Ed Jones/AFP - 19/05/2021
Ed Jones/AFP - 19/05/2021

Economia americana gira sem sair do lugar, mas está prestes a decolar

Depois da paralisação no ano passado, a atividade econômica nos Estados Unidos volta acelerar, mas empresas enfrentam problemas para recompor estoques e recontratar trabalhadores

Paul Krugman*, The New York Times

28 de maio de 2021 | 20h09

Você está dirigindo seu carro, a caminho de uma reunião, mas está começando a se atrasar e fica preso num sinal vermelho. Como cidadão obediente à lei, você não avança no sinal vermelho, mas pisa fundo no pedal do acelerador assim que o semáforo abre.

Por um nauseante momento - talvez porque o asfalto está meio molhado - seus pneus patinam inutilmente, antes de ganhar aderência e movimentar seu carro.

Está dizendo que isso nunca aconteceu com você? Sei, sei. De qualquer maneira, cantar pneu é um fenômeno comum e, normalmente, não causa danos. Poucos minutos depois desse constrangedor descontrole inicial, porém, você já está dirigindo normalmente e o incidente já está quase esquecido.

Essa cena me remete ao atual estado da economia americana. O noticiário econômico está carregado de ansiedade esses dias. Os preços das matérias-primas estão nas alturas! As empresas não conseguem encontrar trabalhadores! Estamos revivendo os anos 1970!

Calma, pessoal. Em grande parte, estamos apenas experimentando o equivalente na economia a esse momento em que a roda carro gira sem sair do lugar.

OK, há alguns temas reais envolvendo a atual conjuntura que precisam ser discutidos - e algumas dessas discussões, surpreendentemente, envolvem debates sérios entre pessoas sérias. Em que medida as escolas fechadas e a falta de creches estão mantendo as mães fora das folhas de pagamento? A melhora na ajuda para desempregados está aumentando a relutância dos trabalhadores em aceitar empregos com salários baixos?

Há questões válidas a respeito de onde estaremos no próximo ano. E se a economia começar a superaquecer, forçando o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) a pisar nos freios para evitar uma inflação persistente? Não acho que esse seja o resultado mais provável, mas é certamente possível.

A maioria das assustadoras manchetes de hoje, porém, reflete o que seria esperado de uma economia que está tentando acelerar de 0 a 100 em uma vez.

No começo deste ano, os Estados Unidos ainda estavam quase completamente afundados na pandemia. Os índices diários de mortes nunca estiveram tão altos, a covid-19 ceifava mais de 3.500 vidas todos os dias no país. Os setores da economia que dependem de contato físico próximo estavam quase totalmente congelados: o serviço de reservas em restaurantes OpenTable.com registrava uma queda de 60% nos jantares nos estabelecimentos em comparação com o período similar antes da pandemia.

Veio então uma campanha de vacinação extraordinariamente bem-sucedida. As mortes caíram em mais de 85% e ainda estão em queda. À medida em que o medo vai embora, a economia está ressurgindo, numa recuperação que poderá ser a mais rápida de todos os tempos. As reservas em restaurantes já estão quase de volta ao normal, por exemplo.

E por que alguém imaginaria que seríamos capazes de conseguir tamanha aceleração tão subitamente sem deixar marcas no asfalto, sem queimar um pouco de borracha?

Então aconteceu que as serrarias, esperando uma recessão mais longa, foram pegas de surpresa, o que levou à alta nos preços das tábuas de madeira. Empresas de aluguel de automóveis, que se livraram de grande parte de sua frota no ano passado, agora se engalfinham para conseguir comprar veículos, o que eleva o preço dos carros usados. E assim por diante.

E o que dizer desses relatos de escassez de mão de obra? Parte disso é o que sempre acontece após um período de alto desemprego: as empresas ficam acostumadas a ver candidatos a vagas de trabalho fazerem fila em suas portas e ficam mal-humoradas quando o mercado muda. Uma pesquisa entre pequenos negócios feita no início de 2015 constatou uma grave escassez de trabalhadores qualificados; é estranho dizer, mas o boom de empregos que havia começado em 2010 ainda tinha mais cinco anos pela frente.

É um pouco… difícil, digamos, ter pena de empregadores reclamando a respeito de candidatos às vagas oferecidas que perguntam, “Qual é o salário?”.

Ainda assim, há alguma evidência real, como o número de vagas abertas, de que empregadores estão com problemas para contratar trabalhadores com rapidez suficiente para suprir sua crescente demanda. E questões como a das creches têm um papel nisso. Pode haver também um pouco do espírito do “Sabe o que você pode fazer com esse emprego?” - alguns trabalhadores, especialmente os que estão próximos da aposentadoria, podem simplesmente não querer voltar aos desagradáveis e mal pagos empregos que tinham antes.

Mas o que estamos vendo principalmente são apenas problemas já esperados quando uma economia tenta acelerar com tudo desde a linha de partida, o que significa que estamos pedindo que os fornecedores aumentem a produção em uma velocidade incrível e esperando que os empregadores atraiam rapidamente um grande número de novos trabalhadores. Esses problemas são reais, mas em sua maioria estarão resolvidos em poucos meses.

Então o que esses problemas provavelmente temporários dizem a respeito do futuro a longo prazo e, particularmente, a respeito dos planos econômicos do presidente Joe Biden? Essa é fácil de responder: nada. Políticos agirão como políticos, e os oponentes de Biden estão usando cada pedacinho de notícia ruim como prova de que a agenda inteira do presidente está fadada ao fracasso. Mas nada disso deve ser levado a sério.

Sim, os problemas para preencher vagas de trabalho restringiram o crescimento do emprego em abril, apesar de dados mais recentes sugerirem uma possível recuperação. A inflação de abril surpreendeu, em grande parte por causa dos preços dos carros usados. Nada disso nos diz absolutamente nada a respeito do quanto devemos nos preocupar com um superaquecimento, muito menos a respeito de quanto deveríamos estar gastando em infraestrutura e apoio às famílias (resposta: muito) ou a respeito da maneira como devemos pagar por essas iniciativas (resposta: taxando empresas e os ricos).

Então, como eu já disse, calma. Vamos ver algumas notícias ruins, mas a maior parte disso é um subproduto temporário de notícias extraordinariamente boas: o vírus está perdendo, e a economia está vencendo. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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