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E para onde essa bola vai rolar?

Olhando no retrovisor tudo esteve bem. Já no farol de milha há muita neblina em noite escura. Esse pode ser o resumo - com licença do Joelmir Betting - da situação geral da economia brasileira e mundial. Aliás, lembrando o tradicional discurso de muitas autoridades sobre a necessidade de haver coordenação internacional das políticas econômicas, é irônico constatar que o que na verdade está bem coordenado, desta vez, é a crise: praticamente todos os países do mundo estão diante dela. E sem saber o que fazer...E como toda crise que se preze, em qualquer campo de atividade, essa também tem sua parcela de vida própria. Caminhou muito depressa. Em pouco tempo, deixou-se de falar em recessão e já se fala abertamente em depressão. Pelo menos nos EUA. No Brasil, ainda não se manifestou abertamente uma recessão nem uma depressão: a arrecadação do governo continua batendo recordes, o emprego ainda cresce, embora menos, a renda e o consumo também. Ainda. É o que se vê no espelho retrovisor: tudo fruto da inércia, como na física (um corpo posto em movimento tende a permanecer em movimento, etc., etc.). A economia brasileira vinha surfando um bom vento de popa e, em certa medida, ainda está no embalo. Deve continuar assim até o final do ano, pelo menos. Os empregos temporários criados nessa época de festas natalinas mais o pagamento do saldo do 13º salário em dezembro são dois bons assoprões nas velas do barco.E o governo está agindo certo, afinal, injetando dinheiro na economia - nas montadoras, um pouco na agricultura, um outro tanto nos bancos, etc. Poderia agir muito melhor dando um corte significativo na carga tributária, cortando o próprio custeio e deixando nas mãos dos contribuintes o dinheiro que está empoçado em projetos que não andam, pois o aumento da arrecadação (aumento real de 12,36% em um ano) mais do que garante os gastos inadiáveis (basicamente, folha do funcionalismo, ativo e aposentado).Mas governo é assim mesmo: quando age certo, é ação meia-boca; quando age errado, é boca inteira.O que está indo ladeira abaixo, no contraponto dos números da economia, são as expectativas. Ninguém espera nem conta com um início de 2009 minimamente auspicioso. Normalmente é assim, aliás. Os começos de anos são de baixa estação na economia. Mas o começo de 2009 pode ser de baixíssima estação. Que talvez se prolongue por três quartos do ano. A julgar pelo que está acontecendo na construção civil, no mercado de ações, no quesito dos juros e do crédito e na lavoura, onde há muito não se viam bancos tomando de volta máquinas agrícolas por eles financiadas (aliás, entre parênteses, para fazer o que com elas? Vender no desmanche?), enfim, se o Brasil emplacar um crescimento do PIB de 3,5% no ano que vem, será pra lá de bom.Muitos leitores mandarão e-mails indignados, dizendo que isso não passa de puro mau agouro. Tomara que seja. Ninguém torce pela crise. O presidente Lula é que vive pensando e dizendo que a oposição está torcendo a favor da crise, para que o governo dele acabe no buraco, e não no nirvana com que ele contava (e conta ainda). Mas não é verdade. Nem pode ser verdade. Só um tonto desejaria isso. E, embora a oposição esteja cheia de tontos e sôfrega para voltar ao pódio em 2010 - está, é claro! -, quem é que quer pegar para governar um país em crise, uma economia em frangalhos?Não, nada disso. O que vai levar a economia para baixo, a partir do início de 2009, não é a torcida de ninguém e, sim, as tais das expectativas. As expectativas, das empresas, das pessoas, dos investidores, são uma coisa danada, impossível de medir, e não estão boas. Quando isso acontece, os fatos começam a dar para trás. Por exemplo: a indústria automobilística vendeu muito. Ajudou e facilitou bastante a freguesia. Estendeu os prazos de financiamentos ad infinitum. Ganhava talvez mais nos juros do que na venda dos carros. Aí, de repente, mudam as expectativas dos que compraram carros e dos que pretendem comprar. Eles começam a achar que não vai dar para pagar as prestações, porque o salário não está seguro, a inflação vai subir e pressionar o orçamento doméstico - o mar não está pra peixe, enfim. Por tudo isso, podem escolher entregar os carros que compraram. A concessionária e o banco vão fazer o quê? Vender para outros fregueses? Mas, estes podem ter a mesma expectativa, não vão querer comprar. A expectativa da concessionária, que antes era de lucro crescente, passa a ser de prejuízo crescente. A do banco, que antes era de aumentar a oferta de crédito para lucrar mais, passa a ser a de diminuir a oferta de crédito para perder menos. A expectativa geral do mercado de carros passa do viés de alta para o viés de baixa. E, na seqüência, o mesmo acontece nos mercados dos fornecedores de peças e acessórios, nos dos serviços de oficinas, nos dos pneumáticos e até nos dos combustíveis. O time inteiro passa a jogar na retranca - e na retranca, como sabe o grande técnico de futebol Lula da Silva, não se faz gol.De modo que, independentemente da torcida de quem quer que seja, oposição ou situação, a vaca, ou seja, a economia, está entrando no brejo. A questão é saber quanto tempo permanecerá nele e até onde pode afundar. Ninguém tem essa resposta. O que se sabe é que os tempos vindouros, como diriam os antigos, serão difíceis.O governo não está fazendo tudo o que poderia, como já dissemos, mas está fazendo coisas positivas que aliviam a situação. E, de fato, concordando com o que o ele diz, a economia brasileira está hoje mais sólida e em melhores condições para enfrentar crises do que no passado. Mas vai haver muita dificuldade. O mais importante é que não haja muito desemprego, pois é no emprego, afinal, que está o motor de toda a economia. *Marco Antonio Rocha é jornalista. E-mail: marcoantonio.rocha@grupoestado.com.br

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