E os drones chegaram... no trabalho

Em 28 de janeiro deste ano, publiquei nesta coluna um artigo que previa a entrada dos drones nos ambientes de trabalho em dois ou três anos. Errei redondamente. A imprensa noticia que empresas chinesas e americanas estão produzindo e vendendo drones em massa.

José Pastore, O Estado de S.Paulo

02 Dezembro 2014 | 02h04

Os drones são aparelhos voadores não tripulados que até pouco tempo atrás eram usados apenas em operações de guerra. Hoje, os americanos vêm utilizando esses aparelhos para fiscalizar e patrulhar a fronteira com o México e, assim, identificar em tempo real quem tenta entrar ilegalmente nos EUA. Em vários países, os drones fazem fotografias de alta definição e mapas tridimensionais de regiões inóspitas e de difícil acesso. Eles têm sido usados também para detectar problemas de trânsito nas grandes cidades, mudanças climáticas, incêndios em florestas fechadas e riscos de manadas de animais a serem protegidos.

De igual utilidade é o seu uso para monitorar as atividades agrícolas - desde a preparação da terra até a colheita -, assim como para fazer sondagens de solo, água e florestas em áreas remotas a serem usadas em estudos do meio ambiente. Os drones são utilizados igualmente na produção de filmes e programas de televisão e também na construção civil, onde funcionam como inspetores de qualidade e de segurança de obras e, sobretudo, de trabalhadores. Com a possibilidade de fazer previsões mais acuradas de desastres ambientais (furacões, tsunamis, enchentes, etc.), os drones estão facilitando a implementação de operações de evacuação de comunidades atingidas, sem pôr em risco a vida humana.

Em suma, sem tripulantes, esses aparelhos são capazes de captar, fotografar e monitorar uma imensidão de atividades realizadas ao ar livre. Algumas empresas já começam a dar passos mais arrojados, como, por exemplo, a Amazon.com, que se prepara para fazer entregas de livros, CDs, DVDs e outros produtos leves por meio dos drones. Empresas de outros ramos estudam seguir o mesmo caminho.

Os produtores de drones sabem que têm pela frente um mercado promissor. Avançam nas inovações e reduzem os preços. Os aparelhos de 1 m2 estão sendo vendidos por US$ 1 mil cada um - equipados com câmeras fotográficas e filmadoras avançadas. É um preço muito baixo quando se considera o que tais aparelhos podem fazer.

Os negócios das empresas chinesas explodiram. A DJI Technology Co., por exemplo, começou a fabricar drones em 2011 com 90 funcionários e uma receita de US$ 4,2 milhões. Em 2013, operou com 1.240 funcionários e faturou US$ 130 milhões! Neste ano, está com 2.800 e não para de crescer (Empresa chinesa é líder mundial num novo segmento de consumo: drones, jornal Valor, 12/11/2014).

Tudo isso impacta o mundo do trabalho. Os drones que fiscalizam fronteiras e monitoram o trânsito substituem milhares de policiais. Os que observam incêndios substituem centenas de bombeiros. Os que monitoram a agricultura e a construção civil dispensam chefes e supervisores. Os que entregam mercadorias entram no lugar de motoristas e ajudantes.

Além de poderem trabalhar em áreas a que o ser humano não tem acesso, o uso de drones é uma resposta à falta de mão de obra e ao encarecimento do fator trabalho que se observa em toda parte, inclusive no Brasil.

Se, de um lado, esses artefatos substituem os trabalhadores, de outro, eles aumentam a produtividade do trabalho, a capacidade de investir das empresas e de gerar oportunidades de trabalho em outras áreas, em especial no setor de serviços. Num primeiro momento, são atividades que demandam trabalho pouco qualificado, mas, com o passar do tempo, exigirão um bom nível de capacitação. Novamente, a educação será fundamental para manter as pessoas trabalhando. Está aí mais um desafio para o nosso precário sistema de ensino.

*José Pastore é professor da Universidade de São Paulo, presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da Fecomércio-SP e membro da Academia Paulista de Letras 

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