Marcos De Paula/Estadão
Marcos De Paula/Estadão

'Economia brasileira é avião com motor ligado, mas freio de mão puxado'

Para o economista, interlocutor frequente do ministro da Economia, Paulo Guedes, o crescimento ganhará ritmo com investimentos privados e será impulsionado, de um lado, por um 'mix macroeconômico'

Entrevista com

Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2019 | 07h00

A economia brasileira é um avião, parado na cabeceira da pista, com o motor ligado, mas o freio de mão puxado, compara o economista Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial (CEM) da Fundação Getulio Vargas (FGV) e ex-presidente do Banco Central (BC).

Para o avião decolar, basta o Congresso Nacional seguir com o perfil reformista, como já está, ao tocar a nova etapa de reformas apresentada pelo governo na terça-feira, disse Langoni, que projeta crescimento econômico de 3,0% em 2020, acima da maioria das estimativas. Para o economista, interlocutor frequente do ministro da Economia, Paulo Guedes, e tido como consultor informal da equipe econômica, o crescimento ganhará ritmo com investimentos privados e será impulsionado, de um lado, por um “mix macroeconômico” inédito, com política fiscal contracionista e política monetária expansionista, e, de outro, por uma redução na percepção de risco da economia brasileira.

Langoni organiza, na sexta-feira, no Rio, um seminário sobre a avaliação de risco, com a participação do ministro Guedes. A seguir, os principais trechos da entrevista ao Estadão/Broadcast:

O risco do Brasil medido pelas taxas dos CDSs está nas mínimas. Por quê?

Isso já vinha se refletindo na escalada do mercado acionário, sempre correlacionado com a melhora de percepção de risco, e reflete a visão do mercado de que a estratégia da equipe econômica do ministro (da Economia) Paulo Guedes está absolutamente consistente. Em política econômica, a ordem dos fatores altera o produto. O governo atual começou de maneira absolutamente correta, colocando todo o peso na reforma do Estado, construindo uma âncora fiscal sólida e previsível. Isso se refletiu, à medida que foi ficando evidente a viabilidade da aprovação da reforma da Previdência pelo Congresso, numa melhora nos índices de confiança, principalmente de confiança empresarial. Em torno de julho, esses índices de confiança se estabilizaram num patamar alto, aguardando a sequência de reformas. Essa sequência veio agora, com uma reforma do Estado ampla e profunda, que tem alguns aspectos muito importantes, porque cria condições institucionais para evitar crises fiscais recorrentes.

Se a ordem dos fatores altera o produto, a equipe econômica está certa ao privilegiar reformas e deixar de lado medidas de curto prazo pró-crescimento?

No Brasil, com esse histórico de crises fiscais recorrentes, de desequilíbrio das contas públicas crônico, não só no governo federal, mas já contaminando Estados e municípios, seria impossível adotar qualquer política pró-crescimento de curto prazo sem antes reestabelecer a ordem nas contas públicas e a perspectiva de reversão, principalmente, da tendência explosiva de crescimento da relação entre dívida pública e PIB, que está caminhando já para a faixa de 80%. Ao colocar todo o peso na questão fiscal, inclusive melhorando o desempenho no curtíssimo prazo, com recursos extras relacionados aos leilões de petróleo, repasses ao Tesouro de recursos da Caixa e devoluções do BNDES, foi reestabelecida a confiança. Isso já se refletiu na melhora do mercado acionário e na melhora da percepção do risco-País.

Isso é suficiente para a retomada do crescimento?

O que as pessoas não perceberam é que nessa transição existe uma mudança no “mix” macroeconômico, que beneficia tremendamente a retomada do crescimento. Hoje temos uma política monetária expansionista, com juros reais e nominais historicamente baixos, e uma política fiscal contracionista. É exatamente o oposto de tudo o que já fez o Brasil nos últimos 10 ou 12 anos. O Brasil sempre usou e abusou de estímulos fiscais, subsídios, e apertava o monetário. Temos agora uma mudança que facilita imensamente a retomada do crescimento, que, desta vez, vai ser liderado pelo investimento privado e não pelo consumo das famílias. Não só investimentos em infraestrutura e no setor de óleo e gás, mas também os setores que são intensivos em financiamento, como bens duráveis e a construção civil. Sem precisar criar nenhum artifício, apenas com a correção desses megadesequilíbrios internos, criaram-se as condições para, pela primeira vez, haver uma retomada com “mix” macroeconômico que privilegia a política monetária, com juros baixos, e não a política fiscal. Isso já está se refletindo e vai começar a aparecer de forma muito mais visível no crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) no ano que vem, principalmente a partir do segundo trimestre. Estou com crescimento do PIB de 3,0% para 2020.

Não há riscos no front externo?

Estou imaginando um cenário de razoável normalidade da economia mundial, partindo do pressuposto de que, até por razões políticas, Estados Unidos e China vão chegar a um acordo comercial e isso vai reduzir as tensões que estão gerando essa desaceleração sincronizada que o FMI (Fundo Monetário Internacional) mencionou. E os bancos centrais das principais economias avançadas estão também com uma política pró-ativa para estimular o crescimento. Então, temos aí uma situação em que provavelmente a economia mundial não deverá ter nenhuma descontinuidade recessiva. Mesmo que ela cresça menos, já é suficiente para que, com essa melhora do ambiente interno do Brasil, a economia decole para a faixa de 3,0%.

O que impulsiona essa aceleração do crescimento?

No modelo do Paulo Guedes, o crescimento é alavancado pelo investimento privado, mas vai haver uma retomada dos ganhos de produtividade. Está havendo simultaneamente um processo de abertura muito saudável e necessário. O acordo entre Mercosul e União Europeia é um primeiro passo, mas virão outros acordos bilaterais. A economia vai acelerar porque haverá uma combinação. A taxa de investimento vai aumentar. Hoje, ela está muito deprimida e vai começar a crescer em função da melhoria dos índices de confiança e da redução da incerteza, com o novo “mix” macroeconômico, e, ano que vem, teremos uma onda de concessões e privatizações para valer. Estou vendo o início de um novo estágio de crescimento, com fundamentos macroeconômicos completamente distintos do passado. É um crescimento liderado pelo setor privado, e não pelo Estado. É um crescimento baseado em aumento de investimentos em função da melhoria da percepção de risco e não estimulado por subsídios artificiais e, principalmente, um crescimento ancorado na perspectiva de que o Brasil está, finalmente, reformando o Estado e reduzindo a probabilidade de crises domésticas associadas a déficits crônicos.

A liquidez e juros baixos internacionais não ajudam também na redução do risco?

Para o Brasil, é muito mais o ajuste interno, mas é evidente que, quando há tensões externas, mesmo com a economia bem comportada... Por outro lado, o Brasil tem dois trunfos. Pela primeira vez em muitos anos vamos ter uma retomada com inflação historicamente baixa. E, segundo, estamos plenamente confortáveis nas contas externas. Temos um déficit em conta corrente em torno de só 2,0% do PIB, que é financiado confortavelmente por capitais de longo prazo. Vamos ter este ano investimento direto estrangeiro da ordem de US$ 80 bilhões. As condições para o crescimento estão dadas. O Brasil é um avião, que está na cabeceira da pista, com o motor ligado. O freio de mão está puxado ainda. O que falta para soltar o freio de mão é isso que já está acontecendo: o Congresso seguir como um Congresso reformista. Vai haver mudanças aqui e ali (no conjunto de propostas de reformas apresentado pelo governo na terça-feira), faz parte da democracia, mas o importante é a direção. É um país emergente que está atacando tabus. E o tabu é essa tendência crônica de ter um Estado onipotente e falido do ponto de vista financeiro, econômico e gerencial.

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