Evelson de Freitas/AE-27/12/2010
Evelson de Freitas/AE-27/12/2010

Economia aquecida e câmbio são os vilões

Rombo nas contas externas, de US$ 47,5 bi, é o dobro de 2009 e o maior desde 1947

Fernando Nakagawa e Fabio Graner, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2011 | 00h00

A economia aquecida e o dólar barato levaram as contas externas a um rombo histórico em 2010. Com recorde nas viagens internacionais, remessa de lucros em alta e mais importações de mercadorias e serviços, o Brasil teve saldo negativo de US$ 47,52 bilhões na conta de transações correntes - que registra a entrada e saída de dólares para pagamento de bens e serviços.

O valor é quase o dobro do verificado no ano anterior e recorde da série histórica iniciada em 1947. Apenas em dezembro, o déficit somou US$ 3,49 bilhões.

Ao apresentar os números, o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes, minimizou o aumento do saldo negativo que, de um ano para o outro, cresceu mais de US$ 23 bilhões. "O déficit aumentou e é recorde em dólares. Mas, se comparado ao tamanho da economia, o resultado corresponde a 2,28% do Produto Interno Bruto, abaixo do recorde", relativiza Lopes. Nesses termos, o resultado é o mais alto desde 2001, quando as contas externas obtiveram saldo negativo equivalente a 4,19% do PIB.

O relatório do BC mostra que a saída de dólares foi acelerada em vários segmentos. Nas viagens internacionais, brasileiros gastaram US$ 10,5 bilhões a mais que estrangeiros em viagens ao Brasil. Por isso, o déficit do turismo saltou 88% ante o ano anterior para um novo recorde.

Outra marca foi verificada na saída de dólares para pagar aluguel de equipamentos, como guindastes e plataformas de petróleo. Em um ano, a conta cresceu 46% e somou US$ 13,68 bilhões em 2010.

Também foi verificada alta de 20% na remessa de lucros e dividendos feita por multinacionais instaladas no Brasil, que transferiram US$ 30,37 bilhões às sedes. As remessas ocorrem porque as filiais brasileiras têm obtido bons resultados com a economia aquecida e, ao mesmo tempo, as sedes precisam de ajuda, já que os mercados maduros enfrentam dificuldades.

Balança. Ao mesmo tempo em que o Brasil remete mais dólares para o exterior, a entrada da moeda estrangeira tem diminuído. Na balança comercial, a demanda doméstica aquecida aumentou as importações em 42% em um ano. O desempenho afetou o saldo comercial, que caiu 20% ante 2009 e somou US$ 20,26 bilhões. "Em dólares, o rombo é recorde. Mas o resultado na comparação com o PIB ainda está bastante tranquilo. Historicamente, o déficit começa a preocupar quando chega a um patamar próximo de 4,5% ou 5% do PIB", disse Fabio Kanczuk, professor de economia da USP. Projeções feitas pelo professor mostram que, na pior das hipóteses, o déficit de 2011 deve atingir 3,5% do PIB.

O BC é mais otimista. Pelas projeções oficiais, o saldo negativo deve chegar a US$ 64 bilhões ou 2,84% do PIB.

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