É o caso de salvar a Grécia?

A Europa tem duas semanas para salvar a Grécia da falência. Se ela não se acertar de agora até o fim do mês para fornecer a Atenas os 12 bilhões necessários para sua sobrevivência imediata (sem falar de uns 60 bilhões a mais longo prazo) é toda a União Europeia, mas também o euro, que estará ameaçada por uma crise sistêmica.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2011 | 00h00

No domingo, os ministros de Finanças da zona do euro, aos quais se juntou John Lipsky, diretor-gerente interino do Fundo Monetário Internacional (FMI), reuniram-se em caráter de urgência. No começo da tarde, anunciou- se que uma solução fora encontrada: a zona do euro forneceria a Atenas, antes do fim do mês, os 12 bilhões que lhe foram prometidos.

Por outro lado, a chanceler alemã, Angela Merkel, se alinhara à posição do francês Nicolas Sarkozy: ela não exigiria mais uma participação dos credores privados (bancos e seguradoras) no futuro mecanismo de ajuda à Grécia.

Na verdade, essas duas notícias eram prematuras: os 12 bilhões de que a Grécia carece só serão concedidos se o primeiro-ministro grego, George Papandreou, conseguir que o Parlamento grego aprove seu segundo plano de austeridade. Por outro lado, não é exato que Merkel tenha se alinhado com Sarkozy e tenha renunciado à participação do setor privado no salvamento da Grécia.

Não surpreende que a Europa financeira tenha despertado ontem com náuseas. O euro, que nos últimos meses resistiu com tanto brilho, dava sinais de fraqueza. Portugal reclamava de taxas recordes (10,4%) para suas obrigações de 10 anos. A agência Moody"s estudava rebaixar a classificação da dívida da Itália atualmente fixada em AA2.

Europa está diante de um dilema infernal, nos seguintes termos: para continuar injetando euros nas economias enfermas (Grécia e, amanhã, talvez, Irlanda, Portugal, Itália ou Espanha), os salvadores (União Europeia e FMI) devem impor aos países ajudados planos de um rigor desumano.

Agora, curas de uma austeridade tão terrível obstruirão o crescimento e os países socorridos até entrarão em recessão. Com isso, eles não serão capazes de saldar os empréstimos que lhes foram concedidos. É o que demonstra Anton Brender, diretor de estudos econômicos da Dexia AM. "A austeridade é perigosa porque ela rompe o crescimento. Idealmente, seria preciso poder ajudar os países frágeis sem impor medidas de austeridade e emprestar-lhes a taxas bem menores."

Perfeito. Mas será possível abrir créditos imensos a países debilitados sem lhes impor deveres dolorosos? Semelhante generosidade não teria outro efeito senão deixar países como a Grécia perpetuarem seus hábitos: irresponsabilidade, ociosidade, recursos a crédito, etc.

Esse é o raciocínio da virtuosa Alemanha. "Por que continuaríamos a subvencionar os gregos se os gregos se obstinam em não trabalhar e a não pagar impostos? Isso nem mesmo é prestar-lhes um serviço."

São compreensíveis as hesitações da Alemanha. Mas e agora? Se não se sair em socorro da Grécia, esse país se verá na contingência de deixar de pagar dívidas. E uma questão dessas teria as mesmas consequências catastróficas que a quebra do banco americano Lehman Brothers em 2008. A Grécia se arriscaria a ser expulsa violentamente da zona do euro.

De modo que é a própria sobrevivência da zona do euro que está em jogo. O economista Antoine Brunet faz profecias. E elas não são risíveis. "É difícil saber onde estancará a hemorragia de países que deixariam a zona do euro caso a Grécia saia. Tudo é possível. Seja a Grécia sair sozinha. Seja Grécia e Portugal saírem sozinhos. Seja Grécia, Portugal e Itália saírem. Seja Grécia, Portugal, Espanha, Itália e até a França saírem. O que permanece muito provável, por enquanto, é que Alemanha, Benelux, Áustria e Finlândia permaneceriam agrupados num euro mantido por eles." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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