É possível manter cronograma da Alca, diz embaixador

O cronograma original de janeiro de 2005 para implementação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) ainda é viável se o empresariado e governo brasileiros aceitarem discutir e negociar os subsídios agrícolas -- questão crucial na visão do Brasil para se alcançar um acordo -- numa data posterior à implementação da Alca, no âmbito global das negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC). A proposta é do embaixador Myles Frechette, presidente do Council of the Americas, organização que reúne cerca de 200 grandes corporações norte-americanas, que representam boa parcela do volume de investimentos diretos na América Latina. O embaixador Frechette atuou como assistente para América Latina do USTR (órgão da representação comercial norte-americana) na governo de George Bush, pai, e também como embaixador na Colômbia, de 1994 a 1997. O Council of the Americas é a voz das empresas norte-americanas com interesses na América Latina e tem como seu chairman o vice-presidente do Citigroup, William Rhodes. "A implementação da Alca em 2005 é possível se o Brasil estiver disposto a discutir e analisar a questão agrícola após a implementação da Alca, no âmbito da OMC. O empresariado e o governo brasileiros deveriam ver as vantagens globais para o País de tornar a Alca uma realidade em 2005. Se o Brasil não embarcar nesse trem, vai perder participação no mercado, vai perder oportunidades de investimentos", disse Frechette, falando, em português fluente, à Agência Estado. Benefício para o BrasilEle citou a competição cada vez mais acirrada por parte de países como a China, que tem um grande mercado consumidor e mão-de-obra muito barata, na atração de investimentos diretos de empresas norte-americanas. "Seria ainda muito benéfico para o Brasil que a Alca entrasse em vigor, mesmo sem um acordo na área agrícola para favorecer itens como suco de laranja, pois a Alca vai ser muito vantajoso para que o Brasil produza e exporte mais itens manufaturados, isto é, de maior valor agregado, como aviões. Com isso, o Brasil geraria mais empregos e investimentos", disse Frechette. Para ele, ao se fazer uma análise específica de um setor da economia sobre as vantagens e desvantagens da Alca, a conclusão geralmente será negativa em relação á área de livre comércio do Hemisfério. "Porém, uma avaliação do impacto global para a economia do País, que acho não ter sido feita ainda, concluirá que a Alca trará mais benefícios para o Brasil de uma forma geral", disse. "Inclusive, companhias americanas estão pensando em produzir grandes aviões na China, ou seja, o Brasil precisa pensar nessa competição, pois a China entrou definitvamente no mercado globalizado", alertou. O que está faltando neste momento, segundo Frechette, é vontade política para avançar nas negociações. "São pontos importantes, obviamente, que emperram as negociações, mas o presidente Lula sabe que o Brasil precisa gerar empregos e de mais investimentos. Já os Estados Unidos sabem da importância estratégica de ligar o Hemisfério com um número de países que concordem com o livre comércio, pois isso, entre outros benefícios, ajuda a consolidar a democracia", explicou o presidente do Council of the Americas. Diminuir os subsídiosA concessão que o governo norte-americano poderia fazer para deslanchar a Alca seria um compromisso de trabalhar juntamente com o Brasil para derrubar, ou pelo menos, diminuir os fortes subsídios agrícolas dos europeus. "Seria uma aliança dos Estados Unidos com o Brasil para reduzir os subsídios agrícolas, mas após a implementação da Alca, no âmbito da OMC, pois atingir um acordo sobre a questão agrícola antes de janeiro de 2005 será difícil", afirmou. Frechette acredita que a Alca não deverá perder o foco da administração Bush durante 2004, quando a campanha para as eleições presidenciais nos Estados Unidos estará em pleno vapor. "O presidente Bush quer a realização da Alca e não vai recuar de ter esse temo como prioridade no próximo ano, durante a sua campanha para reeleição", avaliou. Neste sentido, ressaltou Frechette, a recente visita do presidente Lula à Casa Branca foi muito importante. "Estamos num momento histórico na relação entre os dois países, que deverá gerar numa colaboração próxima em programas da aids na África, do Fome Zero etc.", observou. Frechette disse que a comunidade empresarial e financeira norte-americana vê o presidente Lula com muitos bons olhos. "A elite financeira e empresarial dos Estados Unidos tem muita confiança no presidente Lula, que está perseguindo as políticas corretas na área econômica", explicou o presidente do Council of the Americas.

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