Economia padece de 'cirrose fiscal', diz professor da FGV

Rubens Penha Cysne destacou o caráter 'sorrateiro' da cirrose, que se manifesta sem apresentar sintomas fortes

Vinicius Neder, O Estado de S. Paulo

19 de outubro de 2015 | 18h27

RIO - A economia brasileira padece de "cirrose fiscal", resultado do quadro de leniência nas contas públicas com a taxa de câmbio flutuante, afirmou nesta segunda-feira Rubens Penha Cysne, professor da EPGE, escola de pós-graduação da Fundação Getulio Vargas (FGV), no Rio. 

Recorrendo à analogia com a medicina, Cysne destacou o caráter "sorrateiro" da cirrose, que se manifesta sem apresentar sintomas fortes. "Leniência fiscal com câmbio fixo é mais fácil de ser percebida", disse o professor, em seminário sobre contas públicas, organizado pela FGV no Rio. 

Para esses casos, segundo Cysne, a melhor comparação é com o enfarte. Foi assim com o Plano Real, de 1998 para 1999, e com a maxidesvalorização da libra na Inglaterra após a Primeira Guerra Mundial. 

Nesses casos, a desvalorização cambial, resultado de contas públicas no vermelho, funciona como alerta de que algo não vai bem na economia. "É uma coisa óbvia, um susto que todos tomam, como o enfarte", afirmou Cysne.

Por outro lado, quando o câmbio é flexível, a leniência fiscal não se mostra com tanta clareza. "A cirrose mina aos poucos", disse Cysne. "O que acontece quando tem descontrole fiscal? O BC eleva o juro de forma a fazer frente à necessidade de conter a inflação, com isso, atrai capital internacional, que valoriza a moeda doméstica, tornando a vida do produtor nacional muito difícil e a dos exportadores também", resumiu o professor.

O resultado é que a indústria começa a minguar, "como o fígado que não dá a energia necessária". "O que estamos assistindo agora é exatamente o fim de um processo muito complicado em que essa cirrose fiscal mina a indústria, mina a capacidade de competição e torna o país muito demandante de reforma fiscal", concluiu Cysne.

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