E que venham os dólares

Os números do BC sobre investimentos diretos e as contas externas em 2010 revelam que o Brasil continua superando todas as expectativas na atração de dólares. Há déficits que estão sendo cobertos pelos investimentos em produção - US$ 48,4 bilhões no ano passado. Isso representa 4,3% dos investimentos mundiais.

Alberto Tamer, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2011 | 00h00

Há também as reservas de US$ 288 bilhões. O déficit preocupa e o governo está atento. Os dados do BC dizem que não há um risco iminente. O problema é administrar a enxurrada de dólares. Quase US$ 10 bilhões nas primeiras três semanas do ano.

Ao avaliar esses resultados, os economistas não têm dado muita atenção para dois fatos importantes. Primeiro é que, na fase de implantação em que as fábricas estão sendo construídas, esses investimentos não geram receita, mas consumo de insumos, emprego e renda. Isso sustenta o crescimento, mas pressiona a inflação.

O segundo é que na primeira fase de obras, na qual só há gastos e não receitas, esses investimentos exigem financiamentos internos ou externos. Isso leva o governo a rever regras para o fortalecimento do mercado de capitais.

Dessa forma, os investimentos diretos em fábricas, minas, usinas, ou infraestrutura, podem ser considerados como incentivadores do mercado financeiro (empréstimos) e de consumo (criação de empregos). São fatores decisivos para o crescimento econômico estimado em 4,5%.

O saldo final do processo é positivo, apesar das pressões inflacionárias, pois beneficiará a indústria brasileira.

Não há, portanto, razão para se assustar com o déficit externo que cresceu muito - R$ 47,5 bilhões, não mais, porém, que 1,28% do PIB. Mas esse afluxo generoso não pode parar. Os Estados Unidos já se comprometeram com juros negativos por muito tempo. E a liquidez e lucros baixos empurram os dólares para o Brasil.

Nos últimos oito anos, as reservas aumentaram mais de 300%. Vão superar os US$ 300 bilhões este ano. O fluxo de investimento externo acentua mais a valorização do real, que, para ser contida, está levando o BC a continuar comprando dólares, alimentando as reservas. Seja isso para formar a retaguarda de defesa ou segurar o real. Ou ambos.

Nem tudo é rosa. Há problemas, mas compensados pelos benefícios que essa política oferece. O aumento dos juros para conter a inflação atrairá mais investimentos financeiros que, por sua vez, valorizam o real.

Os investimentos continuarão afluindo para o Brasil. O BC deverá continuar comprando até mais que os dólares excedentes para administrar a valorização do real e das reservas.

É esse o cenário no qual o vilão da história é a inflação e não o desequilíbrio das contas externas, um risco para o qual é preciso estar atento, sim - e o governo está. Os dólares continuarão vindo, mas Alexandre Tombini tem armas para conter a alta da inflação. O aumento das importações poderá ser compensado pela elevação prevista dos preços das commodities, pelo crescimento do mercado, e pela recuperação das vendas externas, com novas medidas anunciadas de desonerações pelo governo.

Ou seja, quanto mais investimentos diretos e financeiros, maior será o valor reserva e segurança de um país. Além disso, pode-se contar com o aumento das exportações de commodities cujos preços devem permanecer em alta neste ano de retomada da economia mundial.

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