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E se o Fed falar grosso e retirar os estímulos da economia americana?

O mercado está dividido quanto aos próximos passos da comunicação do BC americano

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2021 | 04h00

A disparada nas taxas de retorno (yields, em inglês) dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos abalou os mercados globais na semana passada, levando a um tombo das Bolsas de Valores ao redor do mundo e das principais moedas internacionais, enquanto o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, assistiu à turbulência passivamente.

Irá o presidente do Fed, Jerome Powell, e os diretores da instituição seguir fechando os olhos para situação que ameaça sair do controle?

Até a semana passada, Powell minimizou a alta nas taxas de retorno, ressaltando que isso já era esperado e garantindo que o Fed vai manter a postura acomodatícia da política monetária americana.

Com a recuperação prevista para a economia dos EUA neste ano, graças ao avanço da vacinação contra a covid-19 no país e também aos estímulos fiscal e monetário, uma elevação dos juros pagos pelos títulos do Tesouro já era, de fato, esperada, pois, com a demanda mais aquecida, a inflação voltaria a se acelerar.

Após a Câmara dos Deputados dos EUA aprovar o pacote fiscal de US$ 1,9 trilhão, incluindo socorro financeiro de US$ 1.400 para os cidadãos americanos, muitos economistas elevaram suas estimativas de crescimento do PIB. O pacote segue para votação no Senado nesta semana. O fundo de investimento Pimco, por exemplo, projeta um crescimento de 7,5% do PIB americano neste ano. O banco JP Morgan prevê expansão de 7,0%.

Mesmo com tanto otimismo, o problema é que a alta dos yields da semana passada foi excessiva e pareceu um processo desordenado, como um trem descarrilando. No auge do nervosismo, a taxa dos títulos de 10 anos do Tesouro chegou a superar 1,61%, maior nível em 12 meses, reagindo ao aumento das expectativas inflacionárias.

A inflação implícita nos papéis do Tesouro americano de prazo de cinco anos deu um salto para quase 2,4%, maior nível desde maio de 2011. Num fenômeno bastante atípico, ficou mais alta do que a inflação implícita nos títulos de 10 anos, que subiu para 2,15%, o que não acontecia desde julho de 2008. Em janeiro, a inflação anualizada nos EUA ficou em 1,4%.

A mensagem dos investidores é clara: a retomada mais forte da economia americana levará a inflação a um patamar desconfortável o suficiente para o Fed quebrar sua promessa de manter os juros básicos próximos a zero até 2023 e seguir injetando estímulo à economia ao comprar US$ 120 bilhões por mês em ativos diversos.

Os investidores vão seguir testando o Fed, forçando alta adicional dos yields dos títulos do Tesouro, até que os dirigentes se posicionem mais claramente sobre a situação. A atenção do mercado estará voltada para amanhã, quando Powell fará um discurso em evento público. Poderá ele mudar de tom e falar grosso, fazendo uma intervenção verbal?

O risco é de, se Powell soar demasiadamente leniente, reforçando a tolerância do Fed em aceitar que a inflação possa ficar acima da meta por algum tempo, os yields seguirem subindo e elevando o custo de financiamento a ponto de frustrar a retomada da economia.

Mas se soar demasiadamente duro, sinalizando o desejo de iniciar antes do previsto a retirada dos estímulos, ele pode repetir o episódio conhecido como “taper tantrum”, quando o Fed abalou os mercados globais em 2013 ao sinalizar que encerraria as compras de ativos na época.

O mercado está dividido quanto aos próximos passos da comunicação do Fed. Para o diretor de investimentos e fundador da gestora ACE Capital, Fabrício Taschetto, os yields de prazos mais longos dos títulos do Tesouro vão seguir subindo se o Fed demorar muito para reagir. Ele acredita que o BC americano vai anunciar já no fim deste ano que vai reduzir as compras mensais de ativos, dando início à retirada dos estímulos em 2022. “O Fed tem sinalizado que uma inflação de 2,5% é bem-vinda e que a 3% não é um problema”, observa Taschetto. “Enquanto a inflação corrente ainda é baixa, o gogó do Fed vai longe, mas quando a inflação triscar 2,5%, essa coragem desaparece e ele vai acabar reagindo.”

Se antes de o Fed falar grosso, os mercados globais, em particular os países emergentes, já estão sofrendo com o chilique dos juros americanos, imagina quando a comunicação mudar e sinalizar um aperto de liquidez? 

*É COLUNISTA DO BROADCAST

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