'É muito cedo para se criar pânico e a sensação de que acabou tudo', diz Mendonça de Barros

O engenheiro e economista Luiz Carlos Mendonça de Barros diz que é preciso olhar o passado do País contra o atual pessimismo. "Temos um passado de um crescimento longo, que mexeu com a economia, com a sociedade e ampliou a base de consumo." Para o ex-presidente do BNDES no governo Fernando Henrique Cardoso, economias emergentes, como a brasileira, têm ciclos de ajustes depois de períodos de expansão.

Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2013 | 02h11

Como o sr. vê todo esse grau de pessimismo?

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS - Eu tenho uma posição muito clara sobre tudo isso. Você tem o pessimismo de curto prazo, e tem um outro sentimento em relação à economia brasileira nos próximos anos. Mas é preciso fazer uma revisão do passado. Temos um passado de crescimento longo, que mexeu com a economia, com a sociedade e ampliou a base de consumo. Esse crescimento de renda tem efeitos mais amplos sobre a sociedade, inclusive uma mudança do perfil político do eleitor. E por que isso está acontecendo? Aí vem a minha leitura. Isso é um comportamento clássico da economia de mercado depois de um longo período de crescimento. É normal que num período longo de crescimento se crie uma série de distorções dentro da estrutura produtiva. No capitalismo, as economias de mercado não sabem lidar bem com esses desequilíbrios: uma hora o consumo vai na frente, depois o investimento fica para trás. Eu acho que o Brasil não cresce mais de 1,5% e 2% nas condições de hoje. E as razões estão aí: o crédito bateu no teto, o consumidor brasileiro está endividado. É preciso identificar esses desequilíbrios e mudar a política econômica no sentido de preparar a economia para um outro ciclo de crescimento. É muito cedo para se criar esse pânico e essa sensação de que acabou tudo.

Esse pessimismo pode atrapalhar a economia?

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS - Até que ajuda, porque o Brasil precisa desacelerar o consumo. A economia não tem como crescer mais de 2% porque tem fortes gargalos de oferta. O setor privado precisava de um sinal do governo de que tinha uma política na direção de corrigir os problemas. Mas nada anda, a privatização não sai, os leilões estão atrasados, não há um política continuada.

O governo está tomando o rumo certo para reverter esse quadro de pessimismo?

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS - Não está. Eu vou achar que está mudando quando ela (presidente Dilma Rousseff) tiver uma dose de realismo. A inflação ainda está muito ruim. Eu olho a inflação do comércio varejista, que é uma parte importante do consumo das famílias. Essa inflação chegou nessa cesta de consumo, a quase 10% há três ou quatro meses atrás. Agora, caiu para 8,5%, mas esse patamar ainda é muito alto. É como o sujeito que tem 42 graus de febre, mas cai para 40 graus.

Qual é a saída?

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS - Eu faço uma análise dos demais analistas, que dizem não ter uma saída. A saída é simples. É fazer uma política que trabalhe com uma redução de atividade de dois a três anos e leve confiança para que o investidor privado.

As manifestações mexeram com o ânimo do brasileiro?

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS - Eu acho que elas revelaram uma coisa importante: essa classe média está querendo melhorar a vida, e não só o crédito e a renda.

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