''É melhor que o próximo presidente do BC eleve juros''

''É melhor que o próximo presidente do BC eleve juros''

Pérsio Arida, um dos pais do Plano Real e sócio do banco BTG Pactual, acredita que o Banco Central adotou a decisão correta de manter os juros estáveis na semana passada, em 8,75% ao ano. Segundo ele, a possibilidade de o presidente do BC, Henrique Meirelles, deixar o cargo até o dia 3 de abril levanta naturalmente dúvidas sobre a postura de seu sucessor, que provavelmente será o diretor Alexandre Tombini. "Como o próximo presidente do BC precisa construir credibilidade, é melhor deixar para que ele faça o anúncio do aumento dos juros." Na sua avaliação, um dos fatores que poderiam diminuir a magnitude do aperto monetário seria uma contração da oferta de crédito das instituições oficiais.

Ricardo Leopoldo, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2010 | 00h00

O BC agiu de forma correta ao manter a taxa Selic em 8,75%?

Se vier a se cristalizar a saída de Henrique Meirelles da presidência do BC, o próximo presidente terá de começar a construir sua credibilidade. A firmeza do novo presidente do Banco Central, por ser novo no cargo e estarmos em ano eleitoral, será posta em dúvida. Achei que foi uma boa decisão manter os juros. Fazer um aumento nesse Copom seria retirar parte da munição de credibilidade do próximo presidente.

Por que a inflação está subindo?

A economia está crescendo aceleradamente e há certa antecipação do consumo por causa da retirada de incentivos fiscais, como o caso do IPI para carros novos. Não está claro quanto do aquecimento vem da expansão de crédito dos bancos oficiais. O ideal seria fazer uma contração da oferta de crédito das instituições oficiais ou uma diminuição de seu ritmo de crescimento, antes de aumentar os juros. Caso contrário, além da questão da credibilidade, o aumento na taxa de juros terá que ser maior do que precisaria ser.

Qual é a sua expectativa para o crescimento do Brasil em 2010?

A economia está muito bem. Tem seus desequilíbrios estruturais permanentes, como a incapacidade do setor púbico de poupar, os desequilíbrios na Previdência e a estrutura fiscal distorcida, mas ela se recuperou bem. Talvez o PIB possa crescer 6% neste ano.

O déficit de transações correntes é preocupante?

Déficits de contas correntes sempre são interpretados com alarme porque, historicamente, sempre desaguaram em uma parada súbita de financiamentos, a chamada crise cambial. A resposta era sempre desvalorizar o câmbio e brecar a demanda para crescer menos. A situação mudou. Um déficit externo pode levar a um câmbio mais desvalorizado, mas esse é um movimento de mercado, o que é natural em um regime de câmbio flutuante, e não uma crise cambial. O complicado é a parada súbita de financiamentos, como vivemos em 2008, que, aliás, ocorreu sem conexão alguma com a situação das contas externas do País.

O que é necessário para que a poupança interna e os investimentos cresçam?

Hoje a poupança do setor público é inexpressiva e a poupança privada é relativamente baixa. Nesse quadro, precisamos de poupança externa para crescer e aproveitar as excelentes oportunidades de investimento que temos. Devemos fazer o possível para aumentar a poupança pública e a poupança privada. Para elevar a poupança pública, precisamos gerir o Estado de forma mais parcimoniosa e fazer algumas reformas constitucionais. Ocorreu um enorme inchaço da máquina administrativa nos últimos anos por causa das contratações, tanto na administração direta como indireta. Se esse inchaço no quadro de funcionários públicos e o excesso de gastos primários forem revertidos, certamente aumentaremos a poupança pública. Talvez o próximo presidente se dedique a isso. A poupança privada deve avançar via planos de previdência privada, mercado de capitais e, particularmente, com o desenvolvimento de hipotecas e de outros instrumentos de longo prazo.

Os críticos do câmbio valorizado estão com razão?

Há um erro conceitual frequente que é olhar uma série estatística, calcular a média da série e pressupor que a variável deva voltar para a média. Algumas séries estatísticas têm a propriedade de reversibilidade para a média, outras não. Moedas não têm essa propriedade. Além disso, toda média depende da escolha da data inicial e, nesse sentido, é algo arbitrário. A verdadeira questão é outra: até que ponto a taxa de câmbio é influenciada por distorções que fazem com que a taxa de juros seja excessivamente elevada.

A atual cotação do câmbio é adequada para a economia?

Controles artificiais de câmbio são fáceis de implementar, mas criam distorções enormes. Veja o que ocorre na China. Como o movimento do câmbio, se houver, será no sentido de apreciação do yuan, qualquer subida na taxa de juros provoca uma enxurrada de liquidez por causa do ingresso de capital estrangeiro. Se o Brasil fixasse a taxa de câmbio artificialmente desvalorizada, teríamos os mesmos efeitos.

Como o senhor avalia o atual nível da taxa real de juros?

O Brasil está em uma trajetória de longo prazo de redução da taxa real de juros desde a adoção do Plano Real. Como não se sabe exatamente qual é a taxa de equilíbrio, há momentos em que vale a pena testar seu limite e há ocasiões em que não vale a pena fazê-lo. Se a economia está em um ciclo de política monetária contracionista, como é o atual, não se deve testar nada.

A meta de 4,5% de inflação, como foi definida pelo CMN para este ano e 2011, deve ser mantida para os anos seguintes do próximo governo?

Há momentos nos quais é possível apertar a meta inflacionária sem grande custo e há ocasiões em que isso é mais difícil, quando a economia está muito aquecida. Temos de atuar de forma pragmática aqui. Se a economia não estiver muito aquecida no começo do ano que vem, deveríamos anunciar uma redução da meta de inflação. Uma meta 0,50 ponto porcentual mais baixa ajudaria na construção da credibilidade do novo governo, especialmente porque o Banco Central não é independente.

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