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''É questão de tempo''

Ibrahim Eris: ex-presidente do BC; pra economista, 1 ponto é pouco diante das necessidades, e juro vai cair ainda mais, pois ?o quadro é dramático?

Entrevista com

Leandro Modé, O Estadao de S.Paulo

17 de janeiro de 2009 | 00h00

À frente da Linvest Participações e de uma consultoria que leva seu nome, o ex-presidente do Banco Central (BC) Ibrahim Eris tem uma rotina atribulada por natureza. Em momentos como o atual, diz ele, a procura por seus serviços fica ainda mais intensa. "São conversas, palestras, consultas, o que for", comenta. "Durante crises, as pessoas lembram dos economistas de duas maneiras. A primeira é para falar de seus erros, com razão. A segunda é que, mesmo assim, acham que precisam consultar um." O tom jocoso acaba quando ele fala sobre as perspectivas para a economia brasileira. Embora se recuse a cravar números - "não dá para levar a sério os que têm saído" -, Eris diz que o cenário econômico terá de melhorar um pouquinho para ficar ruim. O repasse da alta do dólar para a inflação, até o momento, não ocorreu. Como fica o cenário para a taxa de juros no Brasil?Não é que o repasse não esteja acontecendo. É que, simultaneamente à desvalorização do real, estão acontecendo outras coisas. Essas coisas anulam totalmente a alta do dólar ou a atenuam. Há mudanças dramáticas em vários campos neste momento. Em primeiro lugar, as commodities, cujos preços têm caído fortemente. Em segundo, há a desaceleração bastante veloz e dramática da atividade econômica. Obviamente, isso abre a possibilidade de o BC baixar os juros substancialmente nas próximas reuniões. Qual o seu cenário para o juro?A situação da economia mundial e, por tabela, do Brasil, está mudando com tanta velocidade que é difícil fazer prognóstico. Por exemplo, se tivéssemos levantado a hipótese de uma redução de 0,75 ponto na reunião desta semana há 20 dias, todos ririam da nossa cara. Hoje, 0,75 ficou perfeitamente viável e até mesmo a hipótese de 1 ponto não deixa ninguém chocado. Longe de mim ter pretensão de falar das outras reuniões. O importante é que 0,75 ou 1 ponto porcentual é pouco diante de nossas necessidades hoje. Estamos enfrentando uma crise como não vimos nos últimos 80 anos. Ajustes nas taxas de juros nas próximas reuniões serão bastante grandes. Aliás, as reuniões estão muito espaçadas diante da gravidade da crise. O Copom deveria se reunir, extraordinariamente, com mais frequência?Sim. O próprio BC deve estar sentindo falta disso. Temporariamente, poderia haver reuniões mensais. As taxas futuras estão bem à frente do Banco Central, não?Tem sido assim há algum tempo. O fato é que o BC está correndo atrás da curva (de juros). O Banco Central tem sido mais cauteloso em sua avaliação da crise do que os mercados. Não vou dizer que o mercado percebeu a gravidade da crise antes do BC. Mas certamente reagiu a essa percepção mais rapidamente do que o BC. Agora o BC vai sancionar algo que já aconteceu. A queda dos juros futuros é uma realidade. Vai cair mais, porque o quadro é dramático. O BC está atrás da curva por causa do calendário ou por causa de uma postura muito cautelosa?As duas coisas. Faz tempo que digo que o nosso Banco Central é excessivamente cauteloso. Na última reunião, o BC deu sinal de que olha exclusivamente os riscos à inflação e os riscos à atividade ficam em segundo plano. Isso foi um erro. Na última reunião, os riscos para atividade já eram maiores do que os riscos à inflação. Neste momento, a taxa de juro real no País é a mais baixa do governo Lula. Mas ainda há muita reclamação sobre o custo do crédito.A taxa cobrada pelo banco é bem diferente da taxa real. Tal diferença é o spread, que, nessas horas, tende a subir. Além disso, há outro fenômeno. O crédito externo secou. Portanto, há demanda excessiva para recursos internos. Isso indica que o BC pode reduzir mais o juro?Ele vai ter de reduzir e, na ponta dos empréstimos, vai cair também. É questão de tempo. O que o sr. projeta em termos de crescimento em 2009?Não dá para levar a sério os números que têm saído. Desculpe, mas não darei um número. Mas o cenário é ruim?Tem de melhorar um pouquinho para ficar ruim.

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