E o dólar, volta?

Talvez o mercado esteja subestimando a trajetória da moeda americana

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

11 Abril 2018 | 04h00

O dólar chegou a ultrapassar R$ 3,42 na segunda-feira e fechou ainda no maior patamar desde dezembro de 2016, em um pregão marcado por grande estresse nos mercados com tensão geopolítica global e também com a incerteza em relação à eleição presidencial no Brasil após a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na manhã de ontem, superou R$ 3,43.

O cenário para câmbio que a maioria dos analistas trabalha até o momento é que a eleição presidencial vai gerar apenas uma corcova na cotação da moeda americana, isto é, que qualquer pico do dólar durante o ciclo eleitoral vai ceder após o pleito e fechar o ano ainda relativamente comportado. Será?

Até a semana passada, havia quem projetasse um pico do dólar a R$ 3,60 até o primeiro turno das eleições, antes de um desfecho positivo do pleito na visão dos investidores reverter essa alta, ou seja, a vitória de um candidato a favor de reformas estruturais, como a da Previdência, assim que assumir o cargo em 2019.

Na pesquisa Focus, divulgada pelo Banco Central na segunda-feira, a mediana das estimativas dos analistas para a cotação do dólar no fim deste ano permanece inalterada em R$ 3,30 há dez semanas. A Itaú Asset Management, que administra fundos de investimentos do Banco Itaú, prevê, por exemplo, um dólar a R$ 3,00 no fim de 2018. Já os economistas do banco têm projeção de R$ 3,25.

Acontece que a valorização do dólar nos últimos dias foi mais rápida do que muitos esperavam. E a sensação é de que o mercado talvez esteja subestimando a trajetória da moeda americana até o fim do ano, quer seja do ponto de vista dos fundamentos externos, quer seja pelos fatores políticos e econômicos domésticos.

A implicação disso é que se o mercado perceber que a alta do dólar não será transitória e causada apenas por um fator pontual – estresse relacionado à corrida presidencial no Brasil neste ano – fica a dúvida: poderá o mercado rever para cima as estimativas para a cotação do dólar no fim deste ano e, assim, afetar a projeção de inflação para 2019?

Mais ainda: se a alta do dólar contaminar as expectativas inflacionárias de 2019, poderá o BC seguir cortando os juros na reunião do Copom de maio ou, caso contrário, começar a elevar a taxa Selic mais cedo do que o esperado pelo mercado?

Do ponto de vista externo, a tendência do dólar frente às principais moedas internacionais é de valorização, especialmente porque é crescente a aposta de que o Federal Reserve (Fed) irá elevar os juros americanos quatro vezes neste ano em vez de três, como é a projeção atual da instituição.

Na última reunião de política monetária do Fed, ficou claro que basta a mudança de previsão de apenas um de seus diretores para que a sinalização oficial passe a ser de quatro altas de juros. E isso fortalece a cotação do dólar no mundo. Sem contar os riscos geopolíticos provocando momentos de estresse.

Do ponto de vista doméstico, ficou evidente na última semana quão leniente os investidores estavam em relação aos riscos com o cenário eleitoral. Até então, o mercado dava como certa vitória na eleição presidencial de um candidato de centro-direita que promoverá reformas essenciais para conter gastos e evitar uma trajetória perigosa da dívida pública.

Dada a fragmentação de potenciais candidaturas tanto à direta quanto à esquerda, cresceu o risco de que o segundo turno possa ser disputado por dois nomes vistos como desfavoráveis para o mercado em termos de política econômica.

Se na eleição presidencial de 2014, polarizada entre PT e PSDB, os 20 milhões de votos de Marina Silva não foram suficientes para levá-la ao segundo turno, num pleito fragmentado esse número de votos será mais baixo e, com isso, a probabilidade de uma surpresa negativa para o mercado na disputa no segundo turno não é desprezível.

Assim, o investidor parece estar finalmente despertando para os riscos eleitorais que estavam anestesiados por um cenário externo, até então, benigno. Nesse novo ambiente externo e doméstico, quão confiante é possível ficar de que, após atingir um pico de R$ 3,60, o dólar devolverá toda a gordura e voltará em direção a R$ 3,00?

*COLUNISTA DO BROADCAST 

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