É preciso recompor a corrente de comércio

Foram tão ruins os resultados da balança comercial em 2014 - com déficit de US$ 3,93 bilhões, o maior em 16 anos - que dificilmente eles se repetirão em 2015. É possível que o saldo comercial volte a ser positivo, como vinha sendo até o ano passado. Mas, pelo critério do grau de abertura da economia, avaliado pela corrente de comércio (a soma das exportações e das importações), é provável que ocorra um novo declínio, em razão da baixa competitividade dos manufaturados brasileiros, da queda dos preços de itens importantes da pauta de exportações e da possível redução das importações.

O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2015 | 02h03

O secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Daniel Godinho, atribuiu o déficit de 2014 à queda dos preços de commodities, em especial do minério de ferro, ao cenário internacional e ao petróleo.

O problema, porém, é mais extenso. A alta competitividade dos produtos primários brasileiros deixou em segundo plano um equívoco dos últimos governos: o descuido com os manufaturados, que perderam importância no comércio exterior.

O peso dos manufaturados nas exportações foi de 54% em 1990, chegando a 59% em 2000. Essa relação mudou na segunda metade da década passada, com o peso crescente das commodities, aliado ao enfraquecimento da indústria.

A política de comércio exterior não se antecipou à perda de ritmo da maior importadora (a China), que levou à queda da demanda de primários. Também não encontrou respostas para a crise de outra grande importadora, a Argentina. Problemas da Rússia e da União Europeia tornaram a situação mais difícil.

A esperança de melhora do saldo comercial em 2015 está ancorada na desvalorização do real, por seu estímulo às exportações e seu impacto negativo sobre as importações. Prevê-se também redução das compras de petróleo e derivados, que causaram déficit de US$ 16,6 bilhões no ano passado.

A recomposição da corrente de comércio tornou-se essencial. A soma de exportações e importações caiu de US$ 481,7 bilhões em 2013 para US$ 454,1 bilhões em 2014. Isso significa que o Brasil perdeu espaço no comércio internacional. E, em 2015, com a desvalorização do real, o País deverá importar menos máquinas e equipamentos necessários aos investimentos, além de menos bens de consumo. Recompor a corrente de comércio agora é mais relevante do que obter superávit comercial.

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