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É tudo ou nada

Corrida eleitoral antecipada pode atropelar tramitação da reforma da Previdência

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2017 | 05h00

A palavra mais usada numa recente reunião de investidores estrangeiros para descrever o sentimento em relação ao Brasil foi “bullish”, a qual descreve uma expectativa otimista ou de alta para os preços dos ativos brasileiros, em particular as ações negociadas em Bolsa. Estariam esses investidores perigosamente otimistas em relação ao Brasil?

Até segunda-feira, quando encerrou o dia a 65.534 pontos, o Índice Bovespa acumulava em 2017 uma valorização de 8,81%, após ter subido quase 39% no ano passado. Já o dólar, depois de ter caído quase 18% frente ao real em 2016, fechando a R$ 3,2521, seguiu em queda neste ano. Na segunda-feira, a moeda americana fechou em R$ 3,1527. Mas em meados de fevereiro, chegou a cair para o patamar de R$ 3,05.

Nesta semana, o banco americano JP Morgan elevou a recomendação para as Bolsas de mercados emergentes de neutro para “overweight”, ou acima da média do mercado. E, entre os países emergentes, o banco disse que via o Brasil positivamente, atribuindo uma recomendação “overweight” para a Bovespa, ou seja, sugeria os investidores comprar a bolsa brasileira. O argumento para esse otimismo baseava-se, segundo os analistas do banco, em “juros mais baixos, aprovação mais rápida do que o esperado para as reformas e fim da recessão”.

Já os analistas do banco suíço UBS reiteraram na terça-feira a recomendação de compra para a Bovespa, estimando que o principal índice acionário do Brasil deve atingir 77 mil pontos até dezembro deste ano. E os estrategistas de câmbio do banco francês Société Générale, em nota a clientes nesta semana, listou o real como uma das moedas emergentes em relação às quais eles estavam mais “bullish”.

Um gestor de um grande fundo de investimento europeu, que pediu para não ser identificado, explicou as razões para tanto otimismo. Primeiro, há a percepção de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva estará fora da corrida presidencial de 2018, aumentando a confiança de que não haverá nova guinada heterodoxa na economia brasileira a partir de então. Segundo, que novos desdobramentos da Lava Jato não vão ferir mortalmente o presidente Temer a ponto de paralisar seu governo. E, por fim, que a reforma da Previdência será aprovada rapidamente e sem grandes alterações na proposta original enviada ao Congresso.

Aliás, o único cenário possível para a aprovação dessa reforma é sem atraso no cronograma, na visão dos investidores. Tudo isso permitirá uma taxa Selic, os juros básicos da economia, bem mais baixa do que o esperado ao fim do atual ciclo de afrouxamento monetário pelo Banco Central. Na última pesquisa Focus, os analistas esperam que a Selic caia para 9,0% no fim deste ano e para 8,75% ao fim de 2018.

O problema desse cenário otimista é que ele deixa pouco espaço para contratempos. O que aconteceria com os preços das ações ou da moeda brasileira se houver algum revés na tramitação da reforma da Previdência ou se uma surpresa na Operação Lava Jato paralisar o governo Michel Temer?

Durante um evento de trabalhadores rurais nesta semana, o ex-presidente Lula criticou as reformas do governo e avisou que vai viajar pelo País para alertar os cidadãos. Movimentos populares e entidades sindicais estão convocando em todo o País uma série de manifestações contra a reforma da Previdência para hoje.

O que os investidores ainda não estão levando em conta é a pressão crescente das ruas sobre os parlamentares contra a proposta de mudança na Previdência Social. E a oposição a pontos críticos da reforma, como a idade mínima de aposentadoria de 65 anos e as regras de transição, já ganha tração até de partidos da base aliada de Temer.

Mas os investidores encaram a reforma da Previdência como um “tudo ou nada”. Até porque, se a reforma não for aprovada até o terceiro trimestre deste ano, a percepção deles é de que tramitação desse projeto poderá ser atravancada pela antecipação da corrida eleitoral de 2018, colocando-o em risco de ficar pelo caminho. E até lá tem uma Lava Jato pela frente.

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