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'É seguro que haverá uma recessão no País'

Para economista, escassez de água e energia elétrica, desdobramentos da Lava Jato e ajuste fiscal pioram cenário

Entrevista com

José Roberto Mendonça de Barros

CLEIDE SILVA, RICARDO GRINBAUM, O Estado de S.Paulo

08 Fevereiro 2015 | 02h05

O Brasil não tem como escapar de uma recessão este ano, prevê o economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio da consultoria MB Associados. "Infelizmente é seguro - não é possibilidade - que haverá uma recessão", diz ele, que espera uma queda mínima de 1% no Produto Interno Bruto (PIB). Além dos problemas que o País já enfrentava no ano passado, três novos elementos foram acrescentados este ano que reforçam o quadro recessivo: a escassez de água e energia elétrica, os desdobramentos da operação Lava Jato e o ajuste fiscal - necessário, em sua visão.

Em meio às más notícias, o economista, que assessorou a campanha de Aécio Neves nas eleições presidenciais, vê alguns pontos positivos no cenário econômico no futuro. Até o fim do ano, a inflação deve começar a cair. Com isso, será possível reduzir a taxa de juros. Mendonça de Barros acha que é inevitável uma desvalorização do real, o que pode ajudar na recuperação das exportações. Para ele, a economia passará por mudanças profundas. "É o fim de uma era, de um modelo", diz o economista, na seguinte entrevista:

O ano começou pior do que se esperava na economia?

Sim, todos os indicadores estão muito ruins. O resultado fiscal foi muito pior do que o do ano passado - 7% de déficit nominal é um horror. No setor externo, esperava-se US$ 86 bilhões e deu US$ 91 bilhões de déficit em conta corrente. E aí não é 'pedalada', é que piorou mesmo. A produção industrial teve baixa recorde, com um desmonte de investimento que é um negócio espantoso. O que chamou atenção foi a violenta queda na expectativa do consumidor, de quase 7% em janeiro. Já entrou o ano com uma confiança bastante erodida, com notícias de demissões, o que leva à certeza, infelizmente, de que a demanda por bens de consumo não duráveis, até agora a mais bem defendida, porque são as necessidades da população, vai sofrer este ano. Redes de loja que trabalham com a classe C, com grupos de renda menor, estão surpreendidos com a fragilidade da demanda neste começo de ano.

E como fica a expectativa para o ano?

Infelizmente é seguro - não é possibilidade - que haverá uma recessão no País. A MB projeta no mínimo uma queda do PIB de 1%, número que deverá ficar maior à medida em que elementos que não estavam no cenário passem a fazer parte dele. Eu menciono, antes de tudo, a escassez de água e energia elétrica. Espera-se uma seca grande no segundo semestre. E se continuar chovendo fracamente vai ser já. Significa que ainda no primeiro semestre haverá medidas de restrição - que já estão ocorrendo - e isso afeta tanto a expectativa das pessoas como o PIB e a produção. Muita gente está correndo atrás de pequenos investimentos para reúso, o que é positivo, mas objetivamente a escassez de água e, principalmente, de energia vão comer o PIB.

Quais outros fatores não existiam em 2014 e estão presentes neste ano?

A operação Lava Jato e suas consequências, que tem implicações grandes. Uma é que a Petrobrás reduziu drasticamente os pagamentos aos seus fornecedores e suspendeu alguns deles, além de adiar uma série de investimentos. Isso significa que a construção civil vai tomar uma pancada este ano.

Qual o efeito da Petrobrás na queda do investimento?

A gente está projetando uma queda na construção civil de 6,5% na produção, na soma de residencial, comercial, industrial e construção pesada. No ano passado, estimamos que já caiu 5% (o número oficial não saiu ainda), mas este ano cairá mais justamente por causa da construção pesada. E no investimento, que na nossa estimativa caiu 7% no ano passado, acreditamos numa queda de 9% neste ano, fundamentalmente em obra de infraestrutura, e não só por causa de petróleo. Tem o exemplo da fábrica de fertilizantes que a Petrobrás está construindo em Três Lagoas (MS) e que suspendeu o contrato, parou a obra e milhares de pessoas perderam o emprego. Esse efeito vai estar em muitas outras obras. O segundo ponto desse efeito do 'petrolão' é que as construtoras estão sobre enorme pressão financeira, o que afeta seu crédito na praça, limitando sua operação até que se resolva alguma forma de recapitalização, como vender ativos, arrumar um sócio ou outra solução, até alguma insolvência ou recuperação judicial aparecer. Esse efeito crédito certamente se espalha pela economia. O investimento vai cair, muitas obras vão parar e a produção do setor de construção civil terá implicações na cadeia toda.

E o ajuste fiscal, que efeito vai ter sobre a economia?

Neste caso, ao contrário da água e do 'petrolão', é uma coisa bem-vinda, no sentido de que é necessária. É bem montado, comandado por gente competente. Os colegas heterodoxos obviamente discordam disso, mas, por questão de bom senso, muitos concluem que 6,7% de déficit fiscal não é sustentável, que US$ 91 bilhões de déficit de conta corrente não é sustentável e que algum ajuste teria de ser feito. Mas é claro que terá um efeito sobre a demanda, aliás ele é feito para isso. Aumentar as tarifas, aumentar a taxa de juros, reduzir um pouco do gasto público, contraindo demanda, tem seu efeito em cima da oferta. O efeito combinado desses três elementos novos, mais o que já havia no passado - contração de investimento, de exportações e de consumo doméstico - levam a essa percepção de que vamos ter uma recessão de tamanho apreciável, independente do ajuste fiscal. Com isso, é inescapável que estejamos num ano que é qualitativamente diferente do passado. Não é só um enfraquecimento de uma tendência que vinha vindo desde 2011, é uma coisa pior. É o fim de uma era, de um modelo, de um arranjo que naufragou pelo acúmulo de distorções macro e microeconômicas que criou um gigantesco problema de governança.

Como o sr. define esse modelo que está terminando?

Um modelo que já foi chamado de nacional desenvolvimentista, no qual busca-se o crescimento econômico com distribuição de renda, que são objetivos altamente meritórios, mas através de uma exacerbação do gasto público, do crédito público, na estimulação da demanda de consumo e numa economia cada vez mais fechada. Este modelo naufragou porque nossa desconexão com o exterior aumentou. O Brasil está cada vez mais fechado. Segundo, os novos consumidores - bem-vindos, claro -, esgotaram sua capacidade de endividamento. Terceiro, a produtividade não aumentou, portanto os aumentos salariais se transformaram em aumento de custos. Quarto, a eficiência governamental é cada vez mais baixa, o investimento público cada vez mais limitado, projetos atrasados, resultando num aperto sistemático de competitividade. E tudo isso se completa com a política de usar o câmbio e os preços da Petrobrás para segurar a inflação. Nitidamente 2014 acabou sendo um ano em que se levou essa lógica além do limite por causa da eleição. Tanto é que, passada a eleição, mudou tudo. Só que isso fez com que se esticasse demais essa parte negativa. Então este modelo naufragou e vai ter de ser substituído com o carro andando por alguma outra coisa que não está clara. Esse é o nosso desafio.

O ajuste fiscal vai funcionar?

Hoje é prematuro dizer. O que acho é que tem dois ou três elementos que estão se confirmando e que farão parte disso de alguma forma. O mais relevante é o relacionamento com o exterior. Felizmente, a valorização do dólar lá fora, com a retomada dos EUA e o desarranjo do balanço de pagamentos brasileiro vão levar a uma inexorável, e bem-vinda, desvalorização do real. Ela permite começar uma rotação na direção de recuperar nossa conexão com o exterior e um aumento de competitividade. Vai ser diferente do passado, porque vai ser mais dirigido a mercados que não estão na rota sul-sul. É uma mudança importante, especialmente na indústria, porque há muitas empresas que têm bom padrão de competitividade do ponto de vista técnico, o que elas não tinham era custo, porque o câmbio, entre outras coisas, não permitia. Mas com o dólar a R$ 2,80, a R$ 3, muita gente está em condições de competir e vai atrás da exportação, até empurrada pela fragilidade da demanda doméstica.

E a alta do preço da energia?

O preço da energia foi artificialmente rebaixado e agora está sendo reajustado, o que é um problema no curto prazo, mas que vai trazer de volta a possibilidade de novos investimentos rentáveis - desde que o governo abandone a ideia de controlar a taxa de retorno. Por outro lado, a desmontada do preço do petróleo que veio para ficar tem três efeitos importantes: no curto prazo, vai reduzir nosso déficit da conta petróleo. Tem um segundo efeito positivo no fluxo de caixa da Petrobrás. Hoje, a gasolina e o diesel são importados a preços mais baratos e é o único refresco que a Petrobrás tem tido no curto prazo. Segundo estimativas, os ganhos da Petrobrás com esse preço mais baixo vão de R$ 2,7 bilhões a R$ 4 bilhões por mês. É de R$ 35 bilhões a R$ 50 bilhões de ganhos no fluxo de caixa se essa diferença for mantida por um ano. E isso também abre a possibilidade de poder passar uma parte para o setor industrial dos benefícios da queda do preço do petróleo. Por outro lado, a manutenção do barril em US$ 50, US$ 60 por um ou dois anos arruína o programa de investimento da Petrobrás, que foi montado com a ideia de US$ 100 a US$ 120, e vai ter de ser adequadamente revisado.

Vocês fariam muito diferente do que o Joaquim Levy está fazendo?

Para começar, eu acho que é por aí. Mas é um desafio enorme porque a parte difícil vem depois, que é complementar isso com algumas mudanças institucionais, com enfrentamento das coisas mais profundas na área fiscal, com esse rearranjo da política comercial externa, pelo rearranjo da política de crédito oficial. Não tem mais R$ 400 bilhões para o BNDES gastar à vontade. Isso vai ter de ser efetivado de alguma forma, não existe mais esse recurso.

O câmbio parece não ser uma preocupação tão grande para a inflação para o sr. Por quê?

Primeiro, a inflação vai subir neste momento. Nós projetamos que termine o ano em 7,3%, portanto bem acima da meta, essencialmente por rearranjos de preços administrados. Todos sabemos que a conta de luz vai dar um salto considerável, maior do que 30% na média do IPCA. É uma pancada de preço administrado. O de gasolina e diesel já tem um primeiro movimento. Tem rearranjos de tarifa de ônibus em alguns lugares. Tarifas de água vão subir. A inflação está subindo antes de tudo por um choque de oferta. Quando isso acontece, é besteira subir juro porque está dado, é institucional, que isso não derruba a inflação. Esses fatores que mencionei vão fazer com que o PIB e a demanda caiam. E eu acho que já existem indícios de que a inflação mais adiante, de preços livres, vai ceder de forma expressiva e o choque de oferta com o tempo vai ser absorvido e sumirá. Quer dizer, se olhar para o fim deste ano e para o ano que vem, a inflação vai ser menor, independente do câmbio. Tem muitas outras coisas que cairão - por exemplo, o preço dos serviços pessoais, que estão sem demanda, e os salários. Já há casos de empresas que negociaram com o sindicato e onde não haverá reajuste nominal este ano, porque isso iria diminuir em 40% o quadro de pessoal. E muita gente vai ter de voltar ao mercado de trabalho para complementar a renda.

E o que ocorre com os juros?

Deve subir no máximo mais duas vezes de 0,25 ponto, e antes do final do ano começa a baixar. Nessas circunstâncias, eu acho que a inflação vai baixar mesmo e não precisa de mágica em cima do câmbio nem de pancada nos juros. E, mais do que isso, o mais rápido possível os juros podem começar a cair.

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