'É o que temos para hoje', diz economista sobre resultado do PIB

Para Fábio Silveira, sócio-diretor da MacroSector, crescimento está dentro do esperado, mas economia poderia crescer mais

Renato Jakitas, Gabriel Wainer e Talita Nascimento, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2018 | 14h23

Para o sócio-diretor da MacroSector, o economista Fabio Silveira, os números do PIB mostram que o Brasil continua crescendo pouco. “Até poderia crescer mais, mas há muitos obstáculos para isso. É o famoso: ‘é o que temos para hoje’”, comentou o especialista em entrevista transmitida ao vivo nas redes do Estado

Silveira destaca que a maior surpresa dos números desta sexta-feira foi o setor de transportes. “O transporte cresceu fortemente no 3º trimestre porque a atividade foi muito deprimida no 2 trimestre em função da greve dos caminhoneiros”, explica. A retomada indicou uma compensação do setor que carregava um degrau negativo desde a última medição. 

Além disso, a alta de importações preocupa o economista. "Está sugando mão de obra, investimentos, salários. A gente transfere para outros países o que a gente podia fazer internamente”. Para ele esse é um ponto de atenção. 

Veja na íntegra a entrevista abaixo:

Qual é a sua visão sobre o resultado?

O Brasil continua crescendo pouco. Poderia crescer mais, mas existem muitos obstáculos. É o famoso “é o que temos para hoje”. Eu tenho uma percepção um pouco mais positiva para o 4º trimestre, pois há fundamentos para obtermos um crescimento mais acelerado -  não muito, sem empolgação. 

Temos no 4º trimestre um patamar de juros mais baixo do que no 4º trimestre do ano passado, quando comparamos os mesmos períodos. Os indicadores de expansão de crédito ao consumidor já mostram isso. Também houve um destravamento, depois das eleições, de alguns negócios e projetos que estavam nas gavetas. Isso leva até a formação bruta de capital fixo, o famoso investimento, que teve um desempenho razoável.

A base de comparação das bases anteriores eram ruins. O fato é que o PIB evoluiu positivamente no 3º trimestre, e deve evoluir ainda mais no 4º trimestre, após a definição eleitoral. Temos também um outro fator: no 4º trimestre, as exportações continuaram a ter evolução positiva porque o mundo continua crescendo, apesar da alta dos juros americanos. A China continua crescendo, a europa, os Estados Unidos. Todos tendo uma evolução positiva, e o Brasil, lógico, pode desfrutar e vem desfrutando do benefício desse crescimento global. Por isso, acredito que o crescimento no 4º trimestre deste ano e no 1º trimestre de 2019 virá nesse ritmo crescente. 

Alguma surpresa nesses números?

O transporte cresceu fortemente no 3º trimestre porque a atividade foi muito deprimida no 2º trimestre em função da greve dos caminhoneiros. Foram praticamente 15 dias de atividade econômica parada, diretamente, fora os efeitos em outros setores. Impactou demais o setor. No 3º trimestre, portanto, compensamos o degrau negativo do 2º.

Comércio com crescimento de 1,1 % está ligado a demanda?

Tá ligado a demanda. No passado, o comercio crescia 6, 7, 8%. Agora temos que ficar felizes com o crescimento de 1,1%. Isso pq temos um movimento de baixa de juros ao longo de 18, de juros reais, e isso ajudou a economia no 3º tri, e vai ajudar ainda mais no 4º. Foi uma evolução já definida ao longo do ano de um crescimento em função de condições mais favoráveis de crédito e aumento de massa salarial. É óbvio que o que temos de crescimento de pessoal ocupado não é o suficiente pra tirar muita gente do desemprego mas o que houve em termos de aumento de pessoal ocupado, de emprego e de rendimento médio real das famílias, foi suficiente - mais o crédito - pra gerar esse crescimento de 1,1%. No 4º trimestre a gente acha que vai crescer mais um pouquinho, mas não vai sair desse ritmo de 1, 1,5%. Gostaríamos de crescer mais, mas os fundamentos da nossa economia não permitem isso.

O crescimento de 6,6% do FBCF (formação bruta de capital fixo), que se refere a investimentos, é um número inflado?

Está inflado por causa de operações do Repetro, mas não é suficiente para justificar esse movimento que havia desde o começo do ano, de aumento de investimento. Parece que muita gente já acreditava no País no começo desse ano, as taxas de máquinas e equipamentos crescem nessa margem desde o início do ano. Às vezes, porque o maquinário estava muito sucateado. É o chamado investimento de renovação. Não está expandindo a capacidade produtiva, mas renovando para manter a capacidade produtiva. A esperança é que isso seja usado por anos. Isso, mais alguns gatos pingados de investidores que acreditaram e fizeram bem. É o que explica os dados de máquina e equipamentos, o que se espelha no crescimento de investimento. 

Importação de bens e serviços crescer é preocupante?

Isso diz que reduzimos drasticamente a capacidade de oferta produtiva brasileira para esse crescimento pífio da economia. Se o Brasil começa a crescer 3%, 4%, terão empresários que vão tentar produzir dentro do Brasil, mas temos condições macroeconômicas muito ruins no País, o que obriga a importar da China, Europa e Estados Unidos, peças, componentes. As condições macroeconômicas só não são piores porque o agronegócio tem sido abençoado por Deus, mas o preço de commodities oscila. 

Está sugando mão de obra, investimentos, salários. A gente transfere para outros países o que a gente podia fazer internamente. Não é nacionalismo, mas somos tão antinacionalistas que deixamos capacidade produtiva ser exportada. 

Indústria de transformação empatando com o PIB (0,8%) é interessante?

Ela está aos poucos se recuperando. Foi muito penalizada pela recessão de 2014. A indústria foi o primeiro setor a se ressentir pela falta de competitividade, e já vinha dando sinais de enfraquecimento e foi exportando demanda, lá em 2014. Deixamos de fazer bens localmente, e passamos a importar peças e componentes.

Agora mostrou algum suspiro e recuperação, em função da desvalorização cambial que permitiu, na margem, alguma retomada da competitividade. Mas não podemos comemorar nada. A indústria foi muito penalizada. Se um dia a gente quiser que haja absorção desse contingente de desempregados, tem que passar pela indústria. O setor de serviços não tem condições de absorvê-los com qualidade, salários dignos, como a indústria é capaz de fazer.

A indústria exige qualificação maior que os serviços. O crédito permitiu que a indústria automobilística se recuperasse um pouco, calçados também… Mas veja, construção civil praticamente não anda, outros setores estão parados.

Agronegócio em 0,7% em comparação com o último trimestre? Parte está na indústria?

A maior parte do chamado agronegócio está na dinâmica do cálculo econômico da indústria. Agropecuária diz respeito ao que é produzido “da porteira para dentro”. O mais básico em termos de lavoura e pecuária. Quando você cria um frango, é “porteira para dentro”, a produção de carne de frango, no entanto, é indústria, então a gente teve no 2º trimestre a produção e distribuição prejudicada pela greve. Agora no 3º, houve uma recuperação em relação ao 2º. Neste trimestre foi relativamente bem, mas foi para compensar o anterior.

Despesas de consumo das famílias (0,6%) e despesas do governo em -0,3%. O governo está sem dinheiro?

É até melhor que o governo não participe tanto da formação do PIB. Precisa primeiro se ajustar, para depois começar a gastar. O consumo das famílias está crescendo porque houve expansão do crédito, do pessoal ocupado, mas nem tanto. Essa melhora na margem é que está favorecendo a melhora de consumo e contribuindo do lado da demanda para esse crescimento do PIB.

O agro pesa pouco no PIB?

As lavouras pesam pouco, mas o agronegócio pesa em torno de 25%, 23%. Quando você considera a indústria que exporta, mais os prestadores de serviço ligados ao agronegócio, tem um pedaço importante da economia que depende do agronegócio. Uma dependência a longo prazo que pode ser perigosa.

Hoje o preço do petróleo caiu bastante. A gente não sabe exatamente se o preço da soja vai ter um desabamento também. Por isso é importante que nós tenhamos uma capacidade de produção diversificada. Podemos até vender serviços, mas para que isso ocorra temos que fazer reformas, baixar mais um pouco os juros, a carga tributária, destravar infraestrutura para melhorar escoamento. 

O Brasil tem uma Itália de gente negativada, com nome sujo na praça. Esse problema vai aumentar no futuro?

É, isso trava o crescimento daquilo que é o principal motor da economia do lado da demanda, que é o consumo. Não podemos pensar num crescimento do PIB mais acentuado, se não conseguirmos absorver mais pessoal desocupado na máquina produtiva.

As famílias que já estão hoje no mercado não poderão aumentar seu nível de endividamento, não poderão comprar outra TV, outro carro, enfim, sua renda disponível já está comprometida. É um problema. Não vai bastar apenas alongar prazo de pagamento, redução de juros. Esse pessoal precisa não só manter o emprego, como outros familiares destas famílias precisam de novas oportunidades de trabalho, e isso vai depender de um conjunto de fatores, inclusive de uma reforma da Previdência e um conjunto de reformas de caráter mais amplo, para que a confiança, que é um objeto que falta no País, não se evapore por inteiro. 

Se tivermos uma desconfiança maior em relação ao Brasil nos próximos 6, 12 meses, aí sim poderemos ter uma piora mais acentuada de fundamentos e as consequências seriam muito ruins. 

O que podemos esperar de projeção de PIB para 2018?

Deve ficar por volta de 1,3%. Essa inércia ainda vai ser favorável no 4º tri, levando a fechar com 1,2% 1,3% de crescimento em 2018.

Bolsonaro vai assumir em que condições?

Vai assumir com bons fundamentos, inflação sob controle, próxima de 4,5%, setor externo muito bem, estamos vendo que alguns investimentos estão andando, o consumo não é “uma brastemp” mas é razoável, então o novo governo tem bons fundamentos para enfrentar 2019, mas deverá ser ágil na condução de reformas que transmitam não só para nós, brasileiros, mas para o resto do mundo, um sentimento de confiança, no sentido de que seremos capazes de fazer reformas da Previdência, controle de gastos, atacar a questão dos super salários, porque vai ser difícil cobrar da população sacrifício, se o topo dos 3 poderes tem salários que estão divorciados do resto da renda das famílias brasileiras.

Esse será um problema sério que o governo deverá enfrentar. Se o governo não encaminha de uma maneira crível, o mercado doméstico e internacional criticará muito fortemente, e isso pode azedar os humores, coisa que ninguém quer, porque se a gente está reclamando do crescimento de 1%, 1,2%, esse crescimento pode ser ainda pior, pode se tornar uma estagnação que só Deus sabe quando tempo pode durar.

 

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