Economia ajuda a elevar risco brasil, dizem analistas

Não é só a variável política que está afetando a percepção de risco do Brasil pelo mercado financeiro. Ainda que ela tenha peso significativo, a evolução menos favorável do que a esperada para alguns fundamentos da economia doméstica também representa parcela de culpa nessa mudança de humores. O que tem dividido as opiniões de economistas de dentro e de fora do mercado é o tamanho da influência do lado político ou do lado econômico. "Do aumento de mais de 220 pontos base para o risco Brasil nas últimas semanas, eu me arriscaria a dizer que 80% vem exclusivamente do cenário político. A partir dele é que as pessoas começaram a ver os fundamentos de uma maneira mais pessimista", avalia o estrategista chefe do JP Morgan, Lúis Fernando Lopes. Para o economista chefe do Lloyds TSB, Odair Abate, o peso dado ao fator político tem sido excessivo. "A ênfase que tem se dado às eleições no mercado a seis meses do pleito, embora fatores importantes tenham ocorrido, me parece um pouco exagerada", comenta o economia do Lloyds. "Não que os fundamentos estejam ruins. Eles somente não estão caminhando com a velocidade e a intensidade que se esperava. Se essa evolução fosse mais sólida, o receio no mercado sobre mudanças com o próximo presidente seria muito menor", acrescenta. Independente do tamanho da influência política sobre a percepção de risco, o fato é que alguns dos fundamentos internos começam a trazer certo desconforto. Destacam-se aqui quatro deles: o fiscal, o das contas externas, o de atividade econômica e o de inflação. Entre os quatro, pode-se dizer que as expectativas mais otimistas recaem justamente sobre aquele que hoje é citado como fonte de maior preocupação em todas as propostas de candidatos e partidos: o das contas externas. Contas externasEmbora as exportações e os saldos da balança comercial não tenham crescido como se imaginava, em boa parte por conta do desaquecimento da economia global e da queda nas vendas para a Argentina, os fluxos de investimento direto para o Brasil continuam positivos, o tamanho do déficit está encolhendo e a esperada recuperação de economias desenvolvidas ainda neste ano, especialmente a norte-americana, terá efeito positivo sobre as exportações tanto em termos de preço quanto de volume. Além disso, a solução apresentada pelos candidatos para a redução da vulnerabilidade externa não terá novidades, pelo menos em termos conceituais: aumento das exportações e substituição das importações, de preferência sem fechamento da economia. "Se fizéssemos uma foto e um filme sobre esse fundamento das contas externas, a primeira apareceria ruim e o segundo apareceria bom", comenta o economista Eduardo Giannetti da Fonseca.Fundamentos fiscaisJá as expectativas dos economistas sobre os fundamentos da área fiscal, de inflação e de atividade econômica não andam das mais otimistas. Na área fiscal, por exemplo, acendeu luz amarela a apertada folga entre o superávit primário no primeiro trimestre e a meta acordada com o FMI (R$ 11,5 bilhões contra R$ 11,4 bi). A preocupação não vem do resultado em si, mas sim no que ele sinaliza em termos de dificuldades para o cumprimento das metas no segundo e terceiro trimestre, quando não haverá mais receitas extraordinárias, como o pagamento de tributos atrasados pelos fundos de pensão. Neste primeiro trimestre, as fundações desembolsaram algo em torno de R$ 4,3 bilhões, no segundo algo como R$ 3 bi e o terceiro trimestre praticamente não contará com essa parcela extra. Além disso, salvo no caso de fim da noventena, a Receita ficará algum tempo sem incidência da CPMF, o que deve exigir um corte expressivo na programação orçamentária do ano, dado que o aumento do IOF deverá compensar apenas parcialmente essa perda. Tudo isso remete a um problema maior, não despercebido pelo mercado, que é a própria fragilidade estrutural do sistema fiscal e dos gastos públicos no País. "O ajuste fiscal ainda não chegou lá", comenta o economista Raul Velloso. Ele lembra que os superávits nos últimos anos foram basicamente viabilizados pelo realinhamento da taxa de câmbio (que também provocou aumento expressivo da parcela da dívida ligada ao dólar) e por receitas de cunho temporário (por exemplo, o IR dos fundos de pensão e venda de concessões ao setor privado), não acompanhadas por cortes nas depesas federais. Ao mesmo tempo, os gastos fixos com pessoal (INSS e Previdência, principalmente) representam fatias cada vez maiores do bolo orçamentário e, se não resolvidas logo, podem colocar as contas públicas em situação delicada, avalia Velloso. "O grande problema é que a dívida líquida do setor público continua em trajetória explosiva e os ajustes feitos não resultaram em estabilização da relação dívida/PIB", reforça o economista Eduardo Giannetti da Fonseca. Voltando à ilustração da foto e do filme, ele diz que na área fiscal a foto estaria boa, mas que o filme estaria "péssimo". No mercado, é comentário freqüente o fato de que as reformas na área tributária e previdenciária são substancialmente mais complexas. E dotadas de forte tempero político.Atividade econômica e inflaçãoAo desconforto com a área fiscal, somam-se as expectativas pouco cômodas sobre a atividade econômica e a inflação neste ano. Os dados de produção industrial de março divulgados ontem pelo IBGE reforçaram uma percepção que há algum tempo vinha tomando corpo no mercado, de que a atividade está se recuperando mais lentamente que o esperado. Houve queda de 3,8% na produção sobre março de 2001 e de 0,8% sobre o mês anterior - a primeira queda mensal em quatro meses. As expectativas dos agentes financeiros e do próprio governo para o crescimento do PIB no ano, em torno de 2,5%, começam a convergir agora para algo em torno dos 2% ou um pouco abaixo disso. O comportamento da inflação - e sua relação com a política monetária e o nível de atividade - também não tem ajudado. Os economistas lembram que os chamados preços livres começam a registrar sinais de queda, mas que do outro lado a estrutura das concessões (principalmente no setor elétrico) revela uma permanente pressão inflacionária nos preços administrados. Assim, para qualquer pressão inesperada ao longo do ano - petróleo, por exemplo -, volta-se a dúvida sobre o cumprimento da meta inflacionária mesmo que dentro de seus intervalos de variação. "Ainda que não explosiva, as taxas acumuladas neste ano têm ficado acima do esperado, sinalizando uma proximidade muito forte do teto da banda (de 5,5%, pelo IPCA)", comenta Odair Abate, do Lloyds. "A inflação vem cedendo num ritmo mais lento do que o esperado tanto pelo governo quanto pelo mercado", reforça o economista chefe do West LB Europeu, Nicola Tingas, em entrevista à repórter Rita Tavares. "Não há nada dramático em termos de fundamentos, mas há uma série de pontos que não se comportaram como era o esperado", avalia.?Risco político?Além do crescimento de Lula nas pesquisas, praticamente todos os bancos que reduziram recentemente o peso de Brasil em suas carteiras citaram nas exposições de motivos, com maior ou menor ênfase, a piora dos fundamentos econômicos no Brasil. "Além do risco político e da volatilidade com o cenário político, os fundamentos da economia brasileira pioraram", disse o estrategista de renda fixa para Brasil do Morgan Stanley, Jaime Valdívia-Hernandez, na ocasião do rebaixamento. O cenário no mês de abril em que a inflação ficou acima do esperado, o crescimento econômico esteve abaixo do que o mercado projetava, aumentou a liderança do Lula e José Serra (PSDB) continuou com números baixos nas pesquisas eleitorais acabou influenciando a decisão de rebaixar a dívida brasileira, especialmente porque o desempenho dos títulos da dívida e da bolsa brasileira decepcionaram, explicou o diretor de pesquisa econômica e de renda fixa para mercados emergentes do ABN Amro, Arturo Porzecanski, citando ainda a interrupção no processo de redução das taxas de juros pelo Banco Central e a performance fiscal. "A meta de superávit primário do primeiro trimestre foi atingida a duras penas. Ou seja, quando se soma a esse cenário o risco político, então temos uma mudança de perspectiva para os ativos", afirmou. Mesmo quem manteve o peso do Brasil na carteira citou a questão dos fundamentos. É o caso do economista-chefe para América Latina do ING, Larry Krohn, que ao explicar a manutenção do "overweight" disse ao correspondente Fábio Alves que o fortalecimento de Lula nas pesquisas de opinião que serão divulgadas no curto prazo continuará afetando os preços dos títulos da dívida, da moeda e da bolsa brasileira. "Especialmente porque há fatores econômicos afetando os fundamentos brasileiros, como a interrupção no corte da taxa Selic e as pressões da inflação", disse.O mercado erraDentro de toda essa discussão política x fundamentos, tem surgido com frequência a questão dos erros e acertos do mercado financeiro sobre a influência do crescimento de Lula (PT) nas pesquisas eleitorais. É fato conhecido que há ocilações nas avaliações do mercado, mas há divergências entre os economistas sobre os acertos dessas considerações. "Não há nada mais equivocado do que o mercado financeiro", comenta o ex-ministro Luiz Carlos Bresser Pereira, autor de um polêmico estudo econômico feito para o PSDB sobre as necessidades de mudanças na atual política econômica. "Não creio que as avaliações de risco do Brasil devam levar em conta o crescimento de Lula nas pesquisas, esse medo é pouco fundamentado. Ainda que eu discorde de alguns pontos em relação ao Lula, de modo geral não vejo nenhum grande risco de seu partido assumir o governo", acrescenta o ex-ministro. "Querer que o investidores estrangeiros tenham uma indiferença em relação às eleições já é pedir demais", rebate Roberto Teixeira da Costa, vice do Conselho de Administração do Banco Sul América. "O programa do PT tem coisas que assustam os investidores. E a idéia de que o analista local não vai repercutir as coisas que ele ouve e vê por aqui lá fora é ilusória", completa. O executivo revela ainda uma percepção interessante: esse medo com o crescimento do PT é mais visível entre os investidores norte-americanos do que entre os europeus, na visão de Teixeira da Costa, talvez pelo fato de os segundos terem passado por experiências recentes com partidos de oposição no poder. "Não vejo a mesma disposição do americano, talvez por falta ou excesso de informação", diz.

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