Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

'É possível ter inflação de 4,5% em 2017'

Para economista, País vive situação 'anormal', mas índices de preços dão sinais de volta aos níveis do ano passado

Entrevista com

Heron do Carmo, professor da Universidade de São Paulo (USP)

Francisco Carlos de Assis, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2015 | 02h03

As expectativas de inflação estão contaminadas pelo conturbado cenário político e pelo mau humor em relação à economia estampados todos os dias nos jornais, diz o economista Heron do Carmo, professor da Universidade de São Paulo (USP) e um dos principais especialistas em inflação no País. Em entrevista ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, ele diz que estão negligenciado o fato de que, de julho a setembro, a inflação está abaixo das taxas apuradas no mesmo período do ano passado. Segundo ele, é perfeitamente possível que a inflação possa convergir para o centro da meta, de 4,5%, em 2017. A seguir, os principais trechos da entrevista:

É possível ter inflação a 4,5% no País?

Sim. Tanto que já tivemos inflação de 1,6% em 1998 e abaixo de 4% (3,14%) em 2006.

Por que o IPCA não se manteve abaixo ou igual ao centro da meta nos demais anos?

Porque, no governo Lula, quando o IPCA ficou abaixo do centro da meta, era para ter sido reduzido o centro da meta. Em vez disso, a meta foi tabelada em 4,5%.

Por que isso não foi feito?

Acharam que a inflação naquele patamar estava boa e que o importante era crescer. Ficamos sem crescimento e com inflação pressionada.

Este ano a inflação deve bater em 10%. Como fazer esse índice convergir para 4,5%?

Temos um problema grave de confundir medida da inflação com a inflação que de fato faz efeito na economia.

Como assim?

Quando ocorrem choques de preços, há uma tendência de erro significativo na medida da inflação. Isso ocorre por causa da metodologia adotada. O IPCA segue a fórmula de Laspeyres (Etienne Laspeyres, economista e estatístico alemão, que viveu entre 1834 e1913), que não considera o efeito substituição ou redução de volume pelo consumidor quando os preços sobem.

Não é uma fórmula usada no mundo todo?

É, mas às vezes temos alguns choques que precisam ser expurgados. O Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA), por exemplo, exclui choques de petróleo e alimentos do seu índice.

O modelo do BC, o Samba (Stochastic Analytical Model with a Bayesian Approach), não captura esses choques?

O BC não segue esse modelo. Usa para fazer análises, mas o regime de metas não é baseado em modelo. A política monetária é baseada no IPCA. Além disso, a estatística é sujeita a erros. Ela estabelece um intervalo. Isso pode fazer muito mal à economia e explica a fragilidade de algumas teses como essa de que a política monetária está sob a dominância fiscal.

É uma tese frágil?

Sim, porque a economia brasileira é cheia de peculiaridades e teríamos de ter uma série mais longa para mexer com série de tempo. Eu, que lidei e lecionei econometria, acho que não dá para pegar esse pequeno período que estamos vivendo e dizer que tem dominância fiscal.

Por quê?

Porque, quando se analisa economia, se estabelece condições de controle. É o famoso "ceteris paribus", ou todo mais é constante. Hoje em dia, parece que tudo o que é sólido flutua no ar. Não tem o "todo mais constante" de jeito nenhum. Poxa, temos problemas político, fiscal, cambial e o mau humor da mídia. Os jornais são de um mau humor do começo ao fim.

Há influência da mídia nas expectativas e na inflação corrente?

O que estou dizendo é que vivemos uma situação que não pode ser considerada normal. No que diz respeito à inflação, voltamos nos últimos meses ao ritmo que tínhamos antes. Ninguém fala nisso. Em agosto e setembro de 2014 tivemos IPCA de 0,25% e 0,57%. Neste ano, de 0,22% e 0,54%, respectivamente. Estamos com uma inflação inferior à de 2014 e à de alguns anos anteriores.

Isso significa que o pior já passou?

Tudo indica que, apesar dos reajustes de tarifas, os índices mais pesados foram os dos primeiros meses do ano. Não se repetirão em 2016.

Mas vai dar para cair a 4,5%?

Para o próximo ano, não dá, porque reduzir a inflação pela metade em uma economia indexada como a nossa é impossível. No começo de 2016 as escolas vão reajustar as matrículas e mensalidades com base na inflação passada. Com aluguéis e salários será a mesma coisa.

E quando o IPCA vai a 4,5%?

Para 2017 é perfeitamente possível. Vai depender de muito suor, mas dá.

Essa convergência se daria a que patamar de juros?

Dá para baixar juros. O que precisa é de ajuste fiscal. Temos três instrumentos de política monetária importantes. Felizmente temos o câmbio flexível e o ajuste cambial já foi feito. Política monetária o BC está fazendo. O que falta é desemperrar a trava fiscal.

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