E os empregos, quando voltam?

Para os próximos anos, o Brasil tem condições de gerar empregos dentro da atual matriz tecnológica

José Pastore*, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2017 | 05h00

Em meados de 2016, imaginei que os empregos começariam a voltar no início de 2017 em vista da priorização da infraestrutura como área de investimento. Em poucos meses de seu mandato, Michel Temer havia tomado providências importantes para ativar o setor: criou o Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), aprovou as novas leis das empresas estatais e do saneamento básico, profissionalizou as agências reguladoras, aprovou o fim do monopólio da Petrobrás no pré-sal, garantiu lucratividade para os investimentos privados em infraestrutura, etc. As precondições foram definidas.

Apesar disso, os investimentos no setor não se concretizaram. Ao contrário, diminuíram em R$ 100 bilhões em 2016. E assim entramos em 2017. Os investidores continuam à espera de uma definição mais clara das regras de concessão e das exigências ambientais, ora em fase de finalização.

O que esperar em 2017? Vejo o futuro próximo com bons olhos. Destaco alguns fatos que me parecem relevantes para a retomada dos investimentos em infraestrutura:

- O leilão dos Aeroportos de Fortaleza, Salvador, Florianópolis e Porto Alegre foi marcado para março deste ano e já vem atraindo investidores nacionais e estrangeiros;

- O leilão do pré-sal foi antecipado para se realizar no primeiro semestre, o que igualmente desperta o apetite dos investidores privados;

- A Petrobrás está chamando empresas estrangeiras para concluir as obras do complexo petroquímico do Rio de Janeiro e outras de grande porte;

- O governo decidiu ativar as obras em 58 aeroportos regionais;

- O Decreto n.º 8.957/2017 ampliou as facilidades de crédito público para atrair empresas estrangeiras no campo da infraestrutura.

Estes são alguns exemplos de sinais positivos com boa chance de se concretizarem neste ano, tendo na queda da inflação um importante facilitador para a economia como um todo.

E emprego, como fica? Temos de ser realistas. Nos últimos dois anos o Brasil destruiu cerca de 3 milhões de empregos formais. Foi um desastre de grandes proporções. Será impossível reverter este quadro em pouco tempo. Mas, com a ativação de obras de infraestrutura, o mercado de trabalho deve entrar em fase de recuperação a partir do segundo semestre de 2017. E a geração de empregos decorrentes de infraestrutura tem impacto positivo em vários outros setores da economia.

Dois fatores de risco são geralmente citados como perturbadores dessa estimativa: a instabilidade política e o avanço da automação.

É difícil de estimar o risco real na área política. O governo pode ser desestabilizado ou reforçado a depender dos desdobramentos da Lava Jato, com reflexos negativos ou positivos no andamento das reformas fiscal, previdenciária, trabalhista e outras. Quanto ao impacto da automação, há que se reconhecer que a entrada de novas tecnologias no processo produtivo é inevitável e crescente. Mas, como ocorre no resto do mundo, nada acontece da noite para o dia nesse campo. Ou seja, para os próximos anos, o Brasil tem condições de gerar empregos dentro da atual matriz tecnológica.

Conclusão: vejo 2017 como o ano da virada no mercado de trabalho: será menos pior do que 2016. Os empregos começarão a surgir, impulsionados pelas forças da infraestrutura, com desdobramentos para outros setores da economia. Convém adicionar o fato de que o Brasil terá uma safra recorde neste ano, o que injetará recursos no interior do País, ativando o comércio e serviços e a própria indústria, retomando a geração de empregos.

* Professor de Relações do Trabalho da FEA-USP, é presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da Fecomercio-SP e membro da Academia Paulista de Letras

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.