E tudo mudou no Sindicalismo

E tudo mudou no Sindicalismo

Três décadas após histórica greve dos metalúrgicos do ABC, chegada ao poder arrefeceu ânimo do movimento sindical

Marcelo Rehder, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2010 | 00h00

Há 30 anos, estourava no ABC paulista a histórica greve de 41 dias, liderada pelo então sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, que abriu espaço para a redemocratização do Brasil e mudou os rumos do sindicalismo no País. Três décadas depois, o sindicalismo, os sindicalistas e o próprio Lula são completamente diferentes dos personagens daquele tempo

Iniciada em 1.º de abril de 1980, a mais importante mobilização de trabalhadores da história do País começou a ser planejada com oito meses de antecedência, em agosto de 1979. Duas grandes greves, em 1978 e 1979, haviam preparado o terreno para o movimento. Eram tempos difíceis, em que o Brasil ainda vivia sob o regime da ditadura militar. As greves eram reprimidas com truculência pelo Exército. Mesmo assim, quase 80% dos cerca de 200 mil metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema cruzaram os braços sob o comando de Lula.

Eles reivindicavam reajuste dos salários, achatados por índices de inflação que chegavam a ser manipulados pelo governo, e melhores condições de trabalho. A greve recebeu apoio de boa parte da população, o que levou os militares a reagirem com firmeza. O sindicato sofreu intervenção do governo, que mandou o Dops (Departamento de Ordem Pública e Social), órgão encarregado de investigar crimes políticos, prender Lula e outros 14 dirigentes da da entidade. Eles ficaram presos 21 dias, até o fim da greve, em 11 de maio.

Depois de 41 dias sem nenhuma negociação com os empresários, os trabalhadores se decidiram pelo fim da greve. O movimento, no entanto, representou uma vitória na luta contra da ditadura. Além de abrir espaço para a consolidação do Partido dos Trabalhadores e da Central Única dos Trabalhadores (CUT), contribuiu para a realização do movimento das Diretas Já.

Ímpeto menor. Três décadas depois, o líder da histórica greve ocupa o posto de presidente da República e o ímpeto do sindicalismo parece ter perdido a força. Antigos companheiros de Lula das lutas sindicais foram alçados ao poder e hoje também fazem parte do governo.

"O sindicalismo foi trazido para dentro do governo e acabou cooptado e domesticado", diz o cientista político Carlos Melo, do Insper. "O enfraquecimento do sindicalismo também se deve, em parte, às grandes modificações ocorridas no campo de trabalho e econômico."

São muitos os sindicalistas que chegaram ao poder. Até se eleger prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho saiu da presidência da CUT para ser ministro do Trabalho. A Força Sindical, que tem forte ligação com o Partido Democrático Trabalhista (PDT), pelas mãos de seu presidente, o deputado federal Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, conseguiu fazer o atual ministro do Trabalho, Carlos Luppi.

Algumas dessas decisões chegaram a surpreender sindicalistas mais tradicionais. Em 2003, o ex-presidente da CUT Jair Meneguelli decidiu abrir mão da sua vaga de suplente de deputado federal para aceitar o cargo de presidente do Conselho Nacional do Serviço Social da Indústria (Sesi), oferecido por Lula. O cargo era tradicionalmente ocupado por representantes do empresariado.

O deputado Vicente Paulo da Silva (PT-SP), o Vicentinho,também ex-presidente da CUT, saiu em defesa do governo. Segundo ele, pelo fato de o presidente Lula também ser sindicalista, é natural que ele vá buscar no movimento sindical pessoas experientes para assessorar o governo. "Tem muita gente boa e capaz no movimento sindical. O importante é que cada um, onde quer que esteja, no executivo ou legislativo, assuma a sua missão."

O ex-sindicalista Nelson Campanholo, companheiro de Lula nas greves de 1978, 1979 e 1980, concorda com Vicentinho. "Todo mundo tem o direito e o dever de participar, mas boca livre é o que não falta em todo lugar", ressalva Campanholo, sem entrar em detalhes. "A própria categoria é que tem de saber."

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