''É perigoso pensar que a crise financeira ficou para trás''

Dominique Strauss-Kahn:[br]diretor-gerente do FMI[br]Para Straus-Kahn, é preciso adotar uma estratégia de saída da crise, mas sua adoção não deve ser imediata

Entrevista com

Gregor Peter Schmitz e Gabor Steingart, DER SPIEGEL, O Estadao de S.Paulo

15 de setembro de 2009 | 00h00

O diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, fala sobre a falta de disposição de Wall Street em aprender com as lições da crise financeira, do futuro da economia e de suas ideias para um novo papel desempenhado pelo FMI enquanto rede global de segurança financeira.

No dia seguinte ao pedido de concordata do banco de investimentos Lehman Brothers, a crise no mercado imobiliário americano se tornou um terremoto que abalou toda a economia mundial. Será que as pessoas responsáveis por provocar a crise aprenderam com os acontecimentos do último mês de setembro?

Alguns meses antes da falência do Lehman Brothers, o então secretário do Tesouro, Hank Paulson, organizou um jantar para funcionários do governo e um punhado de diretores executivos dos maiores bancos de investimento americanos. Quase ninguém sabia a respeito dos problemas do Lehman na época, mas o Bear Sterns já tinha entrado em colapso. Portanto, os problemas no setor financeiro eram evidentes. Durante o jantar, um dos banqueiros de destaque nos disse: "Escutem, fomos na verdade gananciosos demais. É por isso que precisamos conter nossa ganância com um sistema regulatório melhor...".

O diretor executivo do Goldman Sachs disse, após a crise, que o episódio teria sido uma "tempestade perfeita", argumentando que não se pode fazer nada para se proteger de uma tempestade perfeita.

Trata-se de uma metáfora equivocada. A sociedade humana não é uma força da natureza. A crise financeira foi um acontecimento catastrófico, mas um acontecimento criado pela ação do homem. A lição que todos precisamos aprender é que mesmo uma economia de livre mercado precisa de alguma espécie de regulação, caso contrário o seu funcionamento é comprometido.

Será que a resposta atual à crise não está criando novos riscos? Os banqueiros agora sabem que, no final, o governo virá resgatá-los se tudo der terrivelmente errado. Os economistas chamam isso de "risco moral", situação em que os indivíduos são incentivados a se comportar de maneira irresponsável porque sabem que não serão castigados por seus erros.

Do ponto de vista do risco moral, pode ser que deixar um banco falir seja a decisão certa. Mas as consequências sistêmicas devem ser levadas em consideração e, neste caso, foram gravíssimas. Acho que hoje a maioria das pessoas diria que permitir a concordata do Lehman foi uma ideia ruim. Mas é sempre mais fácil comentar o passado do que adivinhar o futuro. Os responsáveis precisavam tomar uma decisão tão rápido quanto possível.

Isso não significa que, da próxima vez, os diretores executivos saberão que podem contar com o governo para resgatá-los?

Não podemos esquecer que muitos banqueiros investidores perderam seus empregos. Seja como for, concordo que o sistema de compensação dentro das instituições financeiras deva ser reconsiderado.

Podemos dizer que sua avaliação um ano após o colapso do Lehman é pessimista.

Seria injusto afirmar que nada mudou, mas é certo dizer que as mudanças não foram suficientes. Torço para que a reunião de cúpula do G-20 em Pittsburgh possa nos imbuir de um novo ímpeto.

O sr. está satisfeito com as realizações do FMI nesta crise?

O FMI desempenha papéis diferentes. O primeiro é tentar disponibilizar alertas preventivos contra crises iminentes. Antes da crise, nosso trabalho nesse sentido não foi tão bom quanto poderia ter sido. Uma segunda parte do nosso trabalho é oferecer conselhos aos responsáveis pela tomada de decisões e elaboração de medidas. Nesse aspecto, correspondemos às expectativas. Afinal, as principais reações à crise - foram sugeridas por nós.

O FMI dispõe de recursos suficientes para desempenhar seu papel no futuro?

Contamos agora com o compromisso de US$ 500 bilhões em recursos adicionais por parte dos países-membros. Dispomos de recursos suficientes para arcar com nossas responsabilidades tradicionais de empréstimo.

Muitos gostariam de ver o FMI desempenhar o papel de superregulador...

Não vejo o FMI como um policial, e sim como um médico. Oferecemos conselhos ao paciente e o ensinamos a conservar uma boa saúde. Se ele adoecer, damos o remédio.

Durante a crise atual, o sr. foi um médico tolerante.

Nesta crise, eu compararia nosso papel e o papel dos governos ao de bombeiros. Todos vimos que a casa estava em chamas. Era necessária muita água para apagar o fogo. É claro, depois de controlado o incêndio, é preciso enxugar tudo. Mas é melhor ter uma casa encharcada do que uma casa em cinzas.

O sr. faz alguma ideia de quando a casa ficará seca novamente, e como encerrar as intervenções governamentais?

Precisamos de uma estratégia de saída. Mas se devemos considerar a implementação imediata de tal estratégia, disso eu discordo.

Mas qual é a estratégia de saída?

Teremos de reduzir a liquidez dos mercados. Não há dúvida em relação a isto. Possivelmente por meio de uma combinação entre o aumento nas taxas de juros e o fim das intervenções diretas dos bancos centrais.

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