É o rombo

Não é novidade que o rombo externo (déficit em Conta Corrente) deste ano vai dobrar em relação ao do ano passado. Há meses o Banco Central vai chamando a atenção para o esticão: foi de US$ 24,3 bilhões em 2009 e deverá ser de US$ 49 bilhões neste ano.

Celso Ming, celso.ming@grupoestado.com.br, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2010 | 00h00

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem razão quando afirma que esse salto apenas aconteceu porque a economia está crescendo uma enormidade: "Para acabar com esse déficit, basta que o PIB do ano que vem cresça 2% e não mais de 7%, como vai acontecer neste ano", disse.

Em algum momento, os analistas vão se dar conta de outro fato impressionante: as importações estão crescendo perto dos 50%, feitos os cálculos com base no período de 12 meses terminado na quarta semana de julho. Isso pouco ou quase nada tem a ver com o real relativamente valorizado diante do dólar. As importações estão aumentando porque, neste ano de eleições, o governo ampliou suas despesas correntes em nada menos que 14%, o que aumentou a renda e o consumo, sem que o setor produtivo interno conseguisse dar conta da disparada da demanda. A forte expansão do crédito (veja o Confira), esse aumento das encomendas ao exterior, o avanço de 118% do saldo negativo no item viagens externas e a expansão do PIB a 7% neste ano integram a mesma foto.

Até o final do ano passado, o rombo externo cada vez mais alto não suscitava preocupações porque contava com cobertura de boa qualidade, especialmente de entrada de Investimentos Estrangeiros Diretos (IED), que é um capital que desembarca por aqui para ficar. No primeiro semestre, cresceu a participação do capital de risco, que entra no País para tirar proveito dos juros mais altos ou para aplicações na bolsa. O saldo da entrada desses recursos no primeiro semestre é de US$ 23,2 bilhões. Esse aí é um capital assustadiço e covarde. Está sempre pronto a levantar voo ao primeiro sinal de alarme. Em todo o caso, apesar das expressões de inconformismo de alguns analistas, não há razões para desconfiar da confiabilidade da cobertura do déficit externo deste ano.

Sinal claro disso é o fato de que os bancos brasileiros estão "vendidos" em moeda estrangeira no mercado futuro em cerca de US$ 13 bilhões, quatro vezes mais do que o normal. Isso significa que estão apostando na entrada maciça de dólares nos próximos três meses e na perspectiva de repasse com lucro ao Banco Central, que é hoje um grande tomador de moeda estrangeira na praça.

Não é segredo para ninguém que apenas o aumento de capital da Petrobrás deverá trazer para cá alguma coisa em torno de US$ 20 bilhões. Quer dizer, a nova batelada de capitais de investimento (embora não esteja englobada na sigla IED) mais o próprio IED (projetado em US$ 38 bilhões neste ano) deverão suplantar de longe a entrada de capital especulativo.

A conclusão é a de que, pelo menos por enquanto, não há razões para acreditar em que o salto de vara do rombo em Conta Corrente afunde a economia brasileira em uma crise cambial (fuga de dólares).

Além disso, em 2011, o PIB vai caminhar mais devagar, provavelmente não mais do que 5%, e isso significa que a atual disparada das importações também vai começar a ser contida.

CONFIRA

Dinamismo do crédito

Em apenas 12 meses (terminados em junho), as operações de crédito realizadas pela rede bancária aumentaram 19,7%. Há três anos correspondiam a 31,7% do PIB. Agora já são 45,7% do PIB (veja gráfico).

Mercado aquecido

O tipo de crédito que mais cresceu foi o habitacional (financiamento para a casa própria). Apenas em junho (em relação a maio), avançou 3,6%. Em 12 meses, saltou 50,6%. Isso ajuda a explicar por que o setor da construção civil está tão quente.

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