Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

'É um alívio ver o governo empenhado em consertar os erros'

Na avaliação da professora e pesquisadora do Wilson Center em Washington, a guinada na política econômica e a nomeação de Joaquim Levy para a Fazenda foram avanços fundamentais nos primeiros dias do segundo mandato de Dilma Rousseff

Entrevista com

Monica de Bolle

Carla Araújo, Karla Spotorno, Mário Braga , O Estado de S. Paulo

10 Abril 2015 | 16h42

A guinada na política econômica e a nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda foram avanços fundamentais nesses primeiros dias do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, na avaliação da professora Monica Baumgarten de Bolle, pesquisadora do Wilson Center em Washington.

"Foi um alívio saber que o governo, ainda que não tenha reconhecido explicitamente os equívocos do primeiro mandato, esteja empenhado em consertar os erros que criou para si e para o País", afirmou a economista.

Segundo ela, o ministro Levy tem uma enorme importância no sucesso deste segundo mandato e faz jus a atual fama de ser "indemissível". "Ele é fundamental. Não é apenas porque tem as credenciais para levar a cabo o ajuste, como também porque, com o crescente isolamento da Presidente, concentra em si as esperanças de que o governo possa consertar parte dos problemas criados nos últimos quatro anos", disse.

Abaixo você confere a opinião da economista Monica De Bolle nessa entrevista de apenas três perguntas dentro da série especial do Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, sobre os cem dias do governo Dilma 2.

Qual o principal avanço e o principal retrocesso nesses Cem Dias de Dilma 2?

O avanço, claramente, foi a guinada na política econômica com a indicação da nova equipe e o foco no ajuste fiscal. Depois de anos de desconstrução experimental por meio da fracassada "Nova Matriz Econômica", foi um alívio saber que o governo, ainda que não tenha reconhecido explicitamente os equívocos do primeiro mandato, esteja empenhado em consertar os erros que criou para si e para o País. O retrocesso, claramente, é a política. Apesar das eleições aguerridas e do clima acirrado que tomou conta do País, arrisco dizer que ninguém esperava tamanha implosão da base governista. O Brasil atravessa uma crise político-institucional como há muito não se via, e, evidentemente, arrumar a economia nessas condições é desafio portentoso.


Nesses cem dias, o sucesso do ajuste fiscal dependeu, principalmente, da credibilidade no ministro da Fazenda. Como a senhora acredita que será daqui para frente?

Não há dúvida de que o Ministro Joaquim Levy é, hoje, "indemissível", como andam dizendo por aí. Ele é fundamental, não é apenas porque tem as credenciais para levar a cabo o ajuste, como também porque, com o crescente isolamento da Presidente, concentra em si as esperanças de que o governo possa consertar parte dos problemas criados nos últimos quatro anos. O risco é que, diante do atual quadro político, o ajuste fiscal brasileiro tem apenas um ferrenho defensor - e esse ferrenho defensor não é um político, mas um técnico. Técnico competente, mas, ainda assim, técnico. Qualquer pacote de ajuste que careça de apoio político e social, que se sustente apenas nos ombros de um técnico, enfrenta grande risco de fracasso. Sobretudo quando se considera que os efeitos de anos de desmandos econômicos, acoplados aos desdobramentos do escândalo da Petrobras, apenas começaram a aparecer - o desemprego ainda vai subir, a inflação também. Nesse contexto, é difícil imaginar que o ajuste ganhe o apoio de que necessita da sociedade.

O que o governo precisa fazer neste ano para alavancar o crescimento econômico a partir de 2016?

Em duas palavras? O ajuste. Não há como pensar em retomada de crescimento sem que antes tenham sido eliminados os desequilíbrios construídos durante o primeiro mandato. O ajuste, entretanto, não é suficiente para fazer a economia brasileira voltar a crescer de modo mais vigoroso. Há uma extensa pauta de reformas a ser implantada - tudo aquilo que é repetido à exaustão pelos economistas e demais analistas. O problema é que essa pauta - investimento em infraestrutura, reformas tributárias e trabalhistas, reformulação das políticas na área de educação - requer tempo e recursos, ou seja, seus efeitos demoram muito para aparecer. Antes disso, tenho insistido que o Brasil precisa repensar sua inserção no mundo, retomar a agenda de abertura comercial. Há mudanças importantes ocorrendo nessa área em todo o mundo: a criação da Aliança do Pacífico, o mega acordo entre os EUA e os países do Pacífico (TPP), além do mega acordo EUA-Europa (TTIP). É preciso que o Brasil se posicione e busque sair da armadilha de ser uma das economias mais fechadas do planeta. Afinal, há inúmeros estudos que mostram que abertura beneficia não apenas o crescimento, como leva à redução da desigualdade social.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.