros, com o suporte institucional de uma espécie de Lei de Responsabilidade Fiscal dos gestores oficiais. "Além de certa forma de perda da soberania fiscal de cada Estado, é essencial que o Banco Central Europeu se torne rapidamente o emprestador de última instância do continente", afirmou.

Para o ex-ministro, é urgente que a união fiscal e o novo papel do BCE sejam definidos em 2012, pois do contrário a crise na zona do euro vai se agravar dramaticamente. "A Europa está à beira do abismo", disse. "Mas a federalização das contas públicas e o BCE como emprestador de última instância são fatos inevitáveis, pois a alternativa é muito pior."

De acordo com ele, o fim da zona do euro pode degringolar para o surgimento de governos autoritários e "até conflitos bélicos de grandes proporções", como ocorreram na guerra franco-germânica de 1870 e na 1.ª e 2.ª Guerras Mundiais no século passado.

"Vai ter um custo alto, mas vai ser pago. A zona do euro é uma ideia política num continente que a cada 30 anos tem arbitragem militar para resolver algum problema", disse. "Calcule só os custos daqueles três eventos, em matéria de destruição de vidas humanas e valores materiais. É muito mais barato realizar o ajuste do que fazer tudo de novo."

 "A Alemanha seria o país que mais vai sofrer com a dissolução do euro, pois teria uma recessão de proporções dramáticas, com queda forte de exportações. Isso é um belo convite para o surgimento de um pequeno Hitler", disse Delfim Netto. "A Itália vai se prejudicar toda e isso seria um belo convite para aparecer um pequeno Mussolini. O fim do euro é a volta de tiranias, de governos autoritários em todos esses países", destacou.

'Problema nos EUA é político'

Delfim Netto afirmou que, apesar da desaceleração da economia global ser muito preocupante, em 2012 os EUA podem crescer entre 2,5% e 3% e a expansão da China pode chegar a 8,5%. "O problema da crise nos EUA é de origem política e pode acabar em novembro, com as eleições presidenciais", disse. Segundo ele, naquele país pode ocorrer uma "tragédia maior", com a escolha de um republicano para a Casa Branca, ou uma "tragédia menor", com a recondução do presidente Barack Obama ao cargo por mais quatro anos.

Delfim Netto mostrou-se bem mais otimista com as perspectivas de reativação, no médio prazo, do nível de atividade da economia americana do que a europeia. "A inovação ocorre nos EUA, no resto do mundo é só cópia", disse. Segundo ele, o país está bem na busca de alternativas de energias, inclusive a bionergia.

No caso da China, o ex-ministro da Fazenda acredita que é possível manter um ritmo de crescimento próximo ao atual no próximo ano, mas vê certo esgotamento no modelo adotado por Pequim, de crescimento motivado por exportações e excessivo investimento do setor público, ao redor de 45% do PIB. "Caso ocorra uma recessão profunda na Europa, a China vai sofrer o baque e sua expansão doméstica será afetada", destacou.

Em função da alta volatilidade dos ativos financeiros motivada pela crise internacional, Delfim Netto apontou que os preços de commodities no próximo ano devem variar muito e não vê uma tendência clara para esses produtos em 2012. "Caso ocorra um forte desaquecimento global, as commodities vão cair. Mas, por outro lado, se surgir mais um round de afrouxamento quantitativo dos EUA, isso pode levar os preços dessas mercadorias para cima, sobretudo devido a especulação de investidores", destacou. O ex-ministro da Fazenda, contudo, não acredita que o Federal Reserve e o Banco Central Europeu vão injetar grande liquidez no mundo no próximo ano com a compra de títulos públicos.

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