É preciso mais para evitar os 2%

Não há luzes no fim do túnel, disse a presidente Dilma Rousseff , ao se referir ao agravamento da crise europeia. Para o ministro da Fazenda, Guido Mantega, mais realista, a luz que existe é do trem vindo em nossa direção.

ALBERTO TAMER, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2012 | 03h07

O certo é entrar num desvio e esperar o trem passar, protegendo-se agora das ondas de choque que estão por vir.

Se houver alguma luz, virá da reunião do G-20, amanhã, no México. Mas parece que existe é um trem vindo em frente comandado pela chanceler alemã Angela Merkell. E vem a toda. Na quinta-feira, três dias antes do encontro, ela jogou lenha na fornalha ao reafirmar que Alemanha não aceita pessões externas e muito menos medidas "contraprodutivas e simples", como a criação dos eurobônus, ou quaquer outra forma de distribuir o peso da dívida.

A solução passa pela austeridade fiscal e não crescimento agora, "uma tarefa árdua e dolorosa que é a nossa", disse.

Soros irônico. No fundo, comenta George Soros em artigo no jornal Valor Econômico, na quinta-feira, essa política leva a uma "divisão permanente entre países credores e devedores, a Alemanha passará a predominar na Europa e a periferia se tornará um interior de deprimidos." Ele observa que é "bastante inadequado", neste momento, qualquer comparação com o passado histórico da Alemanha.

Já no G-20... Essa posição intransigente e solitária já foi afirmada na reuniões preparatórias do G-20. Se há que dar mais recursos para os países europeus endividados, que todos os países - inclusive os emergentes - não só da zona do euro, aumentem o capital do Fundo Monetário Internacional. Já prometeram U$ 400 bilhões ao fundo, que tem agora US$ 800 bilhões. Por que não dar mais? Por que só nós? Os Estados Unidos e o Brasil já disseram não, porque o problema é deles, que podem mobilizar recursos mas não fizeram nada nos últimos três anos.

Sem o FMI. O FMI tem a mesma posição e se apressou a afirmar que o fundo não vai participar do socorro de 100 bilhões à Espanha. Isso é tarefa para o Banco Central Europeu (BCE) e para os governos do bloco.Eles devem, isso sim, se conscientizar de vez da gravidade da situação, parar de brigar entre si e agir.

BCs preparados . Nesse impasse, a reunião dos G-20 poderá terminar com mais um comunicado de promessas vazias não cumpridas, como no passado. Prevendo isso, o presidente do BCE, Mario Draghi, confirmou que os bancos centrais da região estão preparados para o pior. Primeiro, foram rumores, depois, afirmação clara: "O eurosistema (BCE e bancos centrais) continuarão suprindo liquidez para solver os bancos que precisarem." Até quando? Para Soros, mais três meses. Para Lagarde, não se pode falar em prazos firmes, mas alerta que a situaçao é de extrema gravidade.

Nada para nós . O Brasil só espera uma resposta negativa e se prepara para mais tensão externa e menor crescimento mundial, o que pode nos arrastar.O governo demorou, mas está reagindo, talvez em tempo para evitar os 2% de PIB este ano. Seguiu o que a coluna costuma chamar de "lei" de Keynes: "Quando as circunstâncias mudam, eu mudo também."

E dá sinais de estar mudando. Revogou o aumento do IOF para empréstimos de até 5 anos e oferece R$ 20 bilhões iniciais para Estados e Municípios investirem.

Antes, se acreditava que havia excesso de dólares entrando no País. Agora não.

O dilema que não existe. Outra frente de ação é a de investimentos e consumo interno. O governo foi tímido quanto aos investimentos e concentrou-se mais na demanda. Agora, corre para ganhar o tempo perdido. Fala-se num dilema entre consumo e investimento que, na verdade, não existe. Eles não se anulam, se somam. Devem e podem ser atacados ao mesmo tempo. O consumo tem resposta mais rápida, o que talvez explique a ação do governo.

Há sentido de urgência. O aspecto positivo nesse cenário interno e externo sombrio é que alguma coisa começa a ser feita com recursos do governo via BNDES e títulos do Tesouro. Há espaço para agir aqui. Mas o Índice de Atividade Econômica, o IBC-Br, divulgado agora, mostra estagnação da economia em abril, e um crescimento de anualizado de apenas 1,55%.

O governo se mobilizou agora,mas neste cenário de perspectivas sombrias, tudo o que vier a fazer será ainda pouco para evitar os 2% de PIB este ano.

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