'É obrigação pagar. A casa é meu sonho'

Simone teve gastos inesperados com a saúde da filha e atrasou alguns pagamentos. Faz hora extra para quitar dívida

BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2014 | 02h04

Contemplada com uma casa em Águas Lindas de Goiás (GO), a 50 km de Brasília, a diarista Simone Pereira Lopes ficou sem pagar por sete meses seguidos a prestação de R$ 50 do imóvel do Minha Casa, Minha Vida. Ela diz que o orçamento da família apertou porque precisou pagar exames e remédios para a filha Naelly Giovana, de 12 anos, que teve paralisia cerebral aos 4 anos depois de um erro médico em um hospital público.

Para aumentar o orçamento e quitar a dívida, Simone aumentou o número de diárias que faz quase todo dia à tarde. "Foi muito difícil. Ralei demais, mas pagar é minha obrigação. Essa casa é meu sonho", afirma. A prestação do mês de maio ainda está atrasada, mas ela garante que vai pagar assim que receber a próxima diária para não acumular mais tantas prestações sem pagar.

Há quase quatro anos, antes de se mudar com Naelly e mais três filhos para a casa no Residencial Betel, Simone pagava R$ 300 de aluguel. "Foi um alívio quando mudei pra cá e a prestação caiu para R$ 50, sem falar que agora pago o que é meu. Posso fazer o que quiser na minha casa", afirmou. Depois que a filha mais velha, de 18 anos, se casou e mudou, Simone mora com o marido Wilson Pereira Santos, que trabalha na capital federal e ganha R$ 800 por mês, e os outros dois meninos - Carlos Eduardo, de 16 anos, e Janderson Wilson, de 9 anos, ambos matriculados na escola.

Somente 130 moradias das 317 que compõem o Residencial Betel ainda são habitadas por moradores contemplados pelo Minha Casa, Minha Vida. O restante dos imóveis foi vendido ou alugado pelos mutuários, de acordo com apuração feita pelo Estado na Secretaria de Assistência Social de Águas Lindas.

Essa prática comum nos empreendimentos do Minha Casa, Minha Vida é proibida pelo governo federal, mas falta fiscalização. De cada dez moradores do residencial, apenas 4 estão com as prestações em dia, segundo o órgão municipal.

Melhorias. Em 2011, quando a família Lopes chegou ao bairro, na periferia da cidade goiana, as casas eram todas iguais e não havia nenhum estabelecimento comercial. Com o tempo, houve melhorias: da porta pra fora, Simone só reclama agora de a prefeitura ter retirado o asfalto com a promessa de colocar outro revestimento e, até agora, só terra e poeira. Da porta pra dentro, a diarista conseguiu colocar cerâmica em todos os cômodos (2 quartos, sala, cozinha e banheiro) e muros que dividem o imóvel das casas dos vizinhos. Nem todas as casas são muradas no bairro.

A primeira das melhorias feitas por Simone por conta própria, passou a ser obrigatoriedade em abril de 2013, quando a própria presidente Dilma, após constatar que as residências não dispunham de revestimento em todos os cômodos, mas apenas nas áreas molhadas, como banheiro e cozinha, determinou que os imóveis da primeira fase fossem entregues com o piso de cerâmica e azulejos na casa inteira.

Já o muro é o segundo pedido pessoal da presidente e deve ser uma das novidades da terceira etapa, prevista para ser lançada em breve. Para dar privacidade aos moradores e evitar que eles mesmo construam os muros sem nenhum tipo de padronização, será permitida a instalação de "cercas vivas", depois que as construtoras informaram que o custo poderia ficar muito alto para o programa. / M.R.A.

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