EFE/Roman Pilipey
A artista ucraniana Daria Marchenko recria o rosto de Vladimir Putin com 5 mil cartuchos de bala  EFE/Roman Pilipey

Se a Rússia desmoronar: o perigo mais além de Putin

O mundo se preocupa, com razão, com a perspectiva de uma Grande Rússia. Mas uma Rússia menor pode ser igualmente preocupante

The Economist, O Estado de S. Paulo

07 de agosto de 2015 | 21h21

Sob a presidência de Vladimir Putin, para o mundo exterior a Rússia é uma potência expansionista que busca redefinir as fronteiras estabelecidas após o colapso da União Soviética e reconstruir um império. Mas, e se a própria Rússia - país de quase 200 nacionalidades com um território tão imenso que abrange 11 fusos horários - correr o risco de desmoronar?

Não seria a primeira vez que o país usa da agressão e da expansão como defesa contra a modernização e ao agir deste modo arruína sua própria integridade territorial. Em 1904, quando o país estava às vésperas de uma revolução, Nicolas II tentou impedir as mudanças partindo à caça dos traidores nacionais e iniciando uma pequena guerra com o Japão. A guerra terminou um ano depois com derrota da Rússia e 12 anos depois o império czarista evaporou em alguns dias. Em 1979, quando o governo comunista se debatia sob o peso das suas próprias contradições, a União Soviética invadiu o Afeganistão; 12 anos depois o império desmoronou quase que repentinamente.

 

Em 2011 a classe média urbana de Moscou foi para as ruas exigindo modernização. Putin reagiu, prendendo supostos traidores da nação, anexando a Crimeia e iniciando uma guerra contra a Ucrânia. A noção de que estas recentes aventuras no campo da política externa podem terminar do mesmo modo que as anteriores - com o colapso do Estado e a desintegração do país - não é tão disparatada como parece. 

A União Soviética se desintegrou porque se estendeu demais, com escassez de dinheiro e ideias. As elites locais perceberam que não havia nenhum benefício em continuar parte de um país falido. E a União se fragmentou ao longo das fronteiras administrativas das 15 repúblicas que formavam o gigantesco país. 

Mas o processo não parou aí. Com efeito, muitas regiões da Rússia - incluindo a Sibéria, os Urais, Carélia e o Tartaristão - declararam sua independência na época. Para evitar uma futura desagregação o então presidente Boris Yeltsin teve a ideia de uma federação, prometendo a cada região "o máximo de soberania que ela conseguisse tragar". Yeltsin fez a promessa em Kazan, antiga capital do Tartaristão, que passou a ter muitos atributos de um Estado independente: um presidente, uma constituição, uma bandeira e, mais importante, seu próprio orçamento. Em troca, a promessa de continuar fazendo parte da Rússia. 

Putin reverteu o federalismo e transformou a Rússia num Estado centralizado. Cancelou eleições regionais, impôs um representante "presidencial" acima dos chefes de governos e redistribuiu as receitas tributárias de modo a favorecer Moscou. Mas não criou instituições comuns. O Estado russo é visto não como defensor da lei, mas uma fonte de injustiças e corrupção. 

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Apesar da profunda paranoia que os Estados Unidos tentam dissipar, este cenário é um dos maiores pesadelos do Ocidente.
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Nas palavras de Michail Iampolski, historiador, a Rússia atual se assemelha a um antigo império mongol em que os príncipes locais recebem uma licença para governar do seu principal chefe no Kremlin. Durante a década passada a principal tarefa dos governadores apontados por Moscou era fornecer votos para Putin. Em troca recebiam uma parte das receitas do petróleo e o direito de governar a seu critério. A Chechênia sob o governo de Ramzan Kadyrov, antigo senhor da guerra escolhido por Putin, é uma grotesca ilustração disto. Na última eleição presidencial ele conseguiu 99,7% de votos para Putin com um comparecimento às urnas de 99,6% de eleitores. Em troca ele recebe subsídios e tem liberdade para sujeitar sua população aos seus próprios impostos e regras islâmicas. Moscou paga a um país corrupto e ditatorial como a Chechênia um enorme tributo em troca de Kadyrov fingir que faz parte da Rússia e a promessa de lealdade a Putin.

Se Putin partir e o dinheiro escassear, a Chechênia poderá ser a primeira a se separar. O que terá um drástico efeito sobre o restante da região norte do Cáucaso. O vizinho Daguestão, muito maior e mais complexo do que a Chechênia, poderá se fragmentar. Um conflito no Cáucaso, combinado com uma debilitação do governo central na Rússia poderá fazer com que outras regiões queiram se afastar dos problemas de Moscou. 

O Tartaristão, pátria de dois milhões de tártaros de etnia muçulmana e um milhão e meio de russos, poderá tornar-se uma região independente como era no século 15. Possui uma forte identidade, uma economia diversificada, com sua própria companhia de petróleo e uma classe instruída no poder. E que forjaria uma relação especial com a Crimeia, cujos tártaros da região declarariam um Estado independente. A região dos Urais poderá constituir uma república - como tentou em 1992 - em torno de Yekaterinburgo, a quarta maior cidade da Rússia, ou então se unir com a Sibéria. A própria Sibéria poderá ressuscitar sua identidade a partir de uma base nas cidades de Krasnoyarsk e Irkutsk e reivindicar suas riquezas de gás e petróleo, cujo comprador seria a China. Ao contrário da Rússia, a China pode não ter muito interesse numa expansão territorial na região escassamente povoada do Extremo Oriente e da Sibéria, mas poderá (e já o faz) colonizar essas regiões economicamente. Vladivostok e Kabarovsk, duas das maiores cidades do Extremo Oriente, economicamente estão mais integradas com a China e Coreia do Sul do que com a parte europeia da Rússia.

Uma desintegração - com bombas atômicas dentro. Apesar da profunda paranoia que os Estados Unidos tentam dissipar, este cenário é um dos maiores pesadelos do Ocidente. Ele expõe o problema do controle sobre as armas nucleares russas. Embora o centro de comando continue em Moscou, no caso dos mísseis de proteção espalhados pelo território será mais difícil do que era após o colapso da União Soviética. Na época, russos e americanos trabalharam juntos para transferir o arsenal nuclear da Ucrânia e Casaquistão para a Rússia. A Ucrânia recebeu um documento - o chamado memorando de Budapeste assinado por Rússia, EUA e Grã-Bretanha - garantindo sua integridade territorial em troca da cessão das armas nucleares. Hoje, a anexação da Crimeia pela Rússia tornou tais garantias inúteis. 

O espectro da desintegração já é evocado na Rússia. Políticos e especialistas têm pavor de discutir o assunto publicamente. Logo após a anexação da Crimeia, o Kremlin sancionou lei estabelecendo que "qualquer incitação de alguma ação visando abalar a integridade territorial da Rússia" é crime. Mas a maior ameaça à integridade territorial do país é o próprio Kremlin e sua política com relação à Ucrânia. Ao romper as fronteiras pós-soviéticas Putin abriu uma caixa de Pandora. Se a Crimeia "historicamente" pertence à Rússia como ele afirmou, o que dizer de Kaliningrado, a antiga Königsberg, enclave que a Alemanha perdeu para a Rússia depois da Segunda Guerra Mundial? Carélia, a leste, que a Finlândia cedeu para a União Soviética após sua guerra de inverno em 1940, não deveria ser finlandesa? E não seria o caso de as Ilhas Curilas serem devolvidas ao Japão? 

Mais perigoso ainda para o futuro da Rússia é o fato de Putin ter acionado forças que se desenvolvem com base na guerra e no nacionalismo. Não são forças de expansão imperial - a Rússia carece do dinamismo, dos recursos e da visão exigidos para a criação de um império. São forças do caos e da desorganização. A Ucrânia Oriental transformou-se num ninho de criminosos e mafiosos. Essas forças não difundem a civilização russa, mas a anarquia. Em resumo, a Rússia sob o governo de Putin está muito mais frágil do que parece. Vyacheslav Volodin, seu vice-chefe de gabinete, recentemente equiparou Putin à Rússia. "Sem Putin não haverá Rússia", disse ele. É difícil pensar em uma perspectiva pior.Tradução de Terezinha Martino

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