Fabio Motta/Estadão - 22/2/2019
Fabio Motta/Estadão - 22/2/2019

'É mais estratégico para a Defesa ter o Censo do que comprar armamento', diz ex-presidente do IBGE

Roberto Olinto diz que adiamento do Censo atrapalha no planejamento de políticas públicas e que, ao deixar a pesquisa para 2022, corre-se o risco de usar as informações para fazer propaganda do governo em ano eleitoral

Entrevista com

Roberto Olinto, ex-presidente do IBGE

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2020 | 16h03

BRASÍLIA - Ex-presidente do IBGE, Roberto Olinto diz que será um "escândalo inaceitável" se o governo decidir em adiar o Censo para 2022 para irrigar recursos ao Ministério da Defesa. Para ele, o risco de fazer a pesquisa em ano de eleição é usá-la para fazer propaganda do governo. “Ter o Censo também é fazer a defesa do País”, diz Olinto, que tem 39 anos de vida dedicados ao IBGE, onde foi coordenador das contas nacionais por 10 anos, diretor de pesquisas de 2014 a 2017 e depois presidente entre 2017 e 2019.  Agora pesquisador associado da Fundação Getúlio Vargas (FGV), ele avisa que o adiamento da pesquisa trará consequências gravíssimas para os municípios e o planejamento do País.

Como o senhor recebeu a informação de que o Censo pode ser adiado para sobrar recursos para o Ministério da Defesa?

 Na minha opinião, é um escândalo inaceitável, rompe qualquer protocolo de produção de estatística mundial de qualidade. O adiamento de 2020 para 2021 era necessário e compreensível por causa da pandemia e exigiria contato físico intenso, com entrevistas longas. É muito mais estratégico para a Defesa ter o conhecimento do País com um Censo do que comprar armamento. Ter o Censo também é fazer a defesa do País. É melhorar a capacidade de ter informações militares.  Vai ter o geoprocessamento do País inteiro.

Qual o maior problema?

Há dois problemas sérios. O primeiro é que o IBGE não teve orçamento para fazer a contagem da população que deveria ter sido feita em 2015. Agrava muito a situação. Quando eu era presidente, lutamos muito para essa questão do Censo porque já estávamos com problemas das estimativas populacionais. Tanto que hoje que a distribuição do FPM (Fundo de Participação dos Municípios) está congelada esperando o Censo de 2020. Houve um acordo para evitar exatamente problemas de distorções do FPM  por causa da população dos municípios se congelou sem perdas. Isso foi feito no último ano do meu mandato como presidente. E esperaria o resultado de Censo 2020 para recalcular os indicadores dos municípios. Isso é  muito grave porque o Censo de 2022 só vai ter resultado em 2023. Vai ter 13 anos sem nenhuma informação demográfica. Os modelos vão perder aderência, coerência. 

Os municípios e os Estados serão afetados?

Os municípios perdem mais. Tudo que depende de população tem um problema sério. Os municípios são afetados se tem a diferença de uma pessoa. Pode perder ou ganhar participação do FPM. É muito sensível. Tem um segundo problema. Não se faz Censo em ano eleitoral. É muito sério fazer um Censo que vai a campo em agosto, setembro e outubro e ter eleições em outubro. 

Por quê?

O risco é usar o Censo para fazer propaganda do governo. Vai ter a propaganda do Censo. Ele necessita uma propaganda muito forte para as pessoas abrirem a casa. Ainda mais agora com a covid. Isso pode ter uma contaminação com a propaganda política do governo. Como vai escrever isso no colete dos recenseadores? Como controla? Os recenseadores podem ser pressionados por prefeitos. E já são normalmente para contar mais gente. Não se deve fazer quando se tem uma eleição. Não tem como controlar. Não adianta o IBGE dizer que não vai ter problema porque vai ter.

Mas houve censo em 2010, ano de eleições... 

Os censos demográficos são coordenados mundialmente pela divisão de estatística da Nações Unidas. Todos os países participam de uma assembleia para que o mundo inteiro tenha informações, o que definem a ronda do censo. Tradicionalmente se faz em ano terminado em zero, com alguns países um ano antes ou depois. Essa é a ordem. A recomendação geral é que se deve evitar fazer pesquisas em ano eleitoral. No caso de 2010, era inevitável porque tinha uma eleição. Não mudou uma rotina e o padrão mundial.  O que está acontecendo agora é que não precisa mudar. Não tem argumentos sólidos. 

Quando foi último adiamento?

Em 1990, teve adiamento de um ano por causa do governo Collor. Foi feito em 91. 

Mas não tem como blindar o IBGE dessa questão política?

Apesar da atual direção, o IBGE tem um corpo técnico extremamente competente. Volta e meia se cria problemas porque o corpo técnico não aceita interferência, como qualquer instituto de estatística do mundo. Não há como fazer algum tipo de manipulação dos dados sem que se  torne um grande escândalo. A respeitabilidade do IBGE é incontestável. 

Qual a importância do Censo para a definição de políticas públicas?

O adiamento é um erro. Dois anos de atraso têm impacto fortíssimo. O Brasil está passando por uma crise por causa da covid, mas está também há alguns anos com problemas de planejamento econômico que o censo é fundamental de como estão as coisas. Sem o censo o planejamento fica capenga.  

Afeta até o desenho dos programas de transferências de renda?

Fazer um Bolsa Família ou qualquer programa de transferência de renda  necessita de informações do Censo. É um apagão. Não consigo compreender o que seria estratégico dentro do Ministério da Defesa do que ter um censo demográfico. Não faz o menor sentido. Falando linguagem de estrategista.

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