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É luxo só

Bernard Arnault pega empresas prodigiosas e as coleciona como troféus

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2019 | 04h00

Não é todo dia que um industrial francês chega a ser um dos homens mais ricos do mundo, ao lado de Jeff Bezos (Amazon) e Bill Gates (Microsoft). Ainda mais raro é que esse francês engula de um só bocado um de seus grandes concorrentes americanos.

A façanha acabou de ser realizada por Bernard Arnault, presidente e fundador da LVMH, que bateu na mesa o equivalente a US$ 16 bilhões para pôr as mãos na Tiffany, a gigante americana do luxo, célebre por suas joias e suas lojas (a mais famosa e bela reina impávida na 5.ª Avenida de Nova York), mas também pelo filme Bonequinha de Luxo, com a igualmente luxuosa Audrey Hepburn. 

Tal percurso faz pensar num desses milagres americanos que transformam instantaneamente um sitiante em bilionário, simplesmente porque seu pedaço de terra repousava num oceano de petróleo. Nada disso. Arnault não é um self made man.

Filho de um empresário importante, ele terminou seus estudos na Politécnica e fundou uma empresa de comércio de peles. Em 1970, esse homem, que hoje tem 70 anos, empregava apenas 100 pessoas. Hoje, ele comanda dezenas de milhares de funcionários pelo mundo todo e está à frente da primeira indústria multinacional do luxo. 

A qualificação de industrial pode confundir: em geral, um industrial produz aço, extrai petróleo, constrói navios e aviões. Mas Arnault produz vestidos de noite, tiaras de diamantes e bolsas tão refinadas que suas donas não são vistas nunca (podem até ser imaginárias), morando em lugares como Cingapura, Nova Délhi ou outros cantos exóticos.

Com seus perfumes e suas malas, Arnault avançou como um bólido sobre a Total, a BNP, etc. A qualificação de industrial não é usurpada. O luxo constitui uma indústria leve, mas prodigiosa. Os negócios de Arnault giram em torno de US$ 160 bilhões. Ele ultrapassa os setores de aviação, petróleo e automobilístico da França.

Seu império nasceu graças à beleza e à qualidade de seus produtos. A isso se juntou a extrema inteligência de Arnault e sua incontrolável mania de devorar concorrentes. Esse homem discreto é na verdade um Gargântua. Ele pega empresas prodigiosas, como a Gucci, no ano passado, e a Tiffany, neste ano, e as coleciona como troféus de caça.

Arnault interpreta as pulsações da sociedade e elimina os rivais com extrema delicadeza. Está sempre à espreita, como um caçador ou um grande pintor que, no crepúsculo, escolhe as melhores cores e vibrações da relva para transformá-las em obra-prima.

Resta saber como esse homem de 70 anos escolherá um sucessor à altura de seu talento. Ao vê-lo percorrer o mundo colecionando concorrentes derrotados, diríamos que a questão está ainda muito distante – salvo por um desvio de rota ou um acidente, o tempo está a seu favor.

Então, aproveitamos para encaixar outra pergunta: que civilização é essa na qual o ouro, a prata, os diamantes viajam de um continente a outro e nem uma parcela desses tesouros chega aos coletes amarelos, aos empregados humildes, aos órfãos, às moças tristes e aos inocentes?

Essa pergunta, porém, nos levaria por caminhos sombrios. Por uma noite, contento-me em pensar em Bernard Arnault, com seus demônios e suas maravilhas. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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