Ricardo Moraes/Reuters
Ricardo Moraes/Reuters

É o dólar perto dos R$ 4

Por trás dessa expressiva alta do dólar estão as tais incertezas, as velhas agora acrescidas das novas

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

07 Junho 2018 | 20h30

Projeções há alguns meses consideradas alarmistas estão se confirmando. As cotações do dólar no câmbio interno se avizinham perigosamente da marca dos R$ 4. No segmento do dólar turismo, já passou a ser negociado a R$ 4,10.

O presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, avisou que vai usar mais munição para estancar a forte procura de moeda estrangeira, e não serão os juros. Com isso tentou desmontar a correria para o câmbio. Ele deixou no ar o aviso de que aqueles que apostam na disparada do dólar podem se dar mal.

Apesar dos leilões de contratos de swap cambial realizados pelo Banco Central e apesar do fluxo positivo, ou seja, mesmo com maior entrada do que saída de moeda estrangeira do Brasil, no período de 30 dias terminado nesta quinta-feira, as cotações saltaram 10,20%.

Por enquanto não há como identificar ataques especulativos, que acontece quando as contas externas estão arrombadas. Hoje, ao contrário, elas continuam exuberantes. Desta vez, não dá nem para alegar que as condições externas passaram a ser determinantes para a disparada, na medida em que as tensões geopolíticas se agravaram e que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) começa o processo de retirada de moeda do mercado. O fator que predomina está aqui dentro.

Por trás dessa grande procura por dólares estão as tais incertezas, as velhas agora acrescidas das novas. O governo Temer já não mostra condições mínimas para arbitrar os conflitos distributivos que se acumulam. Os acordos fechados pelas autoridades são rompidos, não propriamente por falta da palavra dada, mas por falta de condições objetivas.

Nas manifestações desta pré-campanha eleitoral, os candidatos que mostram alguma viabilidade de se eleger enveredam por propostas populistas ou, então, pelo desmantelamento dos andaimes que ainda sustentam a estrutura fiscal do governo. A sensação que prevalece entre quem precisa de regras firmes para tocar para a frente a atividade econômica é a de que aumenta o risco de desarrumação.

Os recursos do Banco Central para conter a disparada do câmbio estão longe do esgotamento. E ainda há reservas externas de US$ 380 bilhões que podem ser acionadas, como Goldfajn advertiu nesta quinta-feira.

As consequências imediatas dessa forte alta do dólar estão sobre a mesa de qualquer analista. Se persistir, o que parece agora improvável, será inevitável o aumento da inflação, a começar pelo encarecimento dos produtos importados e dos produtos de produção local cotados em dólares, como cereais, petróleo e minérios.

Esse avanço da inflação não parece motivo suficiente para que o Banco Central volte a puxar os juros básicos (Selic). É preciso saber primeiro até que ponto haverá inflação e até que ponto a meta, de 4,5% neste ano, estaria sendo atropelada. A inflação em 12 meses continua abaixo dos 3,0%.

A política do Banco Central continua sendo de fornecer dólares para evitar excesso de volatilidade das cotações. Mas já fica difícil saber o que é isso quando as altas diárias já ultrapassam os 2%, como nesta quinta-feira.

CONFIRA

» Aumenta o risco Brasil

No gráfico acima está o retrato do comportamento do CDS, o Credit Default Swap dos títulos do Tesouro do Brasil de 5 anos. Este é o contrato financeiro que funciona como seguro contra o calote. Fechou nesta quinta-feira, em alta de 5,0%, nos 256,5 pontos, indicando que o clima de apreensão com o futuro da economia brasileira está aumentando. E está aumentando bem mais do que indicadores de risco dos títulos de outros países emergentes. É comportamento de um indicador que guarda consistência com os demais.

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