'É preciso dar um voto de confiança ao Banco Central´

Para o ex-presidente da autoridade monetária,

RAQUEL LANDIM, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2012 | 03h11

o governo Dilma enfrenta uma situação internacional

'extremamente complexa' que exige medidas 'atípicas'

O economista Ibrahim Eris afirma que é preciso "dar um voto de confiança" ao Banco Central do governo Dilma, que enfrenta uma situação externa "extremamente complexa" por causa da crise global. Ele vê com naturalidade a preocupação do BC com o crescimento da economia. "Nenhum Banco Central do mundo aceitaria uma profunda recessão para reduzir a inflação de 5% para 4,5%."

Ao contrário dos seus colegas, que estão preocupados com a condução da política monetária, Eris defende o governo e não acredita que o tripé (meta de inflação, câmbio flutuante e superávit primário) foi abandonado. "Nunca tivemos um câmbio totalmente flutuante, sempre foi uma flutuação suja."

Mas faz uma ressalva importante: a política fiscal brasileira perdeu credibilidade. Ele avalia que o governo deveria ter reduzido o superávit primário em vez de manobrar para atingir a meta de 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB). De origem turca, Eris se naturalizou brasileiro e dirigiu o BC no governo de Fernando Collor. Hoje preside o conselho de administração do grupo Libra.

A seguir, trechos da conversa com o Estado.

O tripé da política econômica se mantém no governo Dilma?

Situações atípicas exigem medidas atípicas. Não é só o Banco Central brasileiro que está implementado políticas que não seriam adotadas em uma situação normal. Eu não diria que o Brasil abriu mão do tripé. Prefiro esperar para ver o que acontece quando a economia voltar a um mínimo de normalidade. O BC alargou o prazo de convergência da inflação para a meta, mas se é algo permanente ou temporário ainda é difícil dizer. E, mesmo que seja permanente, não altera a política de metas de inflação. A segunda questão é o câmbio. O BC certamente mudou a condução da política cambial, mas foi uma reação. Num mundo em que poucos seguem fielmente o câmbio flutuante, seria até ingenuidade insistir nisso. Nunca tivemos um câmbio totalmente flutuante, sempre foi uma flutuação suja. A sujeira aumentou um pouco, mas também cresceu em outros países. O que mais me preocupa é a política fiscal. Todas essas brincadeiras - como a antecipação de dividendos das estatais - tiraram um pouco da credibilidade. Não era necessário. No mundo atual, seria aceitável baixar a meta de superávit primário temporariamente.

Quais as consequências da perda de credibilidade da política fiscal?

Quando prometem um superávit primário de 3,1% do PIB e depois inventam medidas que produzam esse número, o resultado por trás fica obscuro. Não se sabe se o número é 3,1%, 2,5%, 2,1%. Depende da imaginação. Se uma política não é transparente, os agentes econômicos não agem conforme o que foi anunciado, mas conforme o que eles imaginam que está acontecendo. Essa divergência entre o imaginário e o real tem várias implicações. O achismo começa a dominar as decisões e as medidas do governo não surtem o efeito esperado. Vivemos esse problema durante muito tempo antes da década de 90. Os instrumentos de política econômica perdiam a eficácia.

No início do ano, o governo anunciou que manteria o superávit primário para possibilitar a queda dos juros. Na sua opinião, foi um equívoco?

A manutenção do superávit provavelmente ocorreu após uma negociação entre Ministério da Fazenda, Presidência da República e Banco Central. Até certo ponto foi um equívoco natural, porque ninguém imaginava que a economia cresceria 1,5%. Se Deus tivesse nos dito que o crescimento seria de 1,5%, o superávit primário não teria sido mantido e a redução dos juros teria sido bem mais forte. No entanto, um ponto estava claro desde o início do ano: o governo precisa estimular o investimento. Vários economistas alertaram que as políticas de estímulo ao consumo estavam se esgotando. Eu defendi uma redução do superávit primário, com os recursos totalmente direcionados aos investimentos.

Alguns economistas dizem que o BC hoje tem um triplo mandato: inflação, crescimento e câmbio. Qual é a sua avaliação?

Nenhum banco central do mundo deixa de olhar o crescimento da economia. Nenhum banco central do mundo aceitaria uma profunda recessão para reduzir a inflação de 5% para 4,5% (centro da meta). Você faz uma profunda recessão quando a inflação é de 10.000% e é preciso estabilizar a economia. No curto prazo, é preciso avaliar o "trade off" entre inflação e crescimento. O que distingue o bom banco central é isso. Se fosse tão fácil, bastava colocar um robô, que ajustaria a taxa de juros conforme o IPCA. Para que fazer reuniões e produzir catataus de documentos? Já estamos no quinto ano de turbulências econômicas no mundo. Todas as políticas econômicas adotadas têm de ser colocadas nesse contexto. Não posso julgar o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) pelo que está fazendo agora.

Mas o Brasil não foi tão afetado pela crise quanto os Estados Unidos.

O Brasil está afetado pela crise, não tanto quanto Europa ou Estados Unidos, é claro. Mas, querer que o Brasil pratique taxas de juros neutras em um momento em todos praticam taxas negativas, não faz sentido nenhum. Querer que o Brasil não faça nada na área cambial, quando o mundo injeta uma liquidez fantástica, não faz sentido nenhum. São mecanismos de defesas naturais que devem ser adotados, dependendo das circunstâncias. Não podem ser interpretados como mudanças institucionais. Sabemos que, quando a situação se normalizar, o Fed voltará a ter a mesma política de antes. Também temos de dar esse voto de confiança ao Banco Central brasileiro.

Pode ser necessário elevar os juros no ano que vem?

Não. Vamos entender bem: juros reais de 2% para o Brasil, obviamente, são baixos. Isso não é juro de equilíbrio. Por outro lado, não vejo no mundo uma situação que exija ao Brasil praticar mais do que isso. A inflação não vai convergir para 4,5% em 2013, mas as circunstâncias excepcionais me fazem pesar que temos de ter mais tolerância.

Os juros caíram muito, mas a economia não cresce. Por quê?

São vários motivos. O Brasil tem um problema crônico que é o baixo investimento e a falta de poupança. Se tivesse de escolher uma reforma, optaria pela recuperação da capacidade de investimento do setor público à custa dos gastos correntes. Além disso, a indústria está sofrendo há vários anos. O Brasil recebeu um grande presente com a alta do preço dos produtos primários, mas foi uma péssima notícia para a indústria. O câmbio se valorizou e a renda cresceu fora do setor industrial, elevando os salários. A relação câmbio/salário foi um desastre para o setor.

É preciso incentivar o investimento privado? Como o senhor avalia a relação do governo Dilma com os empresários?

Vamos dividir o problema. A capacidade de poupança e investimento do setor público tem de ser alterada. Os gastos correntes têm de crescer menos, e os investimentos, mais. A segunda questão é se o setor público tem capacidade de administrar os investimentos. Acho que não. Por isso, tem de ocorrer uma parceria entre setor público e privado. Sobre o relacionamento entre o governo e o setor privado, não há dúvida de que enfrenta problemas. O governo Dilma ganhou fama de ser muito intervencionista. Ocorreram problemas com os bancos, com o setor elétrico, com o setor ferroviário. As mudanças no câmbio não caíram bem. Os comunicados do BC não foram brilhantes. A política fiscal é pouco transparente. Por outro lado, muitas dessas coisas foram feitas como a melhor das intenções. O objetivo é louvável. O problema é como vem sendo conduzido.

A administração Dilma é protecionista?

De novo, é preciso avaliar as medidas no contexto da economia mundial. Não se pode negar que o Brasil tem tomando medidas que podem ser caracterizadas como protecionistas, mas, por outro lado, situações atípicas exigem medidas atípicas. Também precisamos entender que são medidas pontuais e não estão fechando o mercado. Comparado com a China, não fizemos nada no câmbio. O Brasil está tentando se defender num mundo em que todos os países empurram para cima dos outros os custos da crise. Avaliar esse governo com critérios normais é injusto. Temos de entender que o governo Dilma está enfrentando uma situação externa extremamente complexa.

A estabilização completou 18 anos. O senhor vê algum risco de descontrole inflacionário?

Não. Mas a inflação exige cuidados permanentes. Se você fizer besteira, volta. Temos de cuidar da política fiscal. E ainda temos resquícios de indexação na economia. Tivemos uma experiência inflacionária única. Somos o único país que manteve taxas de inflação muito elevadas e os mecanismos da economia funcionavam. Essa história única nos deixou uma herança única. A regra de salário mínimo, por exemplo, é uma coisa maluca. (O salário mínimo é reajustado com base na inflação do ano anterior mais o PIB de dois anos atrás). Nem dá para entender qual é a lógica. É típico de um país que ainda quer proteção contra a inflação.

Nascido em Bafra (Turquia), é doutor em economia e matemática pela Universidade

Vanderbilt, no Tennesse, Estados Unidos. Fez carreira como gestor de investimentos, presidiu o BC (90/91, governo Collor). Hoje é consultor e preside o conselho do grupo Libra.

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