É pouco

O fraco crescimento do PIB em 2011 (2,7%) e neste ano (cerca de 1,5%) não pode ser tomado como fator isolado, que se esgotou somente na renda mais baixa do brasileiro. Configura um desempenho medíocre de toda a economia.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2012 | 02h08

Implicou, por exemplo, uma arrecadação inferior à esperada e, portanto, teve sério impacto sobre as finanças públicas. Prejudicou o controle da inflação, à medida que reduziu a produção e ganhos de escala. Uma inflação acima da meta, por sua vez, além de derrubar o rendimento real das aplicações financeiras, impediu maior queda dos juros... e assim vai.

Pelo que se sabe das projeções do mercado, os agentes econômicos começarão 2013 com otimismo equivalente ao mostrado no início de 2012. Anunciam que apostam num avanço do PIB da ordem de 3,5% a 4,0%, mais ou menos enganchados nas previsões oficiais. (Para 2013, por exemplo, o mercado financeiro prevê um crescimento do PIB de 3,9%, como mostra a pesquisa Focus, do Banco Central.)

Mas nada assegura esse desempenho. A indústria nacional já está avisando que, sem nova prorrogação das isenções do IPI sobre veículos e aparelhos domésticos, cujo término está previsto para final de dezembro, 2013 começa com perspectiva de quebra de consumo e de produção.

Da economia externa também não se esperam progressos. Se for evitado o abismo fiscal, ou seja, se não vier uma forte recessão da economia americana (o que não é certo), o desempenho da principal locomotiva do mundo só repetirá o de 2012 (avanço de 2%). Enquanto isso, a economia da Europa seguirá marcando passo - andando mais para trás do que para frente. Somente a China acena com boas perspectivas, mas, ainda assim, não muito melhores. Também depende do que ocorrerá nos Estados Unidos e na Europa.

A economia brasileira não poderá contar com a Argentina, principal parceira na América do Sul. As perspectivas por lá não são alentadoras. As exportações para o Mercosul (cerca de 10% do mercado externo brasileiro) deverão ficar ainda mais prejudicadas.

Significa que o setor produtivo nacional ficará ainda mais dependente das respostas do mercado interno. Esse, graças às políticas distributivistas do governo e aos estímulos ao crédito, se expande vigorosamente. Mas aí também atuam certas limitações. Os juros básicos (Selic) deverão ficar estancados em 7,25% "por um período de tempo suficientemente prolongado" (como diz o Banco Central) - o que acarreta estancamento de estímulos monetários. O nível de inadimplência, alto demais, permanecerá contendo a expansão do crédito. A indústria, que não aproveitou a expansão da demanda em 2012, provavelmente também não dará conta do recado em 2013, porque também não desengaveta seus projetos de investimento. Não está investindo por três razões: (1) porque sente o impacto da perda de retorno de suas aplicações financeiras e ainda não se ajustou ao novo ambiente de juros bem mais baixos; (2) porque enfrenta uma aceleração dos seus custos, especialmente no emprego de mão de obra; e (3) porque não se sente segura diante do crescente intervencionismo do governo federal nos negócios.

Enfim, não está nem um pouco garantido o crescimento econômico superior a 3,0% em 2013, conforme promete o ministro da Fazenda, Guido Mantega. E se, apesar de tudo, esse crescimento acontecer, nada indica que será sustentável, porque o Brasil investe pouco.

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