Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

É inevitável que outras agências também rebaixem o País, diz economista

Para Monica de Bolle, situação fiscal do País deve levar Moody’s e Fitch a rebaixarem a nota de crédito brasileira

Entrevista com

Monica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

12 Janeiro 2018 | 05h00

O rebaixamento da nota do Brasil é consequência da falta de atenção do governo para a situação fiscal do País no curto prazo, segundo avaliação da economista Monica de Bolle. Para ela, as ações do governo acabaram deteriorando ainda mais as contas públicas. “A operação ‘Salva Temer’ (para que os parlamentares barrassem as investigações contra o presidente) levou a uma piora considerável da situação fiscal de curto prazo”, destaca. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O rebaixamento era esperado?

Era. A situação fiscal do Brasil simplesmente não teve nenhuma melhora (desde que Temer assumiu). Teve até uma piora. Tendo em vista que veio da S&P, a agência com avaliação mais técnica, essa é uma avaliação bastante negativa da equipe econômica que todo mundo esperava que fizesse tanto pelas contas públicas.

O governo estava concentrado em fazer reformas que precisavam do Legislativo. No Executivo, acabou fazendo pouco do ponto de vista fiscal?

O governo poderia ter feito muito mais. No meio das discussões do teto dos gastos, em 2016, alertei para isso. Disse que o teto dos gastos não tinha nenhum tipo de sustentação sem a reforma da Previdência. Afirmei que a reforma da Previdência era uma coisa muito difícil de se fazer, sobretudo por um governo cercado de dúvidas na parte política. A estratégia do governo foi fazer uma imensa propaganda em cima das reformas de médio prazo sem que elas tivessem saído do papel – a da Previdência em particular – e ao mesmo tempo não dando atenção ao curto prazo, inclusive piorando, porque a operação “Salva Temer” levou a uma piora considerável da situação fiscal. Isso, inevitavelmente, ia levar alguém a dar uma nota baixa para o Brasil no quesito arrumação das contas públicas.

O que poderia ter sido feito?

Para início de conversa, a reversão das desonerações da Dilma, que tanto o Meirelles quanto o Temer já entraram no governo dizendo que não iam fazer. É incompreensível que um governo que se vendeu como alguém que vinha para consertar as besteiras que o governo anterior havia feito tenha descartado a reversão das desonerações como uma medida urgente e necessária, inclusive para fazer jus à narrativa que eles estavam plantando junto à imprensa e aos analistas de mercado. Todo mundo comprou isso. Todo mundo achou legal e chamou de “dream team” (time dos sonhos). A verdade é que pouco desfizeram o legado da Dilma na área fiscal.

O que Temer ainda pode fazer?

Nada. Esse governo está em final de mandato, prestes a encarar uma campanha presidencial que será extremamente tensa e barulhenta. Não há cabeça nenhuma no Congresso ou em qualquer outro lugar voltada para uma preocupação com o País, haja vista as ambições presidenciais do nosso próprio ministro da Fazenda. Não é hora do ministro estar fazendo reuniões como potencial candidato presidencial tendo em vista os problemas que não resolveu. No entanto, essa é a situação que temos: um ministro em campanha presidencial e um Congresso que não está interessado em discutir reforma.

A tendência é que as outras agências também rebaixem a nota?

As agências têm um calendário próprio. Mas é algo meio inevitável, porque a situação fiscal do País é insustentável.

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