Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

'É por meio do diálogo que se enfrenta a crise', diz CEO da Renner

Em entrevista ao Estadão/Broadcast, presidente da rede varejista de roupas e acessórios defendeu a criação de um comitê único e centralizado para combater a epidemia

André Vieira, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2020 | 07h00

A dupla crise desencadeada pelo coronavírus - a da saúde e a econômica - exigirá a superação do clima de polarização no Brasil, a fim de perseguir as melhores soluções para atacar um inimigo comum: o covid-19, opina o presidente da Lojas Renner, Fabio Faccio.

"Não é uma questão de saúde ou de economia. É uma questão de enfrentar o problema da saúde e da economia", diz Faccio, de 47 anos, sobre necessidade de combater o dualismo e atuar de forma conjunta e articulada. Ele propõe a criação de um comitê único e centralizado para a coordenação da gestão da crise. "É por meio do diálogo que se enfrenta a crise e se buscam as soluções", diz.

 Na semana passada, a Lojas Renner foi a primeira grande rede de vestuário a fechar toda a sua rede de 600 lojas, incluindo as marcas como Camicado e Youcom, colocando a maior parte de seus 23 mil funcionários em férias, em bancos de horas ou home office. Congelou o investimento de R$ 910 milhões para 2020 e estreitou a conversa com bancos e parceiros para preservar seu caixa.

"No primeiro momento, o objetivo foi preservar a vida das pessoas, reduzir as despesas e começar a revisar nosso orçamento", disse Faccio. Ele assumiu a presidência da Renner em abril do ano passado, no lugar de José Galló, que ficou à frente da companhia por 27 anos e hoje segue à frente do conselho de administração. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Qual a saída para a crise?

A gente tem um inimigo em comum e o mundo inteiro está no mesmo barco. Os danos sob o ponto de vista de vidas e sob o ponto de vista econômico são muito graves. Por isso, o aprendizado desta crise é a união. É preciso parar essa polarização que existe não só no Brasil como também no mundo. Precisamos procurar as melhores soluções conjuntas.

Como fazer isso?

Na Renner, nossas decisões são tomadas pelos conjunto de líderes da empresa e dividimos com as equipes. O foco inicial é proteger as pessoas, os nossos colaboradores, os clientes, os parceiros e a comunidade em geral. Por isso, a decisão de fechar as lojas o quanto antes era necessária porque essa é a melhor prática de saúde no mundo: a redução no número de circulação de pessoas. É preciso fazer o isolamento o quanto antes.

Muita gente fala que isso traz a recessão econômica...

Talvez, para parte da população, exista o dilema: ou eu protejo as pessoas ou eu protejo os empregos, as empresas e a economia. Não é uma coisa ou outra. Na verdade, são as duas coisas. É preciso unir os diversos setores, as diversas esferas de governos, a federal, a estadual e a municipal, os médicos, os economistas, os especialistas. As principais lideranças do País precisam sentar numa mesa virtual, debater e chegar às melhores decisões de forma coordenada. Essa é a fase um. A polarização não vai resolver. O foco é preservar tanto as pessoas como a economia. Nosso inimigo é um só.

A China teve sucesso ao implantar uma quarentena, mas ali parece ter sido mais fácil pois o governo tomou uma decisão forçada.

São formas de governos distintas, mas vejo sucesso no isolamento. Por mais que a gente não tenha um governo autoritário, porque a democracia é muito melhor, é possível sim criar uma solução discutida pelo diálogo por meio de um comitê de crise. Veja o exemplo das reformas. Foi um exercício em que a sociedade concordou a fazer a reforma (da Previdência) pela necessidade que a crise gera. Vivemos hoje uma crise bem maior e é preciso buscar o consenso da sociedade.

Como criar esse consenso?

Vou dar o exemplo da Renner, onde temos um comitê de crise que envolve muita gente. Ali, são tomadas decisões de forma clara e assertivas com diálogos e transparência. Fora da Renner, nunca conversei com tanto presidente de outras empresas. Isso aprimora as decisões que estão ao nosso alcance e garantem o melhor combate à epidemia e a busca de soluções para a manutenção dos empregos e da reativação da economia. É uma fase difícil, mas dessa união haverá um legado para o País. Por isso, é importante criar um comitê único e centralizado para a coordenação da gestão da crise.

Como fazer esse comitê e superar a polarização?

Temos de focar no propósito. Nas nossas reuniões, a gente, sendo bastante colaborativo, busca um objetivo. Os pontos de vista divergentes são importantes porque enriquecem a discussão. Por isso, é preciso  muito diálogo, transparência e serenidade. É preciso ter calma pois precisamos encarar as conversas difíceis. O que incomoda é quando um diz ter 100% da razão e o outro diz que tem outros 100%. Se perder a calma, não se constrói a solução. A única forma de enfrentar a crise é pelo diálogo, é assim que se constrói valores para a sociedade.

Qual será o lado bom desta crise?

Tenho certeza que virão muitos aprendizados. Ainda não sabemos o tamanho da crise e existem muitos exemplos negativos. Mas já temos vistos muitos exemplos de contribuição e solidariedade das pessoas e das empresas. Isso vai permanecer.

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