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Para Christian Gebara, presidente da Telefônica Brasil, País precisa de ‘credibilidade fiscal, credibilidade de realização de reformas e credibilidade de vacinação’. JF Diorio/Estadão

'É preciso credibilidade para reacender os investimentos', diz presidente da Telefônica

Para Christian Gebara, vacinação é fundamental, mas País também precisa que investidor acredite nas reformas e na preocupação do governo em criar um ambiente saudável para os investimentos

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2021 | 05h00

O Brasil precisa executar uma série de reformas estruturais, como a tributária e administrativa, para pavimentar um caminho para o crescimento econômico e atração de investimentos. No entanto, dado o contexto vivido hoje no País, com a piora drástica da pandemia, neste momento a vacinação da população se torna a grande prioridade, deixando o resto como secundário, afirma o presidente da Telefônica Brasil, dona da marca Vivo, Christian Gebara.

“Esse deveria ser o foco”, afirma. Para o executivo, o Brasil é um foco natural de investimentos para empresas de todo o mundo, mas é necessário criar condições para isso. “E isso é credibilidade fiscal, credibilidade de realização de reformas, credibilidade de vacinação”, diz. 

O Brasil atravessa um período de grande dificuldade econômica. O que pode ser feito neste momento para garantir o crescimento do País?

A reforma tributária é fundamental. No nosso caso específico, é preciso considerar que o País precisa de digitalização, para ser acessível para as pessoas e para que as empresas tenham fôlego para seguir investindo em um País de dimensões continentais. Para isso, é preciso uma visão de que não se pode tributar excessivamente as telecomunicações e também enxergar o setor como um veículo de infraestrutura essencial para o desenvolvimento do Brasil. Esse é o primeiro passo. Mas também são importantes todos os tipos de reformas que possam ajudar a ativar a economia, que depende do consumo. No momento em que as pessoas perdem o poder aquisitivo, quando o desemprego sobe, o impacto é imediato no consumo de serviços. Todas as iniciativas para reativar a economia são essenciais para o nosso setor. Nosso setor, por um lado, é o viabilizador desse desenvolvimento econômico, por meio da digitalização, mas ele precisa do consumo para continuar investindo... Além da reforma tributária, a reforma administrativa é um vetor de dinamização da economia que também é necessário. Todo tema de crescimento econômico que venha através de privatizações e outros estímulos que possam ser feitos pelo governo com certeza nós apoiamos e somos otimistas sobre o que isso pode trazer. 

Além das reformas, o que mais pode ser feito para uma retomada mais rápida?

A vacinação é o ponto principal. Todo o resto começa a ficar secundário, tendo em vista o problema que estamos enfrentando agora. Deveria ser o foco. Acredito que temos agora boas notícias de novos laboratórios e fornecedores de vacinas. O Brasil tem uma capacidade reconhecida de logística para a vacinação. Acho que esse é o principal caminho para nossa volta. Essas notícias recentes de lockdown têm um impacto direto em nosso negócio, impacto direto na segurança dos nossos colaboradores, impacto direto no ânimo de todo mundo. A vacinação é a única saída que temos neste momento frente à pandemia. Acreditamos que temos de trabalhar nesse sentido. Estamos acompanhando a evolução de outros países com avanços da vacinação, e a resposta está aí. Os Estados Unidos estão evoluindo, com uma queda mais acentuada dos contágios e das mortes e um início de reativação mais rápida da economia deles. Esse movimento de fechamento do comércio, das escolas, não é benéfico para nossos serviços. Não temos o interesse que as pessoas fiquem em casa para se conectar mais. Quanto mais a economia volta, mais o ânimo de investimento das empresas reacende, os empregos crescem e o consumo cresce na mesma proporção.

Como o sr. avalia a condução do governo no combate à pandemia?

A saída da pandemia e da crise sanitária passa pela vacinação em um curso acelerado em todo o país. Há esforços nesse sentido, mas temos enorme senso de urgência e somos milhões de brasileiros. Além disso, todas as medidas de proteção e prevenção requerem uma política única, de total alinhamento entre os níveis federal, estadual e municipal

Qual foi o impacto da pandemia nos planos da empresa?

Tivemos uma aceleração de trajetos. Temos um pilar que chamamos “Tem tudo na Vivo”, para que o cliente enxergue a Vivo como uma parceira tecnológica que vai além das telecomunicações. Queremos que, por meio da empresa, o cliente resolva toda a sua vida tecnológica. E isso se relaciona com nosso propósito. Digitalizar para aproximar significa criar conexão, criar digitalização, mas também distribuir serviços digitais, se relacionar digitalmente com esse cliente. Essas duas vertentes a pandemia nos fez acelerar. Distribuir serviços digitais, temos os de entretenimento, como o Netflix, Amazon Prime, Disney Plus e vários outros, aceleramos várias parcerias. Em serviços financeiros, lançamos o Vivo Money, que é uma plataforma de empréstimos para as pessoas. Estamos agora, com estudos bem avançados, de ter o serviço de saúde. A telemedicina a gente já acreditava que era o futuro, mas a pandemia fez as pessoas enxergarem a telemedicina como algo mais real, concreto e necessário. Então, estamos trabalhando, por causa da pandemia, de maneira mais acelerada para criar alguns serviços em saúde.

Isso seria por meio de uma parceria?

Sim, mas não temos nada fechado.

O que está por trás dessa estratégia?

É a ideia de que você tem tudo na Vivo. Aproveitando a capilaridade que temos, no canal físico e no online. A base de clientes, o relacionamento que eles têm com a Vivo, eles estão constantemente em contato com a nossa empresa. A força da marca. E, finalmente, o poder de cobrar esses clientes. Temos clientes que não têm cartão de crédito, então a fatura da Vivo é um meio de pagamento que temos de explorar. Nos serviços financeiros, estamos estudando criar uma carteira Vivo. Os clientes já colocam dinheiro para usarem em serviços de celular pré-pago. Por que não colocariam para comprar outras coisas, já que eles já têm esse relacionamento? Essa é outra área que estamos acelerando depois da pandemia. Havia os planos, mas eles vão acelerando. E educação, a gente gostaria de criar parcerias em educação. Fizemos muitas coisas com universidades, com planos para os estudantes que iriam estudar remotamente, mas será que não deveríamos avançar também numa junção de um plano com conteúdo educativo?

A tecnologia 5G tem sido apontada como fundamental para acelerar os serviços digitais no País. Quão próximo estamos de implantar essa tecnologia? 

O edital saiu da Anatel e vai passar para o TCU. Ainda não sabemos os valores das obrigações que vão estar relacionadas com o leilão. O volume das frequências que vão ser leiloadas, na experiência que temos, é o adequado, vão usar frequências propícias para o 5G. O ecossistema do 5G ainda é muito limitado de aparelhos - não é que o 5G esteja ocorrendo em todos os lugares do mundo... A grande mudança que o 5G vai trazer á uma diminuição da latência, as respostas serão imediatas ao comando, o que gera uma nova gama de serviços, de internet das coisas, que é a grande mudança que vai existir, de as coisas poderem ser conectadas. Isso ainda está evoluindo. Considerando que teremos um leilão nos próximos meses, espero que esse leilão não seja arrecadatório, mas que se tenha obrigações que ajudem na digitalização do País, que os preços sejam razoáveis e permitam que as empresas invistam no Brasil. Mas, para isso, não podemos ter uma carga tributária tão alta. E a regulamentação do setor precisa ser mais favorável para que possamos avançar na digitalização. 

Há interesse de investimento estrangeiro no Brasil?

Nós acabamos de assinar a constituição de uma empresa de fibra, como um parceiro internacional, um dos maiores fundos de infraestrutura do mundo, o CDPQ (canadense). Isso vai permitir que a Vivo construa uma rede de fibra neutra, independente, que vai permitir chegar em mais cidades, e também que outras operadoras utilizem essa via. Isso vai permitir criar concorrência, a digitalização de mais cidades e essas cidades digitalizadas incrementam também a atividade econômica. Como o CDPQ, há vários grupos que querem entrar em um País como o Brasil, tamanho continental, carência de infraestrutura, mercado consumidor tão grande. São condições que temos de criar no Brasil, para que empresas como essa, ou mesmo empresários locais, tenham vontade de investir. Mas é importante que a vontade de investir no País das empresas que aqui estão, e as que ainda não estão, seja reacendida. E isso é credibilidade fiscal, credibilidade de realização de reformas, credibilidade de vacinação. O Brasil é um destino natural de investimentos. 

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Frederico Trajano: 'Só o que funciona são isolamento social e vacina, por mais que se proteste'

Para o presidente do Magazine Luiza, sem o controle da pandemia, é impossível recuperar a economia; apesar das dificuldades, ele também aponta bolsões de oportunidades a serem explorados, como a digitalização do varejo e de outros setores

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2021 | 05h00

Frederico Trajano, presidente do Magazine Luiza, uma das principais redes de varejo do País e que conseguiu se destacar em meio à crise sanitária por conta das vendas online, diz que o Brasil não decola por incompetência no controle da pandemia. Ele não vê uma saída para a retomada consistente da atividade sem uma vacinação em massa. “O erro na questão sanitária foi grave”, afirma o executivo, que considera o Brasil um dos piores no combate ao novo coronavírus. Não fosse a pandemia, Trajano acredita que 2020 e 2021 seriam espetaculares para a economia, em razão dos juros baixos e de várias mudanças feitas nos últimos quatro anos em pilares importantes, como a Previdência, a questão trabalhista e o teto de gastos, por exemplo.

Apesar das dificuldades do momento e da falta de horizonte para a saída da crise, o empresário prefere enxergar o copo como “meio cheio” e ressalta que existem bolsões de oportunidades a serem exploradas na economia, como a digitalização do varejo e de outros setores, tendência que, na sua opinião, deve continuar no pós-pandemia. A conversa com Trajano abre a série de entrevistas com presidentes de grandes empresas que vão tentar apontar caminhos para o Brasil retomar o crescimento econômico.

O que precisa ser feito para que a economia brasileira volte a crescer?

Hoje o Brasil não decola por uma incompetência no controle da pandemia. O País não é o único com dificuldade de controlar a crise sanitária, mas, na minha opinião, está sendo um dos piores. A gente se planejou muito mal para a vacina, o nosso sistema de saúde está sobrecarregado. Poderíamos estar numa posição muito melhor. O erro na questão sanitária foi grave. Sem o controle da pandemia é impossível recuperar a economia. Também houve casos, como a troca do presidente da Petrobrás, que minaram a confiança dos investidores. No mercado financeiro, seja no mercado de capitais, seja no mercado mais abrangente, transmitir confiança numa agenda é superimportante. Acredito que nós teríamos todas as condições, no ano passado e neste ano, para estarmos numa situação econômica espetacular.

Que condições são essas?

Se voltássemos quatro anos e disséssemos para um brasileiro que a reforma trabalhista e previdenciária seriam feitas, que o Banco Central teria autonomia, que teríamos o marco do saneamento, teto de gastos, marco civil da internet, open banking, Pix e os juros mais baixos da história, ele duvidaria. As pessoas iriam achar uma agenda impossível. Evoluímos significativamente nesses quatro anos. Do ponto de vista de reformas estruturais, o grosso já foi feito. Na prática, o que está faltando fazer são duas reformas importantes, a administrativa e a tributária. Acho que a reforma tributária vai reorganizar e simplificar, mas ela não terá como reduzir a carga tributária. Ela é importante, mas relativamente menos do que as outras. Não acho que esteja faltando uma grande agenda de reforma no Congresso, fora essas que estou falando.

O juro baixo é apontado pelo sr. como um ponto positivo, mas ele deve voltar a subir para conter a alta da inflação. Como fica essa questão?

Mesmo que o juro suba, ainda vai continuar baixo em relação aos últimos anos. E juro tão baixo como o atual é uma realidade muito nova que, quando estávamos começando a colher os frutos dela, entramos na pandemia. Quando se faz política econômica com juros baixos, o crescimento demora um pouco para aparecer, mas quando vem, vem com consistência. E depende-se menos do governo. As captações estão batendo recorde este ano e em algum momento isso vai se refletir na economia como um todo. Já uma política econômica que usa dinheiro do governo, o crescimento vem muito rápido, mas é voo de galinha. Em algum momento tem de se pagar a conta com a dívida. 

E como se resolve a pandemia?

A vacina é a única solução. Estou pessimista com o cronograma de vacinação. A gente deveria ter se preparado, entrado na fila e apostado no maior número de vacinas, não apenas em duas. Isso gera um risco muito grande: se alguém não entrega, vai ter ruptura. É muito difícil reverter essa situação no curtíssimo prazo. As medidas de restrição, os lockdowns, devem perdurar por muito mais tempo do que a gente imaginava no início do ano. Ao longo do ano todo, imagino que vamos ter situações de abre/fecha da economia até se ter uma parcela significativa da população imunizada.

Como a iniciativa privada está atuando na crise sanitária?

Acho que há movimentos civis organizados, como, por exemplo, o “Todos pela Saúde”, que o Itaú começou o ano passado, o “Unidos pela Vacina”, lançado pelo Mulheres do Brasil, Instituto para o Desenvolvimento do Varejo (IDV) e outros empresários, que são bons movimentos no sentido de a sociedade mostrar que está apoiando, fazendo o seu papel de maneira organizada. Não é uma empresa só, específica, mas é a união de empresários, executivos, de líderes da sociedade civil no sentido de apoiar, de se colocar à disposição e criar soluções construtivas para tentar ajudar o governo. São iniciativas muito bem-vindas e fico feliz de ver que elas estejam acontecendo. Mas acho que o controle da pandemia, sobretudo, é uma função dos governos, federal, estadual, municipal. Esse controle depende das autoridades e não tem nada a ver com a iniciativa privada

Como o sr. vê o fato de a sua mãe, Luiza Trajano, que é presidente do conselho de administração do Magazine Luiza, estar sendo cortejada para ingressar na política?

Prefiro não comentar.

Quantas lojas físicas do Magalu estão fechadas por causa da quarentena?

Hoje estou com 600 lojas fechadas (a empresa tem 1,3 mil lojas), mas a minha previsão é que esse número aumente. Essa discussão é política até o sistema de saúde colapsar. Quando colapsa, como aconteceu em Manaus (AM), todo mundo percebe que está no mesmo barco. Por mais que as pessoas protestem contra as medidas de isolamento social, ela é a única coisa que funciona, além da vacina. Mas joga contra a economia.

Como contornar esse ponto?

As empresas que não tiverem uma agenda digital muito forte vão sofrer, porque a digitalização é uma forma de atenuar os impactos das restrições (lockdown). Mas vejo uma enorme oportunidade de digitalização do varejo em vários segmentos, moda, beleza, alimentos, restaurantes, setor financeiro, por exemplo.

Como assim?

A pandemia catalisou o processo de digitalização e esse processo vai continuar por muitos anos. Há vários bolsões de oportunidades dentro da economia brasileira. O Brasil é um país continental com uma economia multidimensional. É difícil fazer uma única análise para todos os segmentos. Mas, dando uma visão geral, há setores da indústria que estão indo bem, a agricultura tem alcançado safras recordes e o comércio, que sofre com as lojas físicas, está no melhor momento da história no mundo online. No entanto, há setores muito relevantes, como o de serviços, que inclui turismo, bares, restaurantes, que estão muito ruins. Na média, sabemos que não estamos num momento positivo por conta da pandemia. Nesse contexto, é possível encontrar bolsões de prosperidade. A minha forma de raciocinar é enxergar as oportunidades, enxergar o copo meio cheio. Não consigo extrair muito valor lamentando as coisas que não funcionam no País. A empresa tem 63 anos. Passamos por hiperinflação, sequestro da poupança, moratória, várias crises internacionais, situação de juro real mais alto do mundo e estamos aqui. Por quê? Porque nos concentramos naquilo que poderíamos fazer e nas oportunidades que existem mesmo em situações de turbulência da economia brasileira.

Quais seriam essas oportunidades?

Vemos oportunidade na digitalização do varejo brasileiro. Queremos ser um fator de inclusão digital, tanto de pequenos e médios varejistas, que são analógicos, quanto de clientes que ainda não fizeram a primeira compra digital.

A fatia do comércio online no varejo total do País ainda é pequena. Como virar esse jogo?

A participação do e-commerce no varejo da China era de 1% dez anos atrás e hoje está em 30%. Essa participação não está escrita em pedra. Depende dos empresários fazerem investimentos para mudar isso. Hoje, a participação do online no varejo brasileiro é de 10% e um ano atrás estava em 5%. Aumentou muito com investimentos de empresas como Magalu e outros players do comércio eletrônico que apostaram em logística, meios de pagamentos, em canais digitais para tentar atender a demanda da população que está em casa. Isso depende também da capacidade do empresário de investir e inovar. Começamos 60 anos atrás como uma empresa analógica. Toda a nossa capacidade digital foi construída com muito suor, trabalho e dedicação. Não foi uma coisa que caiu do céu. Talvez o varejo teria sentido menos se mais investimentos de maneira consistente tivessem no passado sido implementados no setor. O empresário brasileiro tem de fazer essa situação caminhar: a fatia do e-commerce continuar aumentando.

Como será o varejo pós-pandemia?

Vai sair fortalecido, se conseguirmos manter a expectativa de conter gastos e, consequentemente, prolongar os juros baixos. Se os governos forem bem sucedidos no controle da pandemia, vejo um potencial enorme que está para ser destravado.

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'Sensação é que falta gestão. Brasil está entre os que sofrem mais com crise', diz Jerome Cadier

Governo precisa ampliar atendimento, criar medidas de isolamento e de ajuda econômica, diz presidente da companhia aérea no Brasil; caso contrário, crescimento do País será postergado, pontua

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2021 | 05h00

Além da crise econômica e sanitária, o setor aéreo pena com o aumento do preço do combustível, com a desvalorização do real e com restrições impostas por outros países que impedem brasileiros de viajar para o exterior. Três medidas podem solucionar todos esses problemas, segundo o presidente da Latam no Brasil, Jerome Cadier: ampliação da capacidade de atendimento aos doentes, distanciamento social e ajuda econômica para empresas e pessoas que perderam renda. Por enquanto, porém, ele vê uma certa desorganização no governo que prejudica a recuperação do País e a do setor. “A sensação é a de que falta gestão. Todo mundo está lidando com a crise. Alguns países estão lidando melhor; outros não. O Brasil está no grupo que claramente sofre mais com a crise”, afirma.

O executivo destaca também que, além de conter a pandemia, o governo e o Congresso precisam, paralelamente, tocar as reformas administrativa e tributária. “Sei que é difícil falar de reformas quando você está no meio de uma pandemia, mas continuamos com uma necessidade tremenda de reformar o Estado. Se postergarmos isso, também vamos postergar o crescimento que o Brasil precisa.” A seguir, os principais trechos da entrevista.

A economia se deteriorou mais do que era esperado neste início de ano. Que impacto você prevê para o setor aéreo e o que precisaria mudar para haver uma recuperação?

Tínhamos um cenário um pouco diferente para 2021. Estávamos mais otimistas na segunda metade de 2020, mas essa segunda onda está mais profunda e nos fazendo repensar a retomada. Acho difícil a gente separar economia de saúde. Vamos conseguir recuperar a economia mais rapidamente quanto mais rápido lidarmos com o problema da saúde. A gente precisa crescer a capacidade de atendimento de doentes, construir medidas de distanciamento social para reduzir a pressão sobre o sistema de saúde e de ajuda na retomada da economia. Para mim, são essas três coisas. Alguma coisa a gente viu nos últimos 12 meses nessas frentes. Sempre podemos achar que poderia ser melhor ou pior, mas de alguma forma avançamos. 

Onde avançamos?

No ano passado, construíram capacidade de atendimento, hospital de campanha. Mas não vimos tanta coisa em 2021. Os hospitais de campanha foram desmobilizados e, de alguma forma, aquilo se perdeu um pouco. Em relação às medidas de distanciamento, vou pegar o exemplo das companhias aéreas. A Latam foi a primeira no Brasil a anunciar que só transportaria passageiros com máscara. E sobre a ajuda econômica para a retomada, também falando do nosso setor, o Ministério da Infraestrutura trabalhou nas medidas emergenciais que foram absolutamente necessárias: espaço de estacionamento (para aviões) nos aeroportos, postergação de recolhimento de taxas aeroportuárias, que são pesadas, e postergação da devolução (do dinheiro de passagens) para clientes. Então, houve um trabalho para preservar o setor durante a fase mais aguda da crise.

É preciso um lockdown?

Pode chegar a um extremo de lockdown, mas falhamos em coisas mais básicas. O uso de máscara, por exemplo. Até pouco tempo atrás, muitos do governo não eram vistos com máscara em ambientes públicos. Havia eventos juntando muita gente, o que é preciso evitar. A mensagem não foi consistente. Nas últimas duas semanas, vi mais gente do governo com máscara do que vi nos últimos 12 meses. Tem de ser assim. Tinha de ser assim desde o começo. Então, pode chegar ao extremo de ter de fazer restrição ao movimento, fechar o comércio, dependendo da capacidade de atendimento dos hospitais, mas tem mais coisa a fazer, tanto na capacidade de atendimento quanto nas medidas de distanciamento, na clareza da comunicação, na transparência. Na rua, metade das pessoas que vejo não está de máscara. Esse tipo de mensagem (para usar máscara) tinha de ter sido repetida desde o começo para as pessoas entenderem que é necessário. Eventualmente, você não chegaria à situação de que precisa fechar a cidade. Sobre a ajuda na economia, acho que a ajuda emergencial foi fundamental. Está sendo reeditada agora e é necessária. Temos uma quantidade enorme de gente sem renda que precisa da ajuda do Estado. E, eventualmente, as empresas talvez precisem de medidas que ajudem o capital de giro delas. Não estou falando das aéreas, mas talvez hotéis, restaurantes, negócios pequenos e médios. Esses estão sem acesso a crédito.

O governo está na velocidade adequada nessa frente?

É difícil generalizar. Vou pegar o exemplo das aéreas. Vi o Ministério da Infraestrutura ligado nos 220 e absolutamente consciente de quão profunda era a crise desde o primeiro dia. Já do lado (do Ministério) da Economia, a gente, durante meses, discutiu uma eventual ajuda de crédito que não se materializou. Então, quando você fala do governo, no caso das aéreas, teve uma velocidade muito mais adequada no Ministério da Infraestrutura e talvez um desejo de que a gente tivesse avançado mais rápido com o Ministério da Economia. Mas também acho que não dá para a gente ficar só na emergência. A gente tem uma crise brutal que precisa ser enfrentada com a liderança do governo. Há uma necessidade de reformas estruturais, que não deveriam ser adiadas. Sei que é difícil falar de reforma administrativa e tributária quando você está no meio de uma pandemia, mas continuamos com uma necessidade tremenda de reformar o Estado. As reformas são fundamentais para a recuperação econômica quando todo mundo estiver vacinado. Se postergarmos isso, também vamos postergar o crescimento que o Brasil precisa.

O desempenho da economia e do setor aéreo em 2020 foram ruins. Podemos ter algo semelhante neste ano?

É muito difícil a gente comparar os dois anos. No ano passado, até quase o fim de março, o setor estava em uma tendência bastante positiva. Depois teve uma freada gigante em abril, maio e junho e uma retomada gradual no segundo semestre. Este ano, a gente vinha na retomada, mas o freio já veio em janeiro. Fevereiro e março foram muito ruins, com vendas 80% abaixo do que eram antes da pandemia. Talvez o freio dure mais do que no ano passado e a reaceleração seja mais lenta, mas, quando ela realmente vier, deve ser mais forte. Em mercados em que a vacinação avançou mais rapidamente, nos Estados Unidos, por exemplo, você já vê um desejo bastante grande para programar viagens para junho, julho e agosto. As vendas no último (penúltimo) fim de semana nos EUA foram as melhores desde o começo da pandemia. Então, você tem uma aceleração rápida a partir do momento em que um volume maior de pessoas estão vacinadas. Aqui, acho que a gente partiu tarde na obtenção da vacina. Deixamos muito tempo passar no início da pandemia e, agora, estamos tentando correr atrás. O problema é que perdemos o momento inicial das negociações. As empresas farmacêuticas já assumiram compromissos de volume (com outros países). É difícil neste momento compensar um atraso inicial. Por outro lado, uma vez tendo a vacina, o Brasil é extremamente eficaz para aplicá-la. Então, a partir do momento em que tivermos realmente a vacina, nossa curva de imunização pode ser mais rápida. 

Outros fatores não estão ajudando o setor, como o real. Parte dos economistas credita a desvalorização da moeda a uma crise de credibilidade no governo. Qual o impacto da desvalorização no setor e como aliviar essa pressão?

60% dos gastos de uma aérea são dolarizados. Então, o aumento do dólar nos torna menos competitivos. O combustível, que também vem subindo acima das previsões que tínhamos, é outro complicador. Além disso, o Brasil está ficando mais isolado dos outros países no tráfego internacional de passageiros. As restrições para brasileiros hoje são maiores do que praticamente para qualquer outro país devido ao descontrole da pandemia. Hoje, ninguém quer receber brasileiro. Esses três fatores são ruins neste momento e fazem com que a recuperação seja mais difícil. A solução para isso também é maior capacidade de atendimento, distanciamento social e ajuda econômica. Mas a sensação é a de que falta gestão. Todo mundo está lidando com a crise. Alguns países estão lidando melhor; outros não. O Brasil está no grupo que claramente sofre mais com a crise. Assim como uma empresa, um governo lida com a realidade e com a percepção. E, hoje, o País está sofrendo pelos dois. A gente sofre pela realidade, porque os números (de casos e mortes) estão muito ruins, mas a gente também sofre com a percepção de que existe uma politização do tema da saúde e um desalinhamento entre municípios, Estados e federação.

A crise da Petrobrás foi um dos fatores que desencadearam essa crise de confiança. Como está interferindo nos negócios?

Não ajuda. Quando você tem o que aconteceu na Petrobrás, embora isso já tenha acontecido em outros momentos, a forma como foi comunicada (a demissão do presidente Roberto Castello Branco) não ajuda. Isso não colabora para termos um dólar mais baixo. Agora, talvez estejamos sentindo o momento mais agudo do dólar. Se o Brasil conseguir acelerar a vacinação e passar uma mensagem mais alinhada entre os três Poderes, entre governos municipais, estaduais e federal, o nível de agressividade com que o mercado internacional está olhando para a gente pode diminuir. 

A nova onda da pandemia muda a expectativa de recuperação do setor?

Provavelmente em 2023 estaremos transportando o mesmo nível de passageiros de 2019, mas o faturamento vai demorar mais. O passageiro corporativo, que paga mais pelo voo, vai demorar para voltar. Estamos usando uma tecnologia que antes era menos utilizada e que vai substituir parte das viagens a trabalho. As empresas vão buscar reduzir seus custos, e é óbvio que uma reunião pela internet é mais barata do que uma viagem. Isso deve fazer com que o faturamento demore para voltar. Se será em 2024, 2025 ou 2026, é difícil precisar.

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