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'É MUITO PROVÁVEL QUE UM OU ATÉ MAIS PAÍSES DEIXEM O EURO'

Cético sobre pacote, economista acha que custo de ficar no euro pode ser alto demais

FERNANDO DANTAS / RIO, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2011 | 03h06

Para o economista Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard, é altamente provável que um ou mais países periféricos da região do euro acabem abandonando a moeda única.

Ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional e coautor com Carmen Reinhart de um livro de grande prestígio sobre 800 anos de crises financeiras, Rogoff é altamente cético sobre os efeitos do pacote de salvamento do euro desta semana. Ele acha que, para a Grécia e outros países periféricos do euro, o custo de ficar na união monetária é muito mais alto que o de sair.

Rogoff falou por telefone ao Estado, enquanto viajava de trem de Nova York para Boston.

O acordo europeu foi um passo na direção certa?

Foi um passo, mas talvez apenas o suficiente para comprar, quem sabe, meses, semanas, algum tempo. Há não apenas muitas perguntas não respondidas, como também há muitas perguntas que nem foram feitas. Em primeiro lugar, uma grande parte do negócio é a extensão do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (Feef). Parece que eles estão sentados em volta da mesa, dizendo: "Uma vez que nenhum de nós quer pagar por isso, quem sabe a China não quer?" Eu posso imaginar que os chineses colocarão uma pequena quantidade de dinheiro, talvez o suficiente para criar a expectativa de que pode vir mais, mas não acho que a China possa de alguma maneira ser a solução. Se os gregos, portugueses, irlandeses, espanhóis não estão necessariamente querendo pagar os cavalheiros para quem eles devem, por que eles pagariam aos chineses?

E a redução de 50% da dívida privada da Grécia?

Bem, mesmo que ela aconteça, está longe de ser evidente que isso seja suficiente: 120% do PIB (estimativa de quanto será a dívida grega em 2020, com a redução de 50%) ainda não é um número realista para um país com tantos problemas. Então isso vai resultar em crescimento muito ruim por muito tempo. O mais importante são as questões que nem foram perguntadas. Para onde vai todo o projeto do euro?

Qual a sua visão sobre isso?

É óbvio que a ideia de que você possa ter países separados com uma moeda única foi mal concebida e eles precisam ter uma união política muito mais forte, incluindo uma autoridade tributária central e uma dramática partilha de receitas fiscais, partilhar em grande escala. Precisa ser uma união de transferências, não há dúvida quanto a isso. E isso é necessário porque eles precisam colocar limites muito mais estritos em níveis de endividamento dos países, mais parecido com o que ocorre com os Estados americanos do que com atual sistema europeu. E, se eles forem colocar esses limites, os países precisam de uma válvula de escape, precisam de alguma forma de ser ajudados nas recessões. E isso realmente tem de ser por meio de transferências.

Mas o plano europeu foi bem recebido pelos mercados.

Eu acredito que eles se beneficiaram enormemente por anunciar o seu plano no mesmo dia em que o número sobre o crescimento americano foi divulgado (crescimento de 2,5% anualizado no terceiro trimestre), o que animou muito os mercados. Então há essa impressão de que as pessoas amaram o plano do euro. Eu acho que você tem de olhar para o juro da dívida italiana (no último leilão de títulos de dez anos, depois do acordo do euro, o país pagou uma alta recorde de 6,06%) e você tem um quadro muito mais sóbrio da reação.

O mercado ficará mais calmo com o acordo europeu?

Não. Nós vamos ver a continuação de uma profunda volatilidade, e esse último plano europeu não tem nada (para impedir isso).

Outra crítica é que o acordo europeu não tratou do problema de como fazer a Europa voltar a crescer.

Acho que os países periféricos da Europa vão enfrentar anos e anos de crescimento muito baixo e recessão, e isso faz com que os pacotes de austeridade sejam completa e fundamentalmente impossíveis de serem cumpridos. Assim, para todos esses países, é um grande problema. Já para os países centrais, o baixo crescimento é bem administrável, eles não estão numa situação tão ruim. Mas certamente estão com menos capacidades de salvar financeiramente todos os outros países. Ainda que a Alemanha e a França não tenham problemas de dívida imediatos, a sua dívida é alta, o problema de envelhecimento da população é muito complicado - eles não têm bolsos tão profundos para bancar para sempre os países da periferia.

Mas haveria alguma maneira de fazer com que os países da periferia voltassem a crescer?

Eles poderiam abandonar o euro e ter uma desvalorização da taxa de câmbio. Isso certamente é a forma mais fácil. Existem conversas sobre a solução da Estônia, onde eles cortaram os salários, mas é muito difícil de fazer. Na Grécia, os salários provavelmente teriam de cair 40%. Eu simplesmente não acho que isso vá acontecer. Quer dizer, uma desvalorização cambial poderia fazer isso.

O sr. acha que países podem sair do euro?

É altamente provável que pelo menos um e possivelmente mais países sejam forçados a abandonar o euro antes que esse problema seja resolvido. Pode levar anos e anos. Porém, porque o único desfecho possível é uma união fiscal muito mais forte, acho que os alemães e outros serão muito relutantes em estender esta união a países nos quais eles têm pouca fé em termos do nível de desenvolvimento e da capacidade de ser parte de uma união política tão forte. Eu tenho a expectativa de que nós vamos ver países abandonarem o euro, pelo menos temporariamente, talvez por 10 ou 20 anos.

Alguns economistas acham que as complicações e os custos são altos demais para que algum país abandone o euro.

Isso é nonsense. Se você tentar calcular o custo de sair, acho muito difícil chegar a um número acima de 1% do PIB. E estamos vendo um país como a Grécia tendo crescimento possivelmente sete a oito pontos porcentuais - ou de pelo menos cinco a seis - abaixo do seu potencial por anos e anos. Sair do euro é um custo menor no quadro mais amplo, diante de uma recessão tão profunda e duradoura. Países saem de uniões. Veja o caso da Eslováquia em relação à República Tcheca. É uma questão menor.

O crescimento americano do terceiro trimestre é uma luz no fim do túnel?

Certamente foi uma boa notícia no front americano. (A economista) Carmen Reinhart e eu constatamos que, depois de uma profunda crise financeira, o crescimento tende a ser lento e errático, mas não necessariamente com o retorno a uma profunda recessão. Então a minha visão sempre foi de que os Estados Unidos continuarão a ter crescimento abaixo do potencial, mas a probabilidade de uma nova recessão realmente séria e profunda não era muito alta. Acho que esse número reforça essa visão.

Isso é satisfatório?

Bem, 2,5% não são 5%. Mesmo que o crescimento permaneça em 2,5%, isso não vai afetar em nada a taxa de desemprego; vai continuar a haver instabilidade política, e condições recessivas. É preciso olhar para o nível do crescimento americano. O nível do PIB americano per capita ainda está 3% abaixo do que estava no começo da crise. Então, ainda estamos bastante dentro do que a Carmen Reinhart e eu chamamos de a segunda Grande Contração. A Grande Depressão foi a primeira. E eu não acho que em nenhum sentido os Estados Unidos saíram da recessão, e pode demorar de três a seis anos para saírem.

A desaceleração da China pode abalar ainda mais a economia global?

A China está fazendo um aperto monetário da forma deles, aumentando muito os depósitos compulsórios. Nunca é fácil fazer essas coisas. Sempre há um risco de que, apesar dos melhores esforços e das melhores intenções das autoridades econômicas chinesas, eles exagerem, e o crescimento se reduza mais do que eles pretendiam. E a transição política na China, em 2012 e 2013, pode trazer instabilidade política que afete a política econômica

O que o sr. achou da atuação recente do Banco Central no Brasil?

O meu entendimento é de que o Banco Central começou a cortar a taxa básica com a ideia de que haverá um aperto na política fiscal. E essa tem sido a recomendação de muitos macroeconomistas, incluindo eu mesmo, por muito tempo. A questão é que estamos assistindo ao Banco Central reduzir o juro, e o ponto é o quanto vamos ver de ajuste fiscal, o quão crível ele será. Acho que essa ainda é uma questão em aberto.

Quais as perspectivas do Brasil?

O crescimento dos emergentes está muito sólido, e deve permanecer assim se não houver uma catástrofe. Desde que não haja um colapso na China, desde que não haja um colapso na Europa, o Brasil ainda está nos trilhos para ter um desempenho muito sólido.

E qual a probabilidade de uma catástrofe?

É muito mais alta do que de costume. Eu diria que, num ano normal, a possibilidade de que nós repentinamente entremos numa recessão é normalmente de 10%. Mas neste momento é muito mais alta a probabilidade. Nós estamos falando de algo como 20% de probabilidade de haver uma recessão global. Porque ainda há riscos na Europa, riscos nos Estados Unidos. Nós estamos numa situação muito volátil, que não deve se desanuviar este ano. Uma recessão muito feia e profunda nos Estados Unidos e na Europa levaria a uma drástica desaceleração nos mercados emergentes.

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