É possível ganhar dinheiro usando a fé?
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É possível ganhar dinheiro usando a fé?

A conclusão é que os investidores que colocaram seu capital em fundos islâmicos durante o período analisado não coletaram desempenho inferior aos que investiram em fundos convencionais.

Fábio Gallo, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2021 | 05h00

As estatísticas mundiais observam que entre 84% e 88% da população mundial se identifica com alguma religião. Os cristãos formam o maior grupo. Na sequência, têm-se os adeptos do islamismo, sendo que uma em cada quatro pessoas no planeta é adepta dessa religião. Assim, analisar como ocorre a prática financeira nessa religião com tantos adeptos é algo importante.Uma primeira observação é que os bancos islâmicos são singulares, e isso decorre do fato de que eles não estão apenas sujeitos à supervisão de órgãos reguladores financeiros que organizam o setor bancário, como bancos centrais, mas também às diretrizes da Shariah, ou Lei Islâmica, que rege suas transações financeiras, produtos e contratos. Suas proibições e princípios são estabelecidos no Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos, com que o principal direcionamento é cuidar do bem-estar das pessoas.

Segundo esses princípios, a riba, que muitas vezes é confundida com juros, não pode ser paga nem recebida. Além disso, o seguidor fiel do islamismo não pode ter investimentos que se choquem com os princípios religiosos, como, por exemplo, ativos meramente especulativos ou sem valor para a sociedade. Particularmente, quando é examinado o grupo de investidores em fundos islâmicos de investimento, verifica-se que esse grupo não se preocupa em maximizar suas carteiras, quando identificadas divergências do portfólio com seus valores religiosos.

Para poder dar conta de questões relativas aos investimentos islâmicos, estão sendo conduzidos estudos que comparam o desempenho dos fundos islâmicos com o de amostras correspondentes de fundos de investimentos socialmente responsáveis (SRI) e fundos convencionais. Citando um estudo que observou dados que cobriram o período de junho de 1988 a fevereiro de 2019, foi observado que a rentabilidade média anualizada do fundo islâmico médio (4,66%) superou a rentabilidade média do fundo convencional (4,05%), bem como a dos fundos SRI (3,65%).

Na verdade, nenhum desses fundos teve melhor desempenho do que o mercado. No período analisado, todos tiveram rentabilidade ajustada ao risco negativa, embora os fundos islâmicos tenham apresentado o desempenho menos negativo. Uma das observações importantes é que os fundos islâmicos apresentaram um desempenho melhor em conter as perdas durante a crise financeira mundial, particularmente quando se constata que a comparação entre os fundos ocorreu em um mercado financeiro desenvolvido sem nenhuma influência religiosa sobre os investidores.

A conclusão é que os investidores que colocaram seu capital em fundos islâmicos durante o período analisado não coletaram desempenho inferior aos que investiram em fundos convencionais. Assim, pode-se acreditar que é possível fazer o bem e ganhar dinheiro com isso. 

*PROFESSOR DE FINANÇAS DA FGV-SP

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