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E os abutres venceram

Mais do que ganharam os fundos abutres, perdeu a Argentina que, pela teimosia e despropósitos de seu governo, permaneceu15 anos alijada do mercado global de capitais

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2016 | 21h00

O governo do presidente Mauricio Macri, da Argentina, anunciou nesse fim de semana o acordo definitivo com os credores de sua dívida, uma disputa que enfrentou nada menos que 15 anos de suspensão de pagamentos.

Quando o Congresso argentino aprovar o pagamento de US$ 4,65 bilhões de dólares, a serem pagos aos credores no dia 14 de abril, a Argentina dará por findos os trâmites do seu calote e poderá voltar ao mercado internacional de crédito, do qual esteve afastada desde 2001.

O acordo final foi celebrado com os detentores de títulos que não haviam concordado com os termos das reestruturações unilaterais impostos pelos governos Kirchner em 2005 e em 2010. Os negociadores da Argentina aceitaram desses holdouts a oferta de um deságio de 25%. Os demais credores, os mesmos que concordaram com as condições impostas pelo governo Kirchner, foram obrigados a engolir um deságio de 65%.

Assim, os fundos que entraram na Justiça dos Estados Unidos para arrancar pagamentos mais altos, os mesmos quatro grupos de credores que o governo de Cristina Kirchner insistia em chamar de fundos abutres, ganharam o braço de ferro final com o governo de Buenos Aires.

Foi uma guerra de mais de dez anos que percorreu todas as instâncias da Justiça dos Estados Unidos, provocou o sequestro de propriedades da Argentina e até mesmo a apreensão, em 2012, da Fragata Libertad, navio-escola ancorado no porto de Gana. Em 2014, a briga judicial levou ao segundo calote técnico, desta vez o da dívida anteriormente renegociada, quando o juiz Thomas Griesa, de Nova York, proibiu o pagamento aos demais credores enquanto os fundos abutres não fossem ressarcidos.

Mais do que ganharam os fundos abutres, perdeu a Argentina que, pela teimosia e despropósitos de seu governo, permaneceu esses 15 anos alijada do mercado global de capitais, deixou de tirar proveito de uma massa enorme de recursos disponíveis nos centros financeiros internacionais e permaneceu atrasada no seu desenvolvimento econômico.

A mudança de orientação do governo Macri, que permitiu o novo acordo, é parte da nova política que resgata a Argentina da enorme crise de confiança em que esteve atolada. O câmbio, antes estrangulado, foi praticamente liberado, os subsídios à energia elétrica desapareceram com os reajustes de mais de 300% nas contas de luz, os do gás estão para ser cortados, milhares de funcionários públicos foram dispensados.

A Argentina enfrenta agora uma pesada inflação corretiva, de mais de 30% ao ano, que se segue ao corte nos subsídios e à disparada das cotações do dólar em pesos. A pressão dos sindicatos em busca de reajustes de salários tende a aumentar. Para enfrentar os novos custos políticos, especialmente o dos sindicatos, o presidente Macri tratou de fazer acordos com governadores e de negociar reformas do sistema eleitoral e do Judiciário. Os investimentos voltaram, devagar, mas voltaram.

O fim do calote da Argentina encerra também a aventura bolivariana empreendida ao longo do período Kirchner a que o governo brasileiro das administrações Lula e Dilma deu tanto apoio. Com isso, as relações do Brasil com a Argentina podem ser retomadas em condições bem diferentes das que vigoraram nos últimos 13 anos.

CONFIRA:

Aí está a escadinha da Selic, a evolução dos juros básicos tal como decidida pelo Copom do Banco Central.

Ficou onde estava

A decisão do Copom tomada nessa quarta-feira manteve os juros básicos nos 14,25% ao ano pela quinta vez consecutiva. Manteve-se também o racha da reunião anterior. Dois dos oito diretores votaram novamente pelo aumento de 0,5 ponto porcentual. O comunicado não deu pormenores sobre os próximos passos. Mais explicações podem aparecer na ata, a ser divulgada na próxima quinta-feira.

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