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'É preciso afrouxar para voltar a crescer'

Para o ex-presidente espanhol, zona do euro precisa também avançar na integração bancária e fiscal

Entrevista com

RAQUEL LANDIM, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2013 | 02h04

O ex-presidente da Espanha, José Luis Rodríguez Zapatero, acredita que as políticas de cortes de gastos estão "freando" a recuperação da Europa e que chegou a hora de uma mudança rumo a medidas voltadas para o crescimento. Diz que a região vai enfrentar um período "crítico" até setembro, quando ocorrem eleições na Alemanha, o bastião da austeridade.

Zapatero avalia que a chave para o resgate do continente é uma política monetária mais frouxa do Banco Central Europeu (BCE) aliada à reformas "contundentes" para a união bancária e fiscal. "Na minha opinião, é isso que os mercados estão esperando", diz o ex-secretário geral do partido socialista da Espanha.

O líder espanhol diz que os europeus terão de "ceder soberania" para sair da crise, mas, para isso, precisam de "solidariedade". Comandante da Espanha entre 2004 e 2011, desde a fase áurea do milagre do euro até o ápice da turbulência, desistiu de tentar um terceiro mandato por conta dos impactos da crise.

Zapatero esteve no Brasil na semana passada a convite do Itaú BBA para um evento sobre perspectivas da economia global. Apaixonado por futebol, diz que sonha com uma final entre Brasil e Espanha no Maracanã na Copa do Mundo de 2014 e defende que sua seleção, campeã do último mundial, joga hoje "o melhor futebol que o Brasil já jogou". A seguir, trechos da entrevista:

Os analistas dizem que, na melhor das hipóteses, a Europa vai enfrentar vários anos de estagnação. Qual é a sua previsão?

Há um motivo fundamental para isso. As políticas de austeridade frearam a recuperação do crescimento econômico em uma parte importante da zona do euro. No entanto, temos de ter confiança que os avanços na integração europeia possam ajudar e o crescimento se recupere no final deste ano.

O presidente da Comissão Europeia, Durão Barrosos, disse que as políticas de austeridade não são mais socialmente aceitáveis. Chegou a hora de mudar a receita?

Sim, seria desejável mais políticas de impulso econômico. A iniciativa mais relevante hoje seria uma política monetária do BCE que reduza as restrições para o crédito. Mas, junto com isso, há um problema na zona do euro de confiança política na integração. Existe uma crise de confiança porque os investidores estão esperando avanços mais contundentes. Essa união precisa ser mais rápida, o euro exige uma integração fiscal e bancária maior. Na minha opinião, é isso que os mercados estão esperando.

A saída então é "mais Europa", e não "menos Europa"?

Absolutamente. A chanceler Merkel (Angela Merkel, da Alemanha) disse recentemente que os países devem ceder mais soberania. Creio que é a linha adequada. Entendo que uma cessão de soberania tem de ter a contrapartida da solidariedade e integração, para abordar os desequilíbrios sociais que a crise produziu entre o norte e o sul da Europa. É preciso ter muito claro que esses desequilíbrios são um problema da origem do euro. A moeda única facilitou uma grande abundância de liquidez em alguns países. Com a crise, a liquidez, que sustentava o crescimento, foi cortada radicalmente, provocando um problema de endividamento e de falta de crescimento.

Uma das medidas que marcou muito a crise europeia foi o confisco das poupanças no Chipre. Essa medida era necessária?

Como já reconheceram as autoridades, a gestão no Chipre não foi acertada em um primeiro momento. Foi algo excepcional, que não deve ocorrer novamente. Mas, com essa mensagem, as turbulências que se originaram quando o problema do Chipre surgiu, estão relaxadas.

O Banco da Espanha prevê uma queda de 1,5% no PIB e uma taxa de desemprego acima de 26%. Qual é sua avaliação sobre a economia espanhola?

São previsões pessimistas, mas, por enquanto, são previsões. Para resolver o problema, é necessário a tomada de políticas fundamentalmente europeias, com passos irreversíveis para fortalecer o euro. Vamos ter alguns meses decisivos, que vão de agora até setembro, quando há eleições na Alemanha. Nesses meses, vai ser decidido o futuro e a solidez da moeda e a confiança geral na zona do euro.

Os Estados Unidos estão se recuperando e o Japão tomou uma medida drástica para sair da crise, injetando liquidez no mercado. A Europa pode ficar para trás?

A Europa retém um forte potencial econômico. Se houver avanços na união do bloco, o que evidentemente é um problema político, a Europa poderá enfrentar essa dura situação e recuperar o crescimento. A Europa tem bases sólidas, é uma economia com alto PIB, com renda per capita alta, políticas sociais e um importante impulso à pesquisa e ao desenvolvimento. Não podemos subestimar a Europa. A pergunta é se, politicamente, vamos dar os passos necessários para essa união que gere confiança.

As empresas espanholas investiram muito no Brasil. Mas, no ano passado, a economia estagnou. O baixo crescimento do Brasil é uma preocupação?

É verdade que o Brasil cresceu pouco no ano passado, mas as previsões de crescimento para este ano estão em torno de 3%, 3,5%. As empresas espanholas que investiram na América Latina e no Brasil na década de 90 o fizeram em uma situação macroeconômica muito mais difícil e certamente têm um compromisso muito firme com o País.

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