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É o globo da morte

Trump e sua equipe dão demonstrações de que não sabem o que estão propondo

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2017 | 21h00

O presidente dos Estados Unidos ultrapassou todas as expectativas. Por mais que os analistas tivessem advertido para a usina de incertezas que seu governo prometia, ninguém imaginou que o primarismo de Donald Trump pudesse ser o que já ficou demonstrado.

A administração confunde, por exemplo, política migratória com política de comércio exterior; imposto arrecadatório com imposto regulatório; e país de origem com grave ameaça à segurança nacional.

Quando avisou que construiria um muro na fronteira sul, tomou uma decisão de política migratória. Mas ao decidir impor sobretaxa de 20% sobre os produtos mexicanos e, com o dinheiro arrecadado, afirmar que levaria o México a pagar a conta, meteu na história decisões de política de comércio exterior. Quando foi observado que tarifa alfandegária é paga pelo importador e que, nessas condições, a conta do muro estaria sendo repassada aos americanos, o porta-voz Sean Spicer emendou que a cobrança de impostos se referia a um conjunto de tarifas alfandegárias flutuantes com função de regular a entrada de produtos quando um país obtivesse superávit comercial grande demais.

Ninguém entendeu como uma taxa alfandegária flutuante poderia funcionar. Além do mais, tarifa alfandegária tem a função de regular a entrada de produtos estrangeiros no País. Quando disse que o dinheiro arrecadado seria usado para pagar a construção do muro, Trump, deu a esse imposto função arrecadatória, mas não disse se ele acabaria quando o muro fosse pago.

A mais espetacular cambalhota estatística foi dada por Trump não quando contestou os cálculos dos especialistas sobre o tamanho da multidão que se mobilizou para a cerimônia de posse. Foi quando lhe disseram que não havia propriamente desemprego a reverter, uma vez que os relatórios da Agência de Estatísticas do Trabalho (BLS, na sigla em inglês) dão conta de que há pleno-emprego: apenas 4,7% dos americanos vêm procurando trabalho. Trump rebateu com a afirmação de que o verdadeiro índice de desemprego nos Estados Unidos é de 42%, quando se põem na conta aposentados e estudantes que supostamente querem trabalhar. Agora, imaginem a que níveis o Fed, o banco central dos Estados Unidos, teria de derrubar os juros para enfrentar esse baita desemprego.

A última maluquice conceitual veio do chefe do Conselho Nacional do Comércio, Peter Navarro. Ele argumenta que o deutsche mark (antiga moeda alemã) implícito no euro está superdesvalorizado, o que dá uma tremenda competitividade ao produto alemão. Não ficou clara a represália comercial em preparo pela Casa Branca para a Alemanha. Nem se essa represália se estenderá ao Banco Central Europeu, que vem praticando juros muito próximos de zero por cento ao ano, tendo em vista as necessidades de todo o bloco do euro, e não só da Alemanha.

Há quem argumente que, por ora, Trump se limita a entregar a seus eleitores o que prometeu na campanha, para que fique pelo menos a impressão de que tentou. O problema é que com a equipe que montou não é possível produzir um cavalo de pau nessa política, porque eles não sabem o que estão propondo.

Enfim, Trump e sua equipe começam a montar um globo da morte com motoqueiros trapalhões que trombarão uns com os outros. E notem que ainda não se completaram duas semanas de governo. (Veja, ainda, o Confira).

CONFIRA

Câmbio/salário

O produto alemão de fato ganhou competitividade não só em relação a produtos dos Estados Unidos mas, também, em relação aos dos demais países membros da União Europeia. Mas isso se deve a um acordo obtido em 2003 pelo governo do chanceler Gerhard Schröder com os sindicatos que reduziu os salários e, assim, baixou os custos de produção. Foi um jeito engenhoso de baixar a relação câmbio/salário. O governo americano poderia obter o mesmo efeito se os salários também fossem reduzidos nos Estados Unidos.

Rearmamento

Quando diz que reduzirá a Otan, o sistema de defesa do Ocidente, e que exigirá que cada país cuide de sua própria defesa, Trump está empurrando a Alemanha e o Japão para o rearmamento. E quando avisa que vai anular o acordo nuclear com o Irã assinado durante o governo Obama, fica a dúvida se o Irã voltará a ter condições de produzir sua bomba. E o mesmo vale para a Coreia do Norte.

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