Economia brasileira no rumo certo

Tem vários méritos a reação das políticas econômicas brasileiras ante as grandes transformações em curso na economia mundial no período de crise pós-2008. A adoção de medidas anticíclicas evitou um maior contágio dos efeitos deletérios da queda de atividade, primeiro, na economia norte-americana e, mais recentemente, na economia europeia, assim como das políticas e ações que têm sido implementadas por esses países.

Antonio Corrêa de Lacerda *,

25 de abril de 2013 | 02h06

Desde então, o governo brasileiro tomou atitudes expressivas: introduziu medidas macroprudenciais para melhor aparelhar a política monetária, adotou ações de controle de fluxos de capitais internacionais (IOF), reduziu os juros, desvalorizou o câmbio e desonerou tributos e encargos sobre produtos finais, insumos, como energia elétrica, e folha de pagamentos. Mas, apesar do acerto na direção tomada, ainda carecemos de condições de competitividade sistêmicas mais compatíveis com a realidade em curso na economia mundial. Há questões estruturais envolvidas desde a intensificação da globalização das últimas décadas, agora agravadas com o excedente de produção em muitos países e as guerras comercial e cambial em curso.

O quadro descrito intensifica a necessidade de adaptações e ajustes. Apesar da queda dos juros básicos, por exemplo, os níveis praticados no Brasil ainda tornam o custo do capital, para financiamento ou crédito, muito alto para padrões internacionais. Na questão cambial, embora tenha havido desvalorização do real, outros países também provocaram a desvalorização da sua moeda. Além disso, muitas das medidas de desoneração de tributos e redução de encargos financeiros têm prazo limitado de validade, o que contrasta com as condições oferecidas a nossos concorrentes, especialmente China e Coreia do Sul, que têm políticas de Estado de incentivo a investimentos produtivos, inovações e exportações.

Também é importante ter visão estratégica de mais longo prazo e que contemple um conjunto de políticas e ações que propiciem melhores condições de competitividade para a nossa economia. É isso que vai garantir que o nosso substancial potencial de consumo gere decisões de investimentos, de incremento do valor agregado local, fomento à inovação e ampliação de plataformas de exportação de produtos industrializados. Daí a importância da noção de timing dos processos. Muitas das medidas em curso só terão resultados no médio prazo. É muito importante que a frustração com a ausência de resultados imediatos não leve a uma reversão da rota em curso. Em muitos casos, será preciso persistência, especialmente em face de um cenário internacional tão complexo como o atual.

O crescimento econômico de curto prazo tem deixado muito a desejar. Mas o desempenho da economia tem sido afetado pelas mudanças dos macropreços em curso. Após um longo período de câmbio persistentemente valorizado e juros excessivamente altos, toda a estrutura da economia estava adaptada àquelas circunstâncias. Trata-se de um movimento natural de sobrevivência dos agentes que, embora justificável, do ponto de vista microeconômico é insustentável para o País. Embora tenhamos bons indicadores de solidez dos fundamentos macroeconômicos, o crescente déficit em conta corrente do balanço de pagamentos, que pode chegar a US$ 65 bilhões este ano, é preocupante, nem tanto por sua dimensão absoluta e mesmo relativa, mas pela rapidez do seu crescimento.

A correção de rota em curso no País traz seus custos, inclusive em prejuízo a um maior crescimento no curto prazo, muitas vezes combinado com pressões inflacionárias localizadas. Mas, a partir da nova base, o resultado posterior será de melhor qualidade. É um processo dinâmico e contínuo, que não se exaure. É preciso tomar todas as medidas necessárias para proteger e fortalecer nossas defesas, além de implantar estratégias ativas de inserção, considerando as novas circunstâncias.

* Antonio Corrêa de Lacerda é professor-doutor do programa de estudos pós-graduados em Economia Política da PUC-SP e doutor pelo IE/Unicamp. E-mail: lacerda.economista@gmail.com.
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